O equilíbrio entre o realismo e a fantasia

Comparando os finais de Stranger Things e Squid Game, os dois maiores sucessos globais da Netflix.

Escrito por: Julia Segre  Data: 05/01/2026  Atualizado em: 09/01/2026


Hoje em dia é praticamente impossível encontrar alguém que nunca tenha assistido a Stranger Things ou a Round 6, mas é totalmente impossível trombar com uma pessoa que sequer tenha ouvido falar dessas duas séries.

Os dois fenômenos globais criados e produzidos pela Netflix fizeram parte de um verdadeiro império que dominou a cultura pop em todos os aspectos possíveis, conquistando uma legião de fãs e quebrando inúmeros recordes dentro e fora da plataforma. Apesar de retratarem universos completamente diferentes, ambas foram finalizadas no mesmo ano e as conclusões apresentadas para as histórias geraram debate intenso entre os fãs e a crítica especializada- por motivos totalmente antagônicos.  

O objetivo do nosso bate papo hoje é realizar uma comparação entre as duas séries, contextualizando cada um dos finais e tentar chegar a uma conclusão, não apenas de qual final é o mais satisfatório, mas também qual final é o mais condizente com a narrativa até então apresentada.

Para fazer isso, vamos primeiro falar sobre cada série separadamente. Apresentaremos a premissa principal de cada história e também os seus acontecimentos mais importantes, para depois analisar os elementos de cada conclusão que nos foi apresentada, para no final sermos capazes de reuni-los e por fim compará-los. Vamos ao nosso primeiro exercício?


Sessão Stranger Things

Stranger Things é uma série norte americana, lançada pela primeira vez no ano de 2016. Estrelada por um elenco desconhecido, embora houvesse a presença de nomes conhecidos do cinema como Winona Ryder, a série de ficção científica se passa na pequena cidade de Hawkins, inspirada e ambientada na estética dos anos 80.



Foto 01: Pôster de Stranger Things.


Quando um menino chamado Will Byres desaparece na cidade, uma investigação começa a ser feita, mas tudo muda quando a mãe do garoto passa a desconfiar que o sumiço de seu filho era muito mais profundo do que aparentava ser, e com a aparição de diversas criaturas de outras dimensões na cidade, um cenário cada vez mais sombrio vai sendo descoberto a medida que a família e os amigos do garoto tentam recuperá-lo com a ajuda de uma garota com poderes telecinéticos que parece ser a chave de todas as respostas que o grupo procura.





Foto 02: Mike, Lucas e Dustin, amigos de Will Byres, encontrando a garota com poderes Eleven pela primeira vez.


A primeira temporada da série fez um sucesso estrondoso, e não demorou muito tempo para que a segunda temporada, não tão popular quanto a primeira, fosse lançada na Netflix.

No entanto, a grande responsável por popularizar ainda mais a série para o grande público- em especial as crianças- foi a terceira temporada. Com uma estética (e proposta) completamente diferentes das duas seasons anteriores, a terceira temporada de Stranger Things é repleta de luzes e tons vibrantes, o que fez com que a série ganhasse um novo visual juntamente com a temática de um roteiro que se passa no verão e com algumas sub-tramas como o namoro adolescente dos personagens, o que apenas contribuiu com o aumento do público da série, em especial as crianças, o que gerou uma problemática, pois embora a série apresente boa parte de seus personagens como crianças, a série não possui, nem de longe, uma narrativa infantil.





Foto 03: Diferença entre a paleta de cores da segunda e da terceira temporada de Stranger Things.



Essa mudança de ares não agradou muito os fãs mais antigos do seriado, uma vez que toda a paleta de cores era extremamente oposta a utilizada na segunda e na primeira temporada, que reforçavam o tom sombrio e de mistério que a série possuía. Além disso, a temporada dividiu opiniões ao trazer, junto ao arco de Steve, Robin, Erica e Dustin a ameaça do exército russo se sobrepondo ao terror causado pelos monstros do mundo invertido.



Foto 04: Os personagens Steve e Robin sendo torturados pelo exército russo, infiltrado no Shopping Center.


Pensando em tudo isso, na quarta temporada, a produção apostou em uma proposta mais equilibrada, balançeando as paletas de cores de forma inteligente, a fim de agradar os dois tipos de espectadores.



Foto 05: Paleta de cores da 4 Temporada de Stranger Things.


Trazendo mais cenas de terror e horror, como a forma chocante pela qual o grande vilão, Vecna, dilacera suas vítimas, e trazendo todas as luzes e os encantos dos anos 80 nos cenários corretos, a quarta temporada conseguiu ampliar ainda mais os horizontes da série, além de ter sido encerrada com um de mistério e suspense, uma vez que apresenta um final aberto e com um gostinho de batalha final prestes a ser iniciada.

Essa batalha final, no entanto, foi bastante adiada. Com cerca de 3 anos e meio de hiato, Stranger Things fez muitas divulgações a respeito de sua quinta e última temporada, anunciando datas de lançamento que geraram debates nas redes sociais, uma vez que elas englobavam as festas de final de ano.  

A série dos anos oitenta mostrou que, apesar da demora, ainda conseguia ser capaz de quebrar recordes. Os fãs estavam mais do que engajados para acompanhar o desfecho da  narrativa, dedicando-se a assistir novamente a série desde os seus primórdios a fim de memorizar melhor os acontecimentos que conduziriam a quinta temporada, de forma que a série retornou ao top 10 de diversos países assinantes da Netflix por conta dessa tentativa coletiva de se recordar de todos os eventos importantes antes da última temporada ser oficialmente lançada, esforço este que não valeu a pena. Pelo menos não em minha opinião como espectadora que acompanha a série desde o seu princípio.

Stranger Things 5 é ruim, fraca em roteiros e conflitos, e extremamente pobre em cenas de ação. Foi recebida com entusiasmo em relação a primeira parte pela maioria dos fãs (não estou inclusa), detonada durante o segundo período da narrativa e com um final que dividiu muitas opiniões, sendo a maioria delas negativa.

Não é tida exatamente como um fracasso comercial, uma vez que a Netflix de diversos usuários chegou a travar devido a procura massiva dos telespectadores (agora sim eu me incluo), mas está bem longe de ser um fan-favourite.

Contando com furos de roteiro enormes e uma luta final que desagradou a todos, Stranger Things entrega um final que muitos consideraram irrealista, especialmente pela ausência de mortes de personagens relevantes na trama, personagens que passaram por perigos muito mais consideráveis do que aqueles que foram mortos em temporadas anteriores e que ainda sim conseguiram sair ilesos daquela situação.

Sendo 100% sincera, acredito que a única cena que realmente fez sentido ali foi a Joyce (que não havia feito absolutamente nada na batalha final) ser a grande responsável por decaptar o Vecna, que além de ter perdido muito aquela aura de vilão e boa parte do respeito que havia sido construído por ele na quarta temporada, não era nem mesmo a grande ameaça, e sim o devorador de mentes, um plot twist claramente pensado de última hora para surpreender e chocar os espectadores, o que, como todo o resto da quinta temporada, não funcionou muito bem.

Para mim fazia todo sentido ser a Joyce a encerrar tudo aquilo, já que ela também foi a primeira pessoa a desconfiar de que havia algo a mais em relação ao desaparecimento do filho dela. Fora isso, podemos concordar com a maioria dos fãs ao dizer que Stranger Things, assim como Round 6, não ofereceu exatamente aquilo que nós, como fãs, estávamos esperando.



Sessão Round 6

A primeira das séries coreanas a fazer sucesso, e definitivamente a mais conhecida de todas elas, Round 6 foi lançada inicialmente em 2021 e possui três temporadas no total.

Nela, acompanhamos a trajetória de Gi-Hun, um homem viciado em jogos de azar que acaba se endividando a ponto de aceitar qualquer coisa para conseguir um pouco mais de dinheiro. Ao ser levado para uma ilha ultrassecreta com a proposta de disputar alguns jogos em troca de alguns trocados, Gi-Hun acaba descobrindo que, na verdade, se tratam de jogos mortais, e que sua eliminação na competição resultaria em sua morte na vida real.

Juntamente com outros jogadores endividados, Gi-Hun deve pensar em um meio de escapar da ilha.




Foto 06: Poster de Round 6.


Após a primeira temporada se tornar um sucesso absoluto, a Netflix anunciou uma segunda temporada, que levou cerca de três anos para ser produzida. Anunciaram também que haveria uma terceira e última season, que encerraria todo o arco da série, prometendo um final reflexivo e emocionante.

A série, assim como Stranger Things, também fez bastante sucesso entre as crianças, com cenas e personagens se tornando icônicos e facilmente reconhecíveis, como os guardas de uniforme cor-de-rosa e a famosa boneca do "batatinha 1, 2, 3", o que gerou preocupação e debate a respeito do tipo de conteúdo que as crianças com constante acesso a internet poderiam estar expostas, uma vez que Round 6 apresenta cenas de tortura e violência extrema, tendo como a idade de 18 anos a classificação indicativa recomendada para telespectadores a consumirem.



Foto 07: Boneca assassina de Round 6.



De forma bem semelhante com a série americana que estamos acompanhando, a segunda temporada de Round 6 foi lançada em época de festas de fim de ano, no dia 26 de dezembro de 2024. A segunda temporada foi bem recebida e elogiada pelo público, trazendo personagens novos carismáticos e distribuindo com maestria o equilíbrio de criar novos desafios para os personagens enfrentarem, mas sem perder o formato clássico da série, sua essência, aquilo que fez com que Round 6 fosse tão famoso o consumido.

Na trama, vemos Gi-Hun retornar aos jogos com uma nova mentalidade. Agora ganhar não é o suficiente para ele; seu desejo é destruir os jogos e evitar o maior número de mortes possíveis.



Foto 08: Poster da 2 temporada de Round 6.


Seis meses depois temos o lançamento do terceiro volume, em 27 de junho de 2025, que foi vendido como uma nova temporada, mas poderia apenas ser considerada uma extensão da segunda temporada, pois ela se inicia no exato ponto em que a season anterior termina e não conta com pouco mais de meia dúzia de episódios.

Contando com várias reviravoltas surpreendentes, como personagens considerados favoritos para vencer a competição morrendo no primeiro episódio, figurantes disputando o prêmio final e uma verdadeira reviravolta no caráter do personagem principal, a terceira temporada entregou aos seus fãs um final digno de debate, realista o suficiente para ser considerado "sem graça", uma vez que percebemos que o objetivo do protagonista era simplesmente impossível de ser alcançado, já que os jogos aconteciam de forma internacional, e todos os envolvidos na edição coreana saíram impunes dos crimes cometidos contra os jogadores, nos fazendo refletir se o sacrifício de Gi-Hun realmente acabou se tornando vão.




Foto 09: Morte de Gi-Hun, no último episódio da série.



Comparando os dois finais

Falando de forma mais simplória, ambos os finais conseguiram surpreender os seus espectadores. Embora Stranger Things tivesse uma possibilidade consideravelmente maior de oferecer um final feliz, Round 6 também foi capaz de entregar uma espécie de mensagem esperançosa, meso em meio a todas as mortes que aconteceram em seu epílogo.




Foto 10: Gi-Hun em meio ao seu discurso para os VIPS no último episódio de Round 6.


Ao abdicar da segunda vitória consecutiva dos jogos e sacrificar sua vida para salvar a criança recém nascida da jogadora 222, Gi-Hun aposta todas as suas fichas na ideia de humanidade, depositando suas esperanças na nova geração, e no fato de seu último discurso ter feito algum efeito naqueles que ainda o ouviam, trazendo consigo o princípio de que seria melhor morrer como um herói do que viver como um vilão; o inverso que seu arqui-inimigo, In-Ho, o Frontman, optou por escolher quando havia tido a oportunidade de disputar a sua própria versão dos jogos.

Na contramão, Stranger Things não apresentou nenhuma grande morte de personagem principal. Muito se especula a respeito do possível destino de Eleven, mas seu sacrifício que resulta em um final aberto acaba se tornando menos impactante do que a narrativa precisava que ele fosse, uma vez que a protagonista passou boa parte da temporada de escanteio dentro do próprio roteiro, recuperando seu protagonismio apenas no último episódio e em meio a uma luta, no mínimo, duvidosa.




Foto 11: Sacrifício de Eleven no último episódio de Stranger Things.


Conclusão

Concluímos que, no ano de 2025, a Netflix experimentou finais completamente antagônicos para suas duas séries originais de maior sucesso comercial, e ambas dividiram opiniões por motivos igualmente divergentes.

No entanto, podemos afirmar que o encerramento de Round 6 foi muito mais sólido, realista e condizente com toda a trajetória apresentada quando comparada com a sua vizinha americana. Stranger Things falhou em muitos pontos e acabou entregando uma narrativa inferior a muitas teorias propostas por fãs da série, que ofereciam suas próprias versões de finais muito mais complexos (e emocionantes!) da própria série que assistiam, algo que os desenvolvedores da série não foram capazes de entregar a quem estava assistindo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário