Minha visita ao Memorial do Holocausto.
Escrito por: Julia Segre Data: 17/10/2025 Atualizado em: 21/10/2025
No
dia 16/10/2025 tive a oportunidade de visitar ao Memorial da Imigração Judaica
e do Holocausto, mais conhecido popularmente como Museu Do Holocausto. Era um
lugar que há muito tempo estava querendo visitar, e resolvi aproveitar meu
recesso do trabalho para cessar de vez a minha curiosidade a respeito deste,
que é um dos museus mais importantes de São Paulo.
O
museu foi fundado em 2016 e está localizado na Rua Da Graça, no bairro do Bom
Retiro. O local também abrigará a futura réplica do Anexo Secreto, local onde
Anne Frank e sua família se esconderam dos nazistas durante a Segunda Guerra
Mundial.
O
espaço está previsto para ser inaugurado em Janeiro, o que só aumentou a minha
curiosidade de conhecer o espaço para voltar a visita-lo quando o espaço
dedicado a Anne for inaugurado.
Os
ingressos do Memorial são gratuitos, mas é necessário reservar a sua visita com
pelo menos duas semanas de antecedência no site oficial da instituição. O
calendário é um pouco restrito (pelo menos no mês de Outubro, no qual eu fiz as
reservas) devido aos feriados judaicos, mas é um cadastro bem simples e rápido
de fazer.
Foto 01: Museu do Holocausto.
A
companhia que escolhi para fazer esse passeio foi, dessa vez, a minha mãe. Tive
o privilégio de tirar férias exatamente no mesmo período que ela, e dessa forma
pudemos ir juntas prestigiar o local.
Minha
primeira impressão do museu foi exatamente a que ficou; é um lugar extremamente
sigiloso. Os portões do museu permanecem sempre fechados, o que nos deu a
impressão de que o lugar estaria até mesmo fechado. Tentamos contornar a porta
de entrada e o segurança que estava fazendo o perímetro avisou que tínhamos que
nos comunicar pelo pequeno interfone que estava posicionado a frente do portão.
Após
apertar o botão, me identifiquei e informei que tinha um horário marcado para
visitar o local. O funcionário, do lado de dentro, informou que iria verificar,
e só após a sua checagem que os portões foram abertos para mim e para a minha
mãe.
Não
sei se o fato de termos escolhido uma Quinta-Feira pela manhã ajudou, mas fazia
um silêncio sepulcral no lugar quando entramos, o que só aguçou a minha
percepção de que aquele era um local de se agir com o máximo de zelo e respeito
a cultura deste povo que, apesar de todas as perseguições, conseguiu resistir a
tudo e a todos.
Foto 02: Minha mãe e eu, no museu do Holocausto.
O
museu tinha três andares no total, e o primeiro, onde estávamos, estava
preenchido pela primeira sinagoga do Brasil, a Sinagoga Kehilat Israel. Essa casa de culto,
particularmente, é muito mais velha do que o museu em si, tendo sido fundada em
1912.
Foto 03: Sinagoga Kehilat Israel, presente dentro do
Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto.
O
local estava preenchido com alguns elementos que minha mãe e eu fomos capazes
de reconhecer, como os pequenos chapéus utilizados pelos homens ao adentrar em
seus locais de adoração (os chamados Kipás) ou a presença das Estrelas de Davi
nas paredes e no teto, porém outros elementos foram capazes de nos surpreender
muito, como o formato das cadeiras, as pinturas, as velas e a decoração.
Foto 04: Foto do teto da Sinagoga.
Dentro
da sinagoga tínhamos acesso a Torá e outros livros em hebraico, além de alguns
banners que contextualizavam a história dos judeus ao longo dos séculos. Achei
essa parte interessante pois os banners enfatizavam outras perseguições que o
povo judeu sofreu ao longo dos séculos, deixando bem claro que os predadores
nazistas, embora mais famosos, não foram os únicos que tiraram vidas de pessoas
inocentes em prol do ódio e do antissemitismo.
Foto 05: Placa de um dos banners de dentro da
sinagoga.
Eu
nunca estive em uma sinagoga antes, e essa experiência foi muito marcante para
mim. Não conseguia parar de me lembrar do dia em que descobri a possibilidade
de também pertencer a esse povo tão perseguido. Em 2021, visitei o Museu
Judaico, localizado na Bela Vista, na companhia de um amigo, e ao chegarmos lá
nos deparamos com um depoimento de uma judia com o mesmo sobrenome que o meu,
Segre.
Ela
falava abertamente português e tinha conquistado o sobrenome devido ao seu
casamento com um judeu italiano. Como neta de italiano, e ciente da raridade do
meu sobrenome, conversei com o museu e felizmente consegui entrar em contato
com a judia que deu o seu depoimento no Museu Judaico. Foi um encontro
emocionante, e tem um lugar especial na minha memória.
Após
algumas trocas de mensagens e uma ligação, fiquei sabendo que os Segre seriam,
na verdade, um grupo de judeus que havia sido perseguido durante a inquisição
na Espanha, e que, para escapar dos abusos, os judeus tentaram mergulhar em um
rio da região, que se chamava Segre.
Foto 06: Rio Segre, localizado na Espanha.
Aqueles
que conseguiram sobreviver a perseguição atribuíram o feito ao Rio Segre, e
passaram a se chamar por este sobrenome. Após isso, uma parte dos judeus migrou
para a Itália (minha parte da família) enquanto os demais se estabeleceram na
França.
Apesar
da história incrível, ter o sobrenome Segre não comprova se sou, de fato,
judia. É necessário realizar um exame de sangue que infelizmente não é
compatível com a minha realidade financeira, embora esteja juntando dinheiro
para fazer isso acontecer. Apesar de tudo, quando estive na sinagoga, senti
algo dentro de mim se transformar, como se estivesse, de fato, retornando a um
lugar que eu nunca deveria ter saído.
Foto 07: Fotografia minha na Sinagoga.
Já
o segundo andar do memorial era dedicado ao conhecimento da cultura judaica, o
que eu achei muito importante e bem vindo, uma vez que, apesar da curiosidade e
dos esforços para compreender, sempre achei a cultura judaica (bem como a
mulçumana) bastante complexa. Nesse andar tínhamos explicações de rituais
judaicos, explicações a respeito de eventos como o nascimento de um bebê, o
falecimento, a cerimônia matrimonial e refeições importantes como o shabat e a
páscoa judaica. Também estavam expostos alguns objetos importantes para a
cultura judaica, com seus usos e explicações.
Foto 08, 09 e 10: Segundo andar do Memorial.
Já
o terceiro andar do museu era dedicado ao Holocausto. O local tem a atmosfera
pesada, e eu me emocionei durante a peregrinação do inicio ao fim. Apesar de
não termos acompanhado a visita guiada ao ambiente (chegamos no final da
explicação) pudemos relembrar os horrores vividos pelos judeus durante aquele
período tão terrível.
Foto 11, 12, e 13: Terceiro andar do Memorial.
Destaque para a 13 foto, na qual Hitler aparece vandalizado.
No
terceiro andar do prédio também havia um a parede com a famosa frase de Anne
Frank: “Apesar de tudo, eu ainda acredito
que as pessoas são boas.” . Junto a parede, havia uma pequena mesa onde
poderíamos escrever um recado para deixar eternizado junto a curadoria do
museu. É claro que minha mãe e eu não deixamos essa oportunidade passar.
Foto 14, 15, 16 e 17: Minha mãe e eu escrevendo um recado diante da parede de Anne Frank. Na
sequência, a mensagem que escrevi para a curadoria do museu. Outras pessoas
também relembraram a vida de Anne em seus recados.
Por
últimos e não menos importante, pegamos o elevador para visitar o piso -1. Este andar estava dedicado a falar sobre como
andava a situação dos judeus na atualidade, uma exposição temporária. Também
nos foi apresentado uma maquete de Awschivitz e um telão que exibia judeus
brasileiros notáveis.
Foto 18, 19 e 20: Fotos do andar -1 do Memorial.
Neste
último andar também havia uma pequena loja de lembrancinhas e um café. A porta
estava fechada e eu fiquei admirando do lado de fora a quantidade de coisas que
aquele espaço poderia oferecer, sonhando com uma edição em hebraico do diário
da Anne que eu poderia comprar (por mais que não fosse capaz de ler uma única
palavra, é claro) mas infelizmente fomos informados que a lojinha estava
fechada devido ao fato da dona estar de férias (exatamente como nós).
Apesar
disso, não é uma lamentação total, visto que voltarei a visitar o lugar em
Janeiro para prestigiar o espaço Anne Frank que será inaugurado lá.
No
mais, a experiência de estar no Memorial foi simplesmente inesquecível. É um
lugar muito importante, pois como diria Anne Frank, o que foi feito não pode ser desfeito, mas podemos evitar que aconteça
novamente.
Então
vamos evitar que aconteça novamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário