Forgotten

Introdução a Forgotten

Forgotten é um romance histórico ambientado após os eventos da Segunda Guerra Mundial. Ele foi escrito inicialmente em 2019, e sofreu algumas alterações ortográficas para que a prévia fosse publicada no blog.

A história acompanha a jornada de Lina Gwinn, uma sobrevivente dos campos de extermínio de Awschivitz e Bergen Belsen. Completamente desumanizada, uma vez que os nazistas destruíram o seu corpo, a sua alma e o seu psicológico, Lina deve reaprender a viver com as cicatrizes deixadas por seus agressores, enquanto, aos poucos, tenta se lembrar de quem era antes de ser atraída para a espiral do ódio.

A narrativa é pura e essencialmente cruel, o que torna a atmosfera do enredo difícil de digerir, ainda mais quando refletimos que a mesma foi baseada em fatos históricos. Há menção direta a abuso sexual, violência extrema e transtornos psicológicos, como depressão, alcoolismo e estresse pós traumático, o que pode despertar gatilhos a leitores sensíveis a estes temas.

O objetivo por trás de Forgotten é conectar o leitor com os dois extremos que ocupam a alma do homem; a crueldade suprema, em contramão com as pequenas demonstrações de gentileza e humanidade, e o quanto uma atitude interfere na outra, além da história inferir que todos os dias temos a escolha de ser um, embora muitas vezes sejamos os dois.



Prólogo

 

A chuva caía sem piedade sob o campo de Concentração de Bergen Belsen. Era quinze de abril de 1945, apesar de nenhum daqueles prisioneiros sequer ter noção de que dia exatamente era aquele. Os rostos sujos e feridos dos soldados britânicos foram beijados pela maioria das mulheres, que, chorando, agradeciam pelo resgate. Homens gritavam e também choravam alto. O inferno finalmente havia acabado.

—Os alemães perderam a guerra, estamos livres! Eles gritavam.

As pernas raquíticas de uma pobre garota de treze anos tremiam muito, mas ela já não conseguia mais sentir as pernas há muito tempo, então aquilo foi sequer um problema para ela. A roupa, infestada de piolhos, a cabeça cheia de feridas e a barriga chorando de fome eram a principal preocupação dela.

Apesar de estar "feliz" por tudo aquilo, ter, finalmente, chegado ao fim, e ao perceber que simplesmente não havia mais sinal de nenhum nazista por perto, aquela menina não conseguia abrir a boca. Os poucos dentes que sobraram em sua boca tremiam entre si. A maioria havia caído por conta de serem de leite, já outros caíram por estarem simplesmente podres, afinal, fazia dois anos e meio que a menina não via e muito menos usava uma escova de dentes. O cheiro em sua boca, assim como o dos demais prisioneiros era insuportavelmente podre, por isso, a garota falava apenas quando era mais que o necessário. Quando os nazistas lhe faziam alguma espécie de pergunta da qual não poderia ser respondida apenas com um maneio de cabeça indicando sim ou não, ou quando os soldados da SS lhe mandavam gemer enquanto ela era possuída por aqueles homens mais velhos, na calada da noite, em troca de pão.

Uma lágrima estava presa ao seu olho, mas ela sequer foi capaz de derramá-la. Sabia que o estoque de água era extremamente raro, e quando ela conseguia, era sempre uma água suja e inadequada ao consumo. Por conta disso, ela sabia como era importante não chorar para se manter hidratada. Já que ela não podia impedir que o suor caísse de seu corpo durante a manhã com as tarefas do dia a dia no campo e de vez em quando a noite, enquanto trabalhava em busca de um pouco mais de comida, ela sabia que as lágrimas pelo menos ela poderia tentar ao menos ela poderia tentar ao menos segurar.

—Caminhões de comida estarão a caminho a qualquer momento. Disse um dos soldados britânicos, em alemão para que todos pudessem o compreender claramente—Sentem-se enfileirados até que recebam a sua porção de comida e não a comam com muita pressa o alimento que lhes foi dado. Entendemos que vocês passaram por muitas coisas neste lugar, mas agora que tudo acabou, vocês devem ter a ciência de compreender que se tentarem comer muito rápido essa grande quantidade de comida, certamente morrerão, pois, por mais que sintam fome, seus estômagos não estão mais habituados a receber uma grande quantidade de comida de uma só vez. Por isso, tomem cuidado. Lembrem-se, morrer nessa altura do campeonato é um grande desperdício.

Do que adianta ter sobrevivido a este inferno e já estar morto por dentro?  Pensou a jovem mais pra si mesma, enquanto se juntava a uma fila de prisioneiros tão famintos, fedorentos e miseráveis quanto ela na espera do caminhão de comida racionada.

De nada adiantou o discurso do soldado britânico. Alguns prisioneiros, cerca de quinze ou vinte, morreram antes mesmo do caminhão de comida chegar. Um, inclusive, morreu bem na frente da jovem.

—O que vai fazer quando sair daqui? Vai retomar os estudos? Perguntara ele, um senhor de idade, sorrindo pra ela. 

A garota coçou a cabeça, ferida por um instante, e ao encarar sua mão pode ver sangue e um piolho gigantesco rastejando em sua mão.

—Provavelmente sim. Ela respondeu, para ser educada— Mas sinceramente, não me lembro de mais nada que aprendi na escola. Teria de começar tudo de novo.

—Novos começos são melhores que os anteriores, minha jovem. A gente aprende muitas coisas e não comete os mesmos erros passados. Ficamos mais experientes e assim vivemos melhor. Respondeu ele, com um sorriso no rosto—Tenho plena certeza de que a senhorita irá encontrar seu caminho, e.. —O idoso fez uma pausa, e cutucou o número tatuado no braço daquela pobre criança—Eu e você somos muito mais do que estes números. Nós vamos conseguir.

A garota de treze anos olhou para aquele homem de idade, incrédula. Como ele poderia sorrir num lugar daquele?

—Eu já vivi outra guerra, menina. Ele disse, como se pudesse ler seus pensamentos— Mas no caso, na primeira eu estava bem mais elegante do que aqueles caras ali.

E então, ele apontou para os soldados britânicos que conversavam entre si. A garota leu a expressão no olhar deles. Eles estavam muito, muito assustados. Eles realmente estavam muito surpresos com o que viam, alguns até choravam! Seja lá qual era a imagem que eles tinham a respeito dos campos de extermínio, tudo o que eles estavam vendo superava de longe as suas expectativas.

—Mas e você? Perguntou a menina, ignorando os soldados sentimentais e de repente ela percebeu que depois de dois anos e meio ela finalmente estava conversando com alguém de verdade—O que vai fazer quando sair daqui?

O velho abriu um grande sorriso, que, assim como o dela, não exibia quase nenhum dente, e soltou algo que seria entre uma risada alegre misturada com uma tosse de alguém muito doente, uma tosse seca, que trouxe com ela algumas gotículas de sangue que encostaram violentamente, como uma rajada, na mão imunda daquele homem.

Você está bem? Ela pensou em perguntar, mas o mais velho começou a falar:

—Eu? Bem... Eu vou me reencontrar com a minha nona, e depois nós vamos fazer amor, nós vamos virar a noite fazendo amor, e então vamos voltar a ser jovens como nunca fomos antes, e nunca mais seremos. Vamos ser o casal mais feliz do mundo todo.

A garota não sabia muito bem o que significava "Fazer amor" mas ela conseguia ver claramente seus olhos brilharem com aquela mera fantasia:

—E nós...nós... —Ele continuava— ...nós vamos cozinhar todas as receitas que tivermos vontade...Costumávamos guardar em um livro de receitas de todas as coisas que tivemos vontade de comer durante a guerra, e que nunca podíamos. Já fizemos isso antes, vai ser moleza agora que somos mais velhos e mais experientes...

E, lentamente, aqueles olhos envelhecidos começaram a se esvair de seu brilho. Ambos pareceram ignorar lentamente aquele acontecimento.

—Será que...Ele começou, com lágrimas em seus olhos—Você poderia me abraçar por um instante?

A garota assentiu com a cabeça e lentamente se aproximou daquele senhor, o envolvendo com cuidado. Ela pousou a mão em suas costas e pode sentir os ossos dele extremamente evidentes, como se ele não tivesse mais nenhuma espécie de pele ou gordura que o cobrisse e o protegesse.

Ela simplesmente sentia o coração do homem bater fracamente através de ridículo pijama, que uma vez fora branco e listrado com azul, mas que agora não passava de uma vestimenta cinza, rasgada, imunda e surrada.

A garota, aos poucos, desmanchou aquele abraço, desacostumada com qualquer espécie de afeto, foi então que percebera que o prisioneiro a sua frente já não se mexia mais. 

Lentamente, e com sua mão trêmula, ela pousa sob os olhos ainda abertos, daquele homem e os fecha.

—Tem...Ela começa, mas ao perceber que jamais seria ouvida se falasse tão baixo, aumentou o tom—...Tem um homem morto aqui!

Vários prisioneiros começaram a falar várias coisas ao mesmo tempo, e logo o desespero foi ficando cada vez mais evidente: Alguns começaram a gritar, percebendo a situação deplorável que estavam, enquanto outros simplesmente começaram a chorar em posição fetal implorando pela comida, que não parecia chegar nunca. Logo, outros prisioneiros começaram a chamar pelos soldados britânicos, sinalizando que outros também não tinham conseguido aguentar a espera pela comida.

A menina observava toda aquela confusão, enquanto aquele mesmo homem continuava morto, pousado em seu colo.

Os soldados britânicos tentavam acalmar aquela multidão de sobreviventes, mas aquilo era quase impossível, se considerassem o fato deles simplesmente se encontrarem tão desesperados quanto os prisioneiros. A falta de preparo e de controle da situação era algo que os britânicos não estavam sabendo lidar muito bem. Mesmo os soldados considerados veteranos, que assim como o senhor que morrera a pouco tempo, já haviam visto e conhecido coisas consideradas horríveis aos olhos humanos, estavam chocados com o que viam pela frente, e não sabiam nem ao menos esconder suas reações.

Então, finalmente, alguém resolveu se pronunciar. O mesmo soldado britânico de antes:

—Escutem todos! Disse em alto e bom som. Apesar de jovem, aquele soldado tinha uma voz grossa e autoritária, que fazia com que as pessoas ao redor rapidamente parassem para olhá-lo— Houve um problema com o nosso caminhão de comida. As estradas estão congeladas, e por isso o caminhão precisou realizar uma parada de emergência para não estragar os alimentos. Precisamos que vocês esperem. Pensem racionalmente, como os seres humanos que são: Há quanto tempo vocês estão aqui, nessa situação? O tempo que vocês esperam pela comida que vai chegar não é nada comparado aos milhares de dias em que vocês estiveram aprisionados aqui. Então não há motivos para todo esse desespero. Sejam fortes e aguentem a fome só mais um pouco, eu sei que vocês conseguem.

Apesar das palavras grosseiras e até um tanto óbvias, o discurso do soldado britânico aparentemente funcionara. Logo em seguida, ele havia selecionado alguns homens que estavam em "Melhor estado de conservação" tanto física quanto psicologicamente e ordenou que fossem encarregados  de levar os corpos daqueles que não haviam resistido a espera para jogá-los nas valas ou até mesmo sepultá-los, contanto que fosse bem longe daquela população de prisioneiros apavorados e com medo.

Logo, um barbudo se aproximou e tirou com estupidez o cadáver daquele senhor que estava no colo da mais nova, que o encarou por um mero minuto. Seus olhos exalavam o mais puro ódio. Dos nazistas? De estar preso a aquela situação? Ela nunca saberia.

Um feixe de baba escorreu de sua barba involuntariamente assim que ele agarrou aquele cadáver. Ela poderia muito supor que ao invés de enterrar seu amigo ou jogá-lo em uma vala, ele muito provavelmente iria devorar aquela carne fresca de recém morto. Em tempos normais de guerra, aquela jovem de treze anos muito provavelmente teria nojo, apenas nojo, daquilo que ele estava simplesmente cogitando fazer, mas em tempos de guerra, em tempos como aquele, era extremamente compreensível. Por conta da grande pobreza que atingiu a guerra, até mesmo os soldados da SS e outros responsáveis pelo bom funcionamento de Bergen Belsen passavam fome, imagine então os prisioneiros condenados!

Se eles recebiam alimento uma vez por mês já era uma grande fartura. Então, não. Por mais que aquela garotinha, cuja inocência já havia sido ceifada há muito tempo tivesse uma consideração mínima por aquele senhor, agora um cadáver, que havia conversado com ela, ela entendia muito bem o lado daquele homem e a sua necessidade absurda por alguma coisa para comer. Qualquer coisa para comer.   

No entanto, quando os homens estavam terminando de recolher os corpos, o caminhão de comida finalmente chegou. Aquele homem barbudo, assim como todos os outros, jogou o cadáver no chão, e desesperado, assim como todo o resto dos prisioneiros, correu em direção ao caminhão.

Todos já haviam se esquecido completamente da regra que aquele soldado havia feito, das filas organizadas e civilizadas. Não dava pra tentar civilizar uma população que havia sido tratada como animais, ou pior do que isso, durante quatro anos e meio.

Apenas a garotinha ficou ali parada, vendo toda a confusão acontecendo. Ela sabia que seria impossível alguém reparar nela, então simplesmente se levantou, as mãos raquíticas agarraram o cadáver de seu amigo largado no chão.

Ela pouco se importava se sobraria ou não comida pra ela. Ele merecia ter um enterro digno, mesmo não tendo conseguido reencontrar a sua nona.

Ou quem sabe ela também morreu, e eles se reencontraram em algum outro tipo de vida? Pensou a garota, e então disse ao cadáver:

—Se você for para o céu, quero que o senhor pergunte a Deus por que ele nos escolheu como povo dele. Seria interessante se pelo menos uma vez na história da humanidade fossemos escolhidos para alguma coisa boa, pra variar!

E com muito esforço, um esforço que seu corpo raquítico não conseguia identificar de onde vinha, ela conseguiu mover o cadáver daquele senhor de idade para fora do local onde eles estavam conversando anteriormente. 

A garota não tinha chegado muito longe, mas o suficiente para que os outros não a reparassem tanto. Cavou um buraco raso na terra e jogou um pouco grosseiramente, devido a sua falta de força, o corpo do homem dentro da vala. Ela ficou encarando seu rosto, que já estava começando a perder a cor. Lembrou-se vagamente de fragmentos da conversa que teve com o homem, e então, prometeu, com a consciência limpa de que não precisaria cumprir aquilo, uma vez que ele estava morto não precisaria lhe cobrar a promessa não paga.

—Eu vou tentar dar uma segunda chance para a vida, e eu estou fazendo isso por nós dois. Não sou a nona, mas vou tentar fazer amor com as minhas palavras e atitudes- Ela fez uma pausa, mas para si mesma—Acho que foi isso que você quis dizer aquela hora...- Mas, primeiro, eu tenho que prometer reencontrar o amor. Eu não sei mais o que isso significa, mas como o senhor mesmo disse, as segundas tentativas são sempre melhores que as primeiras. Apenas...descanse um pouco, enquanto eu vou tentar cumprir tudo aquilo que eu prometi. Que Deus o tenha, meu amigo.

Claro que antes de se afastar, com a vala já soterrada de terra, a garota tinha que escrever, com o auxílio de um graveto largado no chão uma espécie de "Descanse em paz." Ela sabia que aquilo provavelmente seria apagado com o vento, mas simplesmente entendeu que ele merecia uma lápide. Nem que a lápide não passasse de meras palavras escritas na areia.

—O que vale é a intenção. Resmungou, antes de retornar a grande confusão que a aguardava.


 

Um

 

A garota trajou lentamente o caminho de volta, suas pernas de porcelana fraquejando cada vez mais. Permanecer de pé estava testando todos os limites dela. Ela pôde ver o homem barbudo saborear selvagemente a porção de comida que recebeu, sentado no meio de dois cadáveres. Um deles morrera segurando um pedaço de pão. 

O homem barbudo a encarou novamente, os olhos raivosos a analisando de cima a baixo, pouco antes dele rosnar e agarrar o pedaço de pão que o cadáver segurava, num tom de "Isto é meu, nem ouse."

Os olhos da garota pousaram no caminhão novamente. Por incrível que parecesse, alimentos haviam sobrado. Pouca coisa, mas o suficiente para forrar o estomago daquela menina que há quase um mês não sabia o que era colocar algo na boca.

Os cadáveres, apesar da libertação, também aumentaram consideravelmente, isso a garota não pode deixar de notar nem por um mero segundo.

A garota então deu meia volta antes de se dirigir aos britânicos antes de, timidamente, exibir as mãos imundas aos soldados, pedindo comida.

—É melhor não repetir, menina. Vai passar mal.  Disse um dos soldados.

A prisioneira deu meia volta e estava pronta para ir embora, quando ouviu:

—Dê a ela suprimentos, Joe, essa menina não veio aqui antes.

A garota olhou pra trás e encarou aquele soldado britânico, o mediador entre judeus e seus compatriotas.

—Como pode ter certeza? Dezenas de judeus vieram pedir alimentos hoje.

—Essa menina não estava entre eles. 

—O senhor tem certeza, coronel?

—Faça o que eu mandei, Joe.

Imediatamente, Joe encheu um recipiente com uma espécie de sopa, que só possuía um caldo marrom e uma cenoura flutuante, acompanhado de um pedaço minúsculo de pão, que ficou acinzentado no exato momento onde a pele imunda da garota se chocou com o alimento.

Quando menos se deu conta, a garota já havia consumido toda a sopa em um único gole, e agora tentava identificar se havia alguma migalha restante em suas mãos imundas.

—Cuidado—Disse o coronel, alerta—Vai acabar passando...

Não houve tempo o suficiente para que o coronel terminasse a frase. A jovem vomitara tudo o que comera. Juntamente com o vômito, a jovem pode visualizar sangue e a maldita cenoura, um pingo de cor naquele chão tão cinza.

Os britânicos a encararam, sem saber ao certo o que fazer. A garota estava prestes a se levantar, mas então sentiu sua perna ranger de dor novamente. Foi quando ela finalmente teve coragem de levantar a barra de sua calça, e assim ela pôde ver erupções gigantescas avermelhadas que tomaram conta de toda a sua perna. Uma sanguessuga, estava pregada ao seu tornozelo.

Com força e ignorando a dor, a garota agarrou o parasita e o matou com as próprias mãos, pressionando sua barriga até que ele explodisse completamente.

—Ela está com Tifo! Puta merda! Isso é Tifo! Joe foi o primeiro a gritar, os soldados britânicos simplesmente desesperaram-se, enquanto aquela agitação, mais uma vez, contagiava aos prisioneiros.

—Então vamos todos morrer de Tifo! Bradou o judeu barbudo— É apenas uma questão de tempo para que sejamos infectados com os vermes dela.

A garota abaixou a cabeça, encarando as erupções de sua perna. Não teve tempo para ter pensamentos concretos, por que um prisioneiro gritou bem alto:

—Matem-na! Evitem a morte de mais alguém daqui! 

Logo, um grande barulho surgiu. Prisioneiros falavam várias coisas ao mesmo tempo enquanto a garota simplesmente encarava o canto em que enterrara seu amigo, já se imaginando bem ali ao seu lado, a sete palmos do chão.

—Escutem todos! Disse o coronel, e a garota suspirou, já esperando sua sentença—Ninguém aqui vai ser assassinado hoje, entenderam? Essa garota está com tifo, e eu estou com pneumonia, e o Joe está com difteria, e ninguém aqui vai ser morto por ter adoecido. Vocês deveriam olhar pra si mesmos, houve alguma época em que vocês estiveram tão doentes como agora? Se forem matar alguém por que este alguém está doente, então que matemos todos.

Um silencio reinou naquele campo de extermínio, e então, Joe limpou a garganta:

—Mas senhor...A tifo é contagiosa.

—Já estou tomando as devidas providências, soldado. Respondeu o coronel, se aproximando da garota. Com um sinal, ordenou que a garota se levantasse. A mesma obedeceu na hora—Aliás Joe, caso não saiba...A difteria também é contagiosa.


A mais nova seguiu o coronel aos arredores da espécie de acampamento improvisado que os britânicos haviam montado pra si próprios. Ela passou os olhos por várias barracas até chegar a uma bem isolada.

—Esta é a minha barraca. Disse ele— Você ficará aqui. E faça o favor de não sair a não ser que seja para fazer as suas necessidades biológicas. 

A garota sentiu vontade de perguntar onde que o Coronel passaria a noite, mas achou melhor permanecer calada. 

—Num prazo de três dias- Avisou o jovem coronel—Você será levada para um hospital improvisado em Liverpool. Um conhecido meu está trabalhando lá. Ele e a esposa estão resgatando crianças como você.  Acho que você consegue ficar aqui sem fazer barulho, certo?

A mais nova simplesmente assentiu com a cabeça.

—Certo. O Coronel abriu um pequeno sorriso- Agora fique aqui e não se mexa.

E lá se foi embora o Coronel, tão rápido como chegara, não dando tempo nem para a jovem cogitar agradecer pela primeira demonstração de humanidade que recebera nos últimos tempos.

                                                                    

                                                                 

Esperar três dias, no entanto, não foi uma tarefa fácil para aquela garota. O que era extremamente irônico, pois, pela primeira vez em dois anos e meio estava dormindo em uma superfície macia por baixo dela. Era um colchonete, mas ainda sim era melhor do que o chão, repleto de pulgas, piolhos e ratazanas. Ela sentiu vergonha quando pôde se dar ao luxo de ao menos colocar sua cabeça sobre o travesseiro e quando tirar perceber que sua cabeça estava suja o suficiente para carimbar o formato dela no tecido bordado. A vergonha que ela sentia era tão grande e evidente que ela não utilizou o cobertor nos dois primeiros dias em que esteve enclausurada, no entanto, no terceiro foi inevitável. Com o clima figurando temperaturas negativas e a neve caindo do céu—características comuns do inverno infernal alemão— a garota sucumbiu a ousadia de sujar o cobertor que se encontrava dobrado no canto daquela barraca. 

O coronel também estocava alimentos em seus aposentos particulares. Ele escondia os entalados debaixo da terra.  No segundo dia, a garota pôde encontrar uma lata de ervilhas em conserva, mas ela só foi capaz de a comer no terceiro, pois ao visualizar seu próprio reflexo na água do alimento em conserva a fez perder totalmente o apetite, largar a lata e começar a chorar por finalmente perceber o esqueleto que ela havia se tornado. Somente no terceiro dia ela abriu aquela lata com suas próprias unhas, e comeu. Consumiu pouquíssimas porções, e terminou sua "refeição" ainda com muita fome e com o conteúdo da lata quase intocável.

Ela estava com medo mais uma vez de vomitar todo aquele sangue. Estava com medo de morrer. Era bizarro, já que a garota, nos últimos tempos tivesse convivido em um local onde a morte era quase tão evidente que o próprio oxigênio, estar com medo de morrer, mas era dessa maneira que se sentia no momento.

Mas o medo era uma coisa boa, alguém lhe dissera. Alguém lhe dissera isso em uma época em que ela ainda era considerada uma pessoa; uma aluna de alguém, uma amiga, uma filha, uma cidadã, um ser habitando este mundo. Alguém lhe disse que o medo é um sinal de que você ainda tem alguma coisa a perder.

No geral, ficar enclausurada foi bom para ela, já que a menina teve a oportunidade de descansar seu corpo cansado e amarrotado por conta da guerra. A tifo não a ajudava a se sentir cem por cento revigorada, mas sua energia estava, aos poucos, começando a reaparecer.

As olheiras em seus olhos simplesmente passaram a sumir, como palavras ditas ao vento. Tudo o que a garota fazia era dormir, a espera que os dias úteis acabassem, o que só a ajudou nesta busca por recuperação. Mas a pior parte era justamente esta: Quando ela adormecia.

Sua mente era constantemente assombrada com pesadelos terríveis, e não havia ninguém ali para ajudá-la ou auxiliá-la de alguma forma. Nunca houve. A jovem sabia que em partes ela estava sendo extremamente ingrata, visto que um Coronel lhe cedera um local onde ela iria apenas descansar e refletir sobre sua vida. O fato de estar sendo ingrata e fraca só a irritava cada vez mais, por isso o travesseiro sujo se tornara o seu maior cúmplice.

Cúmplice das lágrimas, do suor, do excesso de raiva e das fraquezas que ainda insistiam em permanecer, apesar de toda a crueldade alheia que havia sofrido nos últimos anos. 

E então, quando a menina menos esperou, o Coronel colocou a cabeça para dentro de sua barraca, ultrapassando a sua abertura com facilidade. Como um mero reflexo, a prisioneira virou o travesseiro do lado contrário para tentar fazer com que ele não percebesse a sujeira que ela havia feito, mas se esqueceu completamente das suas mãos imundas que carimbaram o outro lado do travesseiro que um dia já havia sido branco.

—Pronta pra ir? Perguntou o Coronel, parecendo não se importar com a tentativa de disfarce da mais nova.


                                                                            


Passaram-se três dias e meio, e, novamente a cena se repetia. A ex-prisioneira seguia o Coronel, que andava a pelo menos três palmos a frente dela, provavelmente temendo contrair Tifo, para fora daquele acampamento. No entanto, ao chegar ao local onde o caminhão se encontrava anteriormente, a garota não põde deixar de reparar que não havia mais nenhum judeu nos arredores.

—Os prisioneiros— Começou o coronel, como se pudesse ler seus pensamentos— Retornaram a sua terra natal ou rumo as casas de parentes próximos e amigos íntimos com a ajuda da Cruz Vermelha. Estes são os registros que encontramos— O militar apontou para uma quantidade consideravelmente pequena de papéis próxima ao local de onde o caminhão estava parado. A prisioneira viu que Joe separava aqueles papéis em duas pilhas ainda menores.

—O que ele está fazendo? A garota ousou perguntar.

Joe ouviu aquela pergunta:

—Separando os vivos dos mortos!

A garota assentiu com a cabeça, em silêncio. Logo em seguida, Joe se levantou.

—Senhor, terminei o trabalho.

—Mas já...?

—Ouvi dizer que eles queimaram quase tudo em Awschivitz.

O Coronel permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de se virar para a garota ao seu lado:

—Vá e procure nestes papéis, veja se você é capaz de reconhecer algum amigo ou parente. Procure pelo sobrenome.

—Isso é impossível.  Sussurrou a garota, finalmente percebendo a mão do Coronel em seu ombro, enquanto Joe olhava para a atitude de seu líder, horrorizado:

—O senhor vai contrair Tifo!

Ignorando o comentário de Joe, o Coronel olhou fundo nos olhos da jovem garota:

—Eu entendo que são muitas memórias, mas se você tiver algum parente vivo, podemos encontrá-lo e contatá-lo, evitando que você vá com as outras crianças para um orfanato. Não que o meu conhecido e a sua esposa sejam pessoas ruins, mas de modo algum vamos te colocar em um lugar onde você ficará a espera de uma família se já tem uma. Entende?

—Sim, eu entendo, mas é que... A garota sussurrou, seus olhos arregalados de pânico e choque— Eu não me lembro.

—Você... O quê? Fez o Coronel confuso

—Eu não me lembro... Eu não consigo me lembrar do meu nome...


                                                                   


Incapaz de lembrar seu nome e muito menos de reconhecer qualquer rosto, não houve outro jeito a não ser de fazer com que a garota se juntasse aos outros órfãos. Além do pânico, seu organismo respondeu em mais vômitos durante toda aquela expedição em busca de seus entes queridos. Depois que Joe recolheu o terceiro balde de vômito, o Coronel fez um sinal para que parassem com a investigação, e ofereceu uma xícara de chá fumegante, que era muito mais do que bem vinda naquele inverno maldito.

—A culpa não é sua, se é isso que está pensando. Disse o Coronel— Este lugar é simplesmente o inferno na terra. Não consigo nem imaginar as coisas que você deve ter passado aqui.

—Um dia eu ainda contarei. Quando estiver pronta. Foi a resposta da garota, enxugando os cantos da própria boca.

—Você não precisa dizer nada se não quiser.

—O silêncio. É isso que os nazistas querem de nós. Afirmou a menina, a voz tomada por uma certeza assustadora—Eles querem que fiquemos calados e jamais digamos alguma coisa. Por isso queimaram os registros e mataram tantos de nós. Ficar em silêncio a respeito dessas coisas é obedecer aos nazistas e fazer a sua vontade, coisa que eu nunca mais quero ser obrigada a fazer.

O Coronel arregalou os olhos por um instante antes de abrir um sorriso. Apesar de ser apenas uma garota de treze anos, a ex-prisioneira tinha um raciocínio rápido e era muito esperta, e provavelmente tinha um instinto de sobrevivência muito maior do que o dele, que dedicara toda a sua vida para servir seu país.

—Eu irei me dedicar veemente a busca por arquivos que digam respeito de quem você é. Pode demorar, mas creio que pelo menos o seu nome eu posso encontrar nos registros de Bergen-Belsen.

—Eles devem estar em Awschivitz, senhor. Informou a garota— Eu estava trabalhando lá anteriormente. Com a minha mãe, mas não consigo lembrar sequer do nome dela...

—Tomarei as devidas providências, não se preocupe. Respondeu o Coronel, insistindo em se manter próximo da garota com Tifo.

—Coronel....

—Collin, por favor.

—Collin— A garota reformulou—O senhor sabe muito bem que o que está propondo vai muito além das obrigações de seu trabalho, não é?

O Coronel assentiu com a cabeça, sorrindo um pouco.

—Então por que não tenta se cuidar mais? Eu sobrevivi sozinha a dois anos e meio de horror, não preciso ser cuidada como uma boneca de pano.

A boca da prisioneira foi coberta por um gosto amargo. E não, não era seu hálito, e muito menos sangue, mas sim o gosto das palavras grosseiras e ingratas que ela lançara ao Coronel a sua frente.

—Quer dizer... Se o senhor ficar muito perto de mim, vai contrair Tifo. Já tem pneumonia, não precisa morrer de Tifo também.

O Coronel permaneceu com o pequeno sorriso, apesar das palavras grosseiras que recebera:

—Eu não estou com pneumonia.

—Não...? Fez a garota.

—Não. E eu estou vacinado contra a Tifo.  Todos os soldados do batalhão estão vacinados contra doenças contagiosas. Óbvio que por conta da guerra muitos de nós adoeceram dentro e fora de combate, mas eu fui abençoado com uma saúde boa para suportar tempos como estes. Você diz que eu estou fazendo mais que meus deveres, mas está enganada. Nós somos os Aliados, nós protegemos uns aos outros e guiamos os perdidos de volta pra casa. Eu não estou fazendo nada demais, jovem menina.

A garota ficou em silêncio por uns instantes, e, novamente, a mão do Coronel pousou sobre seu ombro.

—Já que você insiste em dizer que não é uma boneca de pano, me prometa que vai sobreviver tempo o suficiente para que eu descubra quem você realmente é.

Eu estou fazendo muitas promessas ultimamente. Pensou a garota, mas nada fez além de assentir a cabeça positivamente.

—Agora vamos— Collin chamou, se levantando e ela imediatamente fez o mesmo. Ouvia-se o som de um carro se aproximar—Seu verdadeiro resgate chegou.


 


Dois



A garota seguiu o coronel próximo a van estacionada no lamacento chão de Bergen Belsen. A neve do inverno já estava começando a derreter e o sol já estava começando a surgir, tímido, no meio das nuvens. A primavera estava dando seus primeiros sinais de vida. 

De dentro da van, um homem de meia idade cumprimentou Collin com um forte aperto de mão.

—Veja só quem sobreviveu a guerra!  Bradou. Sua voz era rústica, mas seu tom era estranhamente amigável.

—Fico surpreso que você também tenha conseguido. O coronel respondeu, com um sorriso nos lábios— A fome e o frio nunca foram os seus melhores amigos.

—Eu consigo suportar qualquer coisa se tiver determinação. Foi a resposta que Collin recebeu, segundos antes de ambos se calarem.

—Como a Helena está? Perguntou então o militar, ao ver que uma mulher frágil acenava para ele, dentro do carro. Os vidros estavam fechados, e ela tinha uma manta envolvendo-a, mas ainda sim tremia de frio.

—Bem, ela está indo. O homem respondeu, quase um sussurro. Logo em seguida, ele mudou de assunto rapidamente—Bem, você me fez vir até aqui por que disse que queria um favor. Conhecendo você e sabendo que você morreria sem pedir a ajuda de alguém por mero orgulho, fiquei muito curioso. Do que precisa?

—Eu preciso... Collin começou, puxando a menina pelos ombros e a colocando em sua frente—Que você leve essa menina para um lugar seguro. Há tempos fiquei sabendo que você estava de passagem, então...

—Céus, Collin... Você me mandou uma carta com o selo de emergência do exercito ... O homem começou—Esse selo só é usado em situações de extrema urgência...

—É urgente- Collin respondeu, um tanto irritado- A menina está com tifo, eu não poderia arriscar colocá-la junto com os outros prisioneiros, e ela não tem família. Não mais.

—A menina está com tifo? E você quer que ela vá no meu carro? Exclamou o homem, irritadíssimo.

—Por favor, Dave- Começou Collin e Dave se abaixou por um instante, para finalmente olhar para a garota a sua frente.

A menina ficou extremamente incomodada com Dave a olhando com a mesma curiosidade de quem contempla uma espécie rara, catalogada em um zoológico. Ela pôde perceber que ele a encarava fixamente, os olhos azuis exalando espanto, a prisioneira só não sabia qual era o motivo de toda aquela comoção.

Seria a sua aparência raquítica? Seria a Tifo espalhada por todo o seu corpo? Seria o seu cheiro insuportável? Todos os anteriores?

O homem então, se levantou, e olhando fundo nos olhos de Collin, que permaneceu inerte, disse:

—Mas que raios, Collin... Ela é extremamente p...

—Então, vai levá-la ou não? Perguntou Collin, de repente frio.

—Eu tenho alguma outra escolha? Foi a resposta do homem.

O militar cutucou a garota, que fixou os olhos nele por um instante.

—Preste atenção. Dave vai te levar para um lugar provisório onde você deve ficar por, no máximo, duas semanas. Nesse meio tempo eu, e a cruz vermelha vamos dar o nosso melhor para tentar recuperar qualquer resquício do seu passado. Se eu encontrar algum parente seu que ainda viva, ele irá reencontrá-la para que morem juntos. Se não...

Collin fez uma pausa. A garota aguardou pacientemente. Não estava sentindo medo. Na verdade, depois da guerra era difícil dizer se ela um dia voltaria a sentir alguma coisa.

—Se não-Ele continuou—As autoridades irão te levar a algum orfanato. Pode ser em outra cidade ou até mesmo em outro país. Não temos como saber.

A prisioneira assentiu com a cabeça, aceitando.

—Mas nós vamos encontrar. Completou o militar—Tenho fé que vamos.

—Vamos menina, não temos o dia todo! Exclamou Dave, dando uma cotovelada de despedida em Collin e marchando para dentro do carro.

A prisioneira o seguiu, e olhou uma ou duas vezes para trás, dando de cara com Collin, que lhe dava um sorriso tranquilizador enquanto ela partia. Não demorou muito para o militar também virar as costas e ir embora.

—Você vai viajar aqui. Dave afirmou, erguendo a pequena e frágil criança por um mero instante para colocá-la junto das mercadorias que eles carregavam.

—O que é isso, Dave? Perguntou Helena, de repente saindo do carro—Você não vai colocar essa pobre menina junto com as mercadorias!

—Ela está doente, por isso eu a coloquei com as mercadorias. Explicou-se rapidamente o homem.

—Eu também estou doente, vai me colocar com as mercadorias do lado dela? Perguntou a mulher, e olhando delicadamente para a menina— Venha, vamos entrar dentro do carro, está frio aqui fora.

—Se a senhora não se importa, eu prefiro viajar aqui. A garota respondeu e pode ver os olhos da mulher se arregalarem, surpresos.

Rapidamente, a menina tentou explicar, embora não precisasse.

—Eu estou com tifo, senhora, e a última coisa da qual eu gostaria é que vocês contraíssem a minha doença.

—Está bem. Helena respondeu, um pouco severa. Parecia aborrecida depois que a garota recusou o seu convite.

No entanto, ela retirou o cobertor que lhe protegia as costas e entregou nas mãos imundas da ex prisioneira:

—Se cubra com isto. Com o tempo que está fazendo aqui fora, você vai precisar.




A garota só se permitiu suspirar quando ouviu o barulho do motor sendo ligado, a medida que ela tentava aproveitar a viagem. Sentada sobre um tapete de linho fino, ela pôde perceber o mundo horrível que ela deixara pra trás.

Ao sair de Bergen-Belsen, depois de dois anos e meio, a sensação que ela teve ao adentrar a estrada de neve foi mista. Era como se ela estivesse submersa em uma sensação sublime de alívio por estar livre e pavor supremo por conta das péssimas memórias que a assombravam.

No entanto, em todas as memórias que a assombravam, ela sempre aparecia sozinha. A garota simplesmente não se lembrava de nenhuma memória dos pais. Era como se eles nunca tivessem existido, e se estivessem, era como se fossem apenas um borrão. Ela não era capaz de lembrar de rostos, vozes... Nada.  Era simplesmente um vazio profundo, como se nunca tivesse feito parte da sua existência.  

Alguém havia lhe dito que ela esteve com sua mãe no primeiro campo de concentração em que passara, mas a jovem não fazia ideia se essa informação era mesmo verdadeira. Agarrava-se a ela com fios de esperança, e a repassou para o coronel, torcendo para que fosse verdade, e se fosse realmente o caso, que sua mãe estivesse viva para reencontrá-la em algum lugar.

Ao mesmo tempo, a menina ainda não sabia se realmente queria reencontrar seus pais ou não. Ela não sabia se poderia se lembrar deles, e tinha muito medo de lembrar e se ver em um emaranhado de lembranças indesejadas, de tempos em que ela provavelmente era feliz de um modo que nunca mais seria, do tempo em que ela tinha uma família que a amasse, que se importasse com ela, que prezava por sua companhia.

Todas aquelas possibilidades ficaram imersas na mente da garota durante o dia inteiro, quando de repente, a van de Dave parou de se locomover.

A garota piscou. Já era noite, e eles estavam estacionados na frente de uma pousada simples.

—Vamos menina, desça. Disse o homem em meio a um bocejo. Ele se espreguiçava e as suas costas, tensas pelo tempo em que permaneceram na mesma posição, estalaram em protesto.

—Sabe pra onde vamos?

A menina negou com a cabeça. Até onde ela sabia, judeus nunca precisavam saber de nada.

—Vamos passar a noite aqui. Disse Helena, andando ao lado do marido—Você poderá se alimentar, tomar um banho e colocar roupas limpas.

Helena olhou para a menina, como que em busca de algum sinal de empolgação por parte da jovem, que simplesmente continuou seguindo o casal para dentro da pousada. Na porta, havia uma placa gigante com o preço da hospitalidade: Setenta Zlots por pessoa.

Dave e Helena entraram na hospedagem, e assim que a jovem pensou em entrar, um guarda a barrou.

—Pra fora, judia imunda! Exclamou ele, ríspido, dando-lhe uma esbofeteada com o cassetete em seu ombro.

—Ela está conosco! Ela está conosco! Exclamou Helena, furiosa. Suas mãos frágeis envolviam os ombros da pequena garota, que ficou imaginando se a senhora não tinha medo de pegar tifo ou nojo da sua sujeira.

—Não vamos colocar essa menina na nossa hospedagem. Ela é uma judia! Exclamou o gerente, se levantando para ver a situação que acontecia lá fora.

—Nós pagamos. Dave disse, chacoalhando as notas de dinheiro no ar.

Ele parecia tão irritado e impaciente quanto a esposa.

—Só hospedamos essa menina por cento e quarenta Zlotes, nada mais, nada menos que isso.

—Cento e quarenta Zlotes? Exclamou Dave, sem acreditar, mas sua fúria pareceu durar pouco tempo, pois ele olha para Helena e suspira, decidido.

Estava frio e tarde demais para que eles simplesmente saíssem a procura de qualquer outro lugar para passar a noite, e ambos sabiam disso.

—Está bem, está bem. Nos dê dois quartos, por favor.

Enquanto Dave fazia o check-in, a garota se aproximou devagar de Helena e agarrou a ponta de sua saia, para chamar sua atenção. Assim que a garota retirou sua mão, percebeu que a saia marrom de Helena ficara suja de preto. A  mulher também reparou, mas ao contrário dela, não pareceu se importar muito.

—O que foi? Perguntou a adulta e a menina engoliu um seco.

—Cento e quarenta Zlotes....Isso é dobro do preço que está na placa lá fora... Murmurou ela-—Se quiser eu posso dormir lá fora, economizaria os recursos de vocês, e eu já estou acostumada a dormir na neve.

—Dormir na neve é passado agora. Não se preocupe com isso, está bem? Disse Helena, sorrindo para ela— Estamos cuidando de tudo. Só se preocupe em adormecer rapidamente, amanhã teremos muito trabalho pela frente.



Helena e Dave se despediram rapidamente da menina, que seguiu sozinha para o quarto que foi separado apenas para ela. Seus pés sujos faziam pegadas a cada passo que ela dava, e ela teve de suportar muitos olhares feios das mulheres que circulavam passando pano no piso de madeira.

A primeira coisa que a garota fez foi entrar no banheiro e tirar pela primeira vez o macacão que usara durante todo aquele tempo no campo de concentração de Bergen Belsen. Encarou seu corpo nu durante alguns instantes sob o reflexo do espelho. Seu corpo extremamente magro e quase sem nenhuma pele tinha hematomas e pequenas feridas espalhados por todo o lugar, o mais recente, no seu ombro, que ficara arroxeado após a batida violenta do guarda da hospedagem.

Ela caminhou até a banheira e a ligou. Chorou ao ver água pela primeira vez em dois anos. Sua ansiedade era tão grande que ela se deitou na banheira antes mesmo de espera-la encher completamente.  A água imediatamente ficou escura após entrar em contato com a sua pele imunda.

Ela aproveitou aquele momento de higiene e começou a se esfregar até sua pele responder com a vermelhidão. Na sua memória, apenas permaneciam as imagens da calada da noite, onde os Oficiais da SS tomavam posse de seu corpo em desenvolvimento.

Agarravam-lhe os seus pequenos seios, adentravam sua intimidade, lhe davam tapas no rosto e sussurravam coisas em seu ouvido. A necessidade de tentar se manter limpa de tudo aquilo a motivava cada vez mais a esfregar a própria pele enquanto lágrimas incontáveis caiam de seus olhos.

A garota não soube dizer quanto tempo ficara ali, fora apenas o suficiente para fazer dois anos em um único dia de banho. Jogou a roupa do campo direto no lixo. Não queria nunca mais ver aquilo na vida.

Enquanto se enrolava na toalha, a menina viu o reflexo de seu corpo novamente. Os hematomas e as feridas continuavam ali, mas pelo menos agora ela estava limpa.

Atravessou o banheiro rumo ao quarto e caminhou até a cama, onde encontrou uma muda de roupas debaixo do travesseiro.  O pijama era feito de algodão, e tinha a estampa da suástica de Hitler em toda a extensão da roupa.

—Com licença senhorita. Disse uma voz feminina e a menina estremeceu ao dirigir o olhar a ela-Sinto muito, não quis assustá-la. Meu nome é Liz e eu estou aqui para garantir que você esteja muito confortável e para realizar o seu serviço de quarto.

A mulher parou por um instante, os olhos voltados para o pijama que a menina segurava.

—Sinto muito por este pijama— Disse ela, direta—Esta era a única roupa para dormir que conseguimos arranjar pra você.

—Está tudo bem. Disse a garota, apesar de saber que não estava. No entanto, ela se esforçou ao usar a sua imaginação e pintar o pijama como se ele estivesse decorado de moinhos negros. Ela fingiu que não se importava enquanto se vestia na frente da mulher de meia idade.

—Eu só preciso dormir.

—A senhorita tem certeza disso? Quer dizer, qualquer coisa que precisar pode chamar, nossa hospedaria é conhecida por tratar seus clientes com a melhor qualidade, se estiver com fome posso arranjar algo para que você possa com...

De repente, Liz percebera que estava falando sozinha. A garota mal havia terminado de se trocar e já tinha desmaiado na cama. Estava dormindo profundamente, e a toalha ainda permanecia em cima da cama.

Liz se aproximou lentamente e retirou a toalha dali, e providenciou dois cobertores felpudos para cobrir a garota na cama. Ela olhava para a jovem com carinho enquanto a cobria, e reparava que havia uma lágrima presa ao olho da menina, mesmo fechado.

—Que Deus tenha piedade dessa menina—Foi a última coisa que aquela funcionária desejou antes de desligar a luz.

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