30 anos em 300 páginas

Como o sistema criminal do Alabama condenou a morte um homem de um crime que ele não cometeu.

Escrito Por: Julia Segre  Data: 06/12/2025   Atualizado em: 


Escolhido pela Oprah para ser lido em seu clube do livro no verão de 2018, O Sol Ainda Brilha é um livro autobiográfico de Anthony Ray Hinton, um homem que foi condenado a morte por um crime que não cometera. Depois de três décadas no corredor da morte, Anthony consegue provar sua inocência em meio a um relato emocionante que nos faz refletir o quanto o racismo enraizado pode trazer consequências fatais para todos aqueles que sofrem esse tipo de segregação.





Foto 01: Capa do livro de Anthony Ray Hinton


Hoje advogado, Anthony trás para seus leitores o seu relato de vida, contando de maneira crua a respeito de tudo o que passou, e é simplesmente impossível administrar o sentimento de impotência que vai se apoderando do leitor a medida que ele prossegue a leitura. Trata-se de um sentimento de inquietude e estarrecimento. Ficamos sem acreditar nos absurdos que somos apresentados durante a narrativa, e torcemos para que a história seja, na verdade, fictícia, embora ficção seja a última palavra a ser utilizada a respeito dessa obra tão absurdamente verdadeira.


Este livro foi meio que obrigatório para ser trazido em pauta aqui no Literatura, visto que foi o primeiro a arrancar lágrimas verdadeiras dos meus olhos no meio da leitura, tamanha a empatia que criamos não apenas por Ray, mas também pelo sentimento de revolta que vai se acumulando diante da grande injustiça que este homem sofreu ao longo dos anos. A pior parte é, na verdade, relembrar que embora Anthony tenha conseguido sair dessa situação, nada e nem ninguém vai ser capaz de devolver os trinta anos que ele perdeu de sua vida tentando sair daquela situação improvável.



Foto 02: Anthony Ray Hinton.



Anthony foi acusado de roubar e matar três gerentes em 1985. A acusação foi feita com base em uma testemunha que teria reconhecido erroneamente seu rosto que já se encontrava registrado anteriormente, devido a um furto de carro que Ray havia cometido quando adolescente, e em um revólver encontrado em sua casa. 

A arma, além de não ser compatível com as balas deixadas nos locais onde os crimes ocorreram, nem mesmo pertencia a Anthony, e sim a sua mãe, e não era usada há 25 anos. Nem mesmo o teste no detector de mentiras no qual Anthony foi submetido (o mesmo em que atestou que o homem não estava mentido) ou a comprovação de que ele estava, na verdade, trabalhando no momento exato em que o crime ocorreu foram suficientes para impedir a sua condenação a morte.

Anthony viu, ao longo de sua estadia no Corredor da Morte 54 homens morrerem, seja na cadeira elétrica (A chamada Yellow Mama) ou através de injeção letal. Ainda sim, ele mantinha o otimismo diante da sua situação, com a crença cega de que um dia seria libertado e que a verdade seria revelada a todos aqueles que o acusavam injustamente de assassinato. De alguma maneira, Anthony conseguia ser uma luz dentro daquele presídio, aconselhando tanto os guardas como os prisioneiros a mudarem suas mentalidades enquanto estavam lá dentro.

Existem muitos momentos neste livro que são capazes de mexer profundamente com os sentimentos e as crenças do leitor. Vou deixar alguns dos trechos que anotei aqui a título de degustação, mas minha recomendação mesmo é de que leiam este livro. Ele é extremamente importante, pois nos faz questionar a nossa humanidade e nos faz crescer como pessoas. Conhecendo a história de Anthony, torcemos e esperamos que coisas como esta jamais se repitam, mas para que isso realmente possa vir a acontecer, nós devemos, como sociedade, trabalhar para que a justiça cumpra seu requisito básico de julgar os indivíduos de forma igualitária, independente de sua nacionalidade, gênero, posição social, grau de escolaridade e cor da pele.


"O solo do Alabama estava cheio de suor, lágrimas e sangue de rapazes como nós dois. (Aqui ele se refere a Lester, seu melhor amigo) Rapazes obrigados a deitar no chão simplesmente por causa da cor da pele. Isso era uma coisa com a qual eu não queria me acostumar. Uma coisa que nunca deveria ser normal." 

-Anthony Ray Hinton falando sobre sua infância no Alabama.


"Não se onde eu estava na noite em que John Davidson foi assassinado. Eu não passava os dias pensando em álibis para as minhas noites." 

-Anthony Ray Hinton, em meio ao seu primeiro interrogatório antes de ser preso.


"Tenho pensado a respeito desse homem (o verdadeiro assassino dos gerentes). Tentando imaginar o que pode tê-lo levado a um ato desesperado como esse. O que será que ele pensava quando estava sentado para assaltar e matar? Todo ato desesperado tem seu preço, mas eu não sabia que a pessoa que ia pagar esse preço era eu."


"Eu não entendi porque havia dois policiais na varanda da minha mãe (No dia de sua prisão), mas não fiquei com medo. Sempre fomos ensinados que, se você não fez nada errado, não havia razão para fugir." 

"Os guardas que me levaram (Para o corredor da morte) andando até a van tentaram conversar sobre amenidades comigo, mas eu não disse nada. Eles pareciam inquietos. Eu havia sido gentil com eles desde que estava ali, e cooperativo. Mas chega. Por que tornar o trabalho deles mais fácil? Fiz corpo mole quando tentaram me erguer para o primeiro degrau da van. Eu pesava mais de noventa quilos. Eles que me levantassem. Eles que sentissem meu peso enquanto me carregavam para a morte. Eu era alguém, era uma pessoa, precisavam sentir isso." 


"Quando ninguém acredita numa palavra que você diz, o melhor é você parar de falar de vez."


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