Como Hayley Williams usou as dores particulares e públicas para consolidar seu principal trabalho como artista solo.
Escrito por: Julia Segre Data: 12/01/2026 Atualizado em: 17/01/2026
Apesar de ser mais conhecida por sua carreira dentro do Paramore, Hayley Williams já conseguiu, por algumas vezes em sua carreira, estourar essa bolha e construir canções que fizessem sucesso sem estar, necessariamente, com seu nome atrelado a banda. Singles como "Airplanes" (em parceria com o rapper B.O.B) e "Stay The Night" (também em colaboração, dessa vez com o DJ Zeed) estão aí para comprovar isso, no entanto, o primeiro álbum solo da artista (Petals for Armor) só surgiu em meados de 2021, bem como o seu segundo, Flowers For Vases, que foram lançados nos tempos de pandemia.
Foto 01 e 02: Capas do primeiro e segundo álbuns de estúdio de Hayley Williams.
Seu terceiro trabalho, Ego Death At The Barcholette Party, não poderia ter surgido em um contexto mais antagônico do que os seus antecessores. A série de músicas foi lançada ao mundo de forma oficial em Agosto de 2025, mas percorreu um longo e peculiar caminho antes de ser consumida de forma padrão nos principais streamings de música.
Foto 03: Capa do Ego Death At The Barcholette Party, de Hayley Williams.
Nesse artigo, vamos analisar, letra por letra, o trabalho mais recente da vocalista do Paramore, que recebeu quatro indicações ao grammy como: "Melhor álbum de música alternativa", "Melhor performance ao vivo", "Melhor canção de rock" e "Música do ano".
CONTEXTO
Antes de iniciarmos a nossa análise, é importante nos situarmos em um contexto maior de tudo o que aconteceu antes e durante a produção do Ego Death At The Barcholette Party, que, a fim de facilitar a nossa comunicação, vamos chamar apenas de Ego.
Tanto o Paramore quanto banda quanto a Hayley Williams individualmente estavam passando por uma verdadeira fase de transformação. O contrato com a antiga gravadora, a Atlantic Records, finalmente havia chegado ao fim, e o Paramore se firmava como um artista independente, apesar do hiato, assim como a própria Hayley, que finalmente se via livre de um contrato que assinou quando tinha 15 anos, ao ingressar na indústria musical, o chamado Contrato 360, hoje pouquíssimo utilizado devido a práticas que muitos consideravam abusivas, já que esse formato de contratação "prende e molda" os artistas que os assinam, praticamente os impedindo de ter sua própria liberdade criativa.
E é em meio a esse cenário que Hayley funda a Pós-Atlantic, sua própria gravadora. O nome, propositalmente colocado desta maneira (visto que o nome da gravadora antiga de Hayley também carrega o nome Atlântic), faz referência ao que seria o inicio de uma nova era na carreira de Hayley, onde agora ela seria livre para produzir o que quisesse.
Essa sensação de liberdade, acompanhada do medo e do receio de ter sua mão soltada após tanto tempo sendo conduzida foi um dos principais tópicos que seriam discutidos com a chegada do novo trabalho de Williams, que fez a utilização de algumas canções que ela já havia gravado no passado e as misturou com letras e melodias que ela havia começado a produzir no presente, gerando um verdadeiro mix de sensações e significados ao seu ouvinte.
A história de divulgação do terceiro trabalho de Williams se iniciou em julho de 2025 , quando a própria artista anunciou em uma rádio pública da cidade de Nashville que uma música inédita sua seria tocada até o final do dia.
Depois disso, Hayley lançou uma nova linha de tintas de cabelo na empresa que ela co-fundou, a Good Dye Young. O produto de edição limitada possuía um código exclusivo dentro dele, uma espécie de palavra chave que dava acesso a um site totalmente retrô, no qual eram encontradas algumas faixas do álbum para serem ouvidas.
Foto 04: Site onde Hayley disponibilizou suas músicas.
Após 24h, o site foi desativado, e substituído com uma mensagem simples de Williams dizendo: "Obrigada por ouvirem". Pouco tempo depois, Hayley disponibilizou as faixas para serem ouvidas no Youtube pelo grande público.
Segundo a própria cantora, Ego nada mais é do que uma coletânea considerável de singles, e que, por este mesmo motivo não possuíam uma ordem correta. No entanto, o álbum ainda seria lançado para ser vendido comercialmente, com direito a versão em disco de vinil.
Pensando nisso, Hayley pediu a ajuda e a orientação dos próprios fãs, incentivando que os mesmos criassem suas próprias playlists e as enviassem, para que chegassem a um consenso da ordem que as músicas seriam consumidas.
Foto 05: Hayley pedindo aos fãs para que a ajudassem com a ordem das músicas.
Após muita deliberação, a ordem preferida por Hayley e a maioria dos fãs foi: Ice on my OJ, Glum, Kill Me, Whim, Mirtazapine, Disappearing Man, Love me different, Brotherly Hate, Negative Self Talk, Ego death at a bacholette party, Hard, Discovery Channel, True Believer, Zissou , Dream Girl In Shibuya, Blood Bros, I Won't quit on you e Parachutte.
Esta ordem não inclui as duas músicas bônus Good ol'days e Showbiz, mas será utilizada para analisarmos, faixa a faixa, o significado do trabalho de Hayley como um todo.
Ice on my OJ
A primeira canção de ego é rica em referências que Hayley faz, sejam elas a respeito de si mesma e de sua trajetória, do lugar onde ela vive ou da forma como ela é vista por outras pessoas.
Foto 06: Foto promocional de "Ice on my OJ"
Na letra, Hayley brinca com a sua reputação de ser uma pessoa "fria e distante", enquanto destaca a exploração que viveu ao lado dos grandes empresários, que controlavam todos os seus passos desde de que ela havia entrado na indústria musical.
Falando diretamente sobre desilusão e autonomia, o refrão frenético no qual Williams repete "I'm in a band" (Eu estou em uma banda) reforça a ideia de toda a sua trajetória como profissional, pois, apesar de inicialmente ter lutado para permanecer com os integrantes do Paramore afim de se firmar na indústria, Hayley sempre foi vista como a culpada por trás de todas as separações que o grupo chegou a ter.
Com o termo "OJ" (Uma gíria para suco de laranja, em inglês) fazendo referência direta a cor de seu cabelo, que é predominantemente laranja, o que contribuiu para a sua identidade visual como artista, Hayley abre seu terceiro álbum com um resumo sincero sobre sua trajetória como artista e como ser humano em menos de dois minutos e meio.
Glum
Trazendo um instrumental introspectivo e uma letra consideravelmente mais leve e contida do que a sua antecessora, Glum é uma canção que trata de temas como solidão e autodescoberta.
Ao brincar com termos antagônicos como o sol e a lua, Hayley reforça que mesmo cercada por luz e presença, sentimentos negativos como a solidão, vulnerabilidade e crises existenciais ainda podem voltar para cercá-la.
Foto 07: Foto promocional de Glum.
O videoclipe da canção é simples, mas impactante, por que exemplifica de forma perfeita o significado da palavra solidão.
Foto 08: Frame do videolcipe de Glum.
Os efeitos sonoros usados nos vocais intensificam esse sentimento de angústia e fazem com que a faixa se torne ainda mais imersiva, cumprindo completamente a função da canção, que convida o ouvinte a se identificar com sentimentos relacionados a solidão, e a incerteza.
Kill Me
Contando com um instrumental tão marcante quanto a sua mensagem, Kill Me critica abertamente a herança familiar. O legado de saúde mental que é transmitido de geração em geração, como no trecho em que Hayley diz "Carrying on' my mother, mother's torment" (Carregando o tormento da mãe da minha mãe).
Foto 09: Foto promocional de Kill Me.
Williams não poupa palavras para descrever o ciclo vicioso que as mulheres, especialmente as filhas mais velhas, tem de carregar. Na letra, Hayley admite a vontade incontrolável de quebrar esse ciclo e impedi-lo que ele seja passado adiante, ainda que isso signifique "matar" aquela versão de si mesma que agradaria sua família justamente por corresponder as expectativas que os demais tem sob ela.
A voz de uma criança, dizendo: "Sinto muito que você esteja passando por um momento difícil" pode ser interpretada como a criança que um dia ela foi, lhe consolando, ou então a próxima mulher na linhagem familiar, que supostamente teria que carregar aquele peso, mas que se viu livre graças a atitude do eu lírico de se libertar daquele peso.
De qualquer maneira, Kill Me é uma mensagem claríssima a respeito do encerramento de ciclos tóxicos e viciosos, onde o eu lírico não se importa de sair queimado para evitar que essas mesmas chamas atinjam aqueles que virão depois dele.
Whim
Trazendo consigo uma letra sincera e um instrumental suave, Whim (impulso) fala a respeito da capacidade de se permitir experimentar o novo, seja ele na vida amorosa, profissional ou mental, mesmo carregando as cicatrizes de decepções e traumas que aconteceram no passado.
Abordando o amadurecimento e o crescimento emocional, Hayley nos ensina através da letra que seguir seu próprio coração pode ser, ao mesmo tempo, um risco e uma necessidade.
Foto 10: Foto promocional de Whim
Uma vida onde não quebramos nossos próprios padrões não pode ser uma vida no sentido literal da palavra, e apesar de todo o medo e da autossabotagem, temos que aprender a confiar em nossos próprios sentimentos, mesmo diante de todo o histórico de eventos passados, que, ao mesmo tempo que nos machucaram, foram capazes de construir a nossa experiência e nos ajudam a entender melhor tanto a nós mesmos quanto aos outros.
Mirtazapine
Apostando na ousadia e na criatividade, Mirtazapine é um verdadeiro hino em um homenagem ao antidepressivo mirtazapina, o mesmo que Hayley admite abertamente que o utiliza há mais de dez anos.
Foto 11: Foto promocional de Mirtazapine.
Na letra, Williams transforma o antidepressivo em uma figura quase humana, destacando todas as qualidades do medicamento, e especialmente os seus efeitos, além de abordar sintomas comuns da depressão como a insônia e a perda de apetite.
Em meio ao seu tom sincero e de adoração, Mirtazapine cria um verdadeiro retrato de experimentar e depender de medicamentos antidepressivos em meio a uma sonoridade alternativa dos anos 90.
Disappearing Man
Disappearing Man é a primeira de muitas canções que provavelmente foram direcionadas a Taylor York, seu ex-companheiro de relacionamento e companheiro de banda.
Foto 12: Hayley Williams e Taylor York
York e Williams engataram em um relacionamento em meados de 2018, mas mesmo antes disso, partilharam décadas de amizade e companheirismo mútuo. Taylor, atualmente guitarrista do Paramore, sempre foi uma peça extremamente importante para a banda. Além de ser amigo de infância de todos os integrantes iniciais, ele também esteve presente em parte da produção de nos dois primeiros álbuns da banda, All We Know Is Falling e Riot, embora tenha apenas se juntado a banda de forma oficial em seu terceiro álbum de estúdio, o Brand New Eyes.
O casal era visto como saudável e alegre por todos que os conheciam, e houveram diversos momentos em que os músicos foram flagrados demonstrando seu carinho e afeto um pelo outro, dentro e fora do palco, na atividade mais recente do Paramore, que ocorreu em 2024, ao abrir shows para a turnê de Taylor Swift na Europa.
Foto 13: Hayley e Taylor no The Eras Tour.
Apesar disso, pouco tempo depois do lançamento do álbum, foram sendo criadas diversas teorias de que os dois teriam terminado o relacionamento. Embora não tenha havido uma espécie de comunicado oficial falando sobre o fim da relação, Hayley deixa essa mensagem implícita em algumas canções de seu terceiro álbum, e esta é a primeira delas.
Disappearing Man fala a respeito da entrega em uma relação amorosa. Usando a metáfora do "Homem que desaparece" Hayley fala sobre a sensação de abandono causada em um relacionamento e a dificuldade de acessar o lado mais vulnerável do ourto.
Trechos como: "Agora eu entendo como você se sente abandonado, numa profundiade que você nunca compartilharia comigo" e "Você poderia ter qualquer um, e você me tinha, por que me deixou ir?" exemplificam perfeitamente essa frustração de tentar se compreender alguém que não quer que a outra pessoa tenha acesso a essa parte mais profunda, e que por isso, constrói barreiras emocionais que impedem o relacionamento de prosseguir de maneira tranquila, nos dando uma dica de que aquilo poderia se tratar do próprio Taylor York, uma vez que o guitarrista da banda sempre esteve ao lado de Williams em todos os momentos bons e ruins, a apoiando dentro e fora do palco, enquanto a própria Hayley parece se queixar, nessa canção, da falta de "permissão" para fazer o mesmo quando se trata de seu parceiro.
Hayley chega até mesmo a descrever suas características físicas como no verso final: "Homem que desaparece, que se desfaz no ar, de cabelos selvagens e um olhar capaz de derreter uma pedra, não havia condições ara o meu amor. Sim, era infinito até não ter mais você para abraçar."
Love me different
Descrita pela própria Hayley como uma "lamentação terapêutica", Love me Different parece ser a segunda canção escrita sobre Taylor York e o fim do relacionamento dos dois músicos.
Foto 14: Foto promocional de Love me Different
Na canção, Hayley fala sobre a busca de um novo amor como forma de se autodescobrir e rever seus próprios conceitos, entre eles, a sua própria capacidade de amar e permitir ser amada de volta.
Com algumas referências que parecem se encaixar com o relacionamento que vivenciou com Taylor, como: "Guardei o meu melhor para você. O clichê de amigos que viram namorados virou realidade. Você disse que eu mereço alguém que saiba o meu valor, mas agora eu me pergunto qual é o meu valor para você " , " Eu sei que você se dizendo que ninguém nunca vai me amar do jeito que você me amou, e eu sei que você provavelmente está certo sobre isso, mas alguém vai me amar de um jeito diferente." e " Eliza me diz que eu vou ficar bem, como se algo melhor estivesse me esperando lá na frente, mas nada se compara com o que poderia ter sido o maior amor de todos os tempos.", Hayley reflete que, no fim do dia, o passo mais importante é tentar aprender a se valorizar e se contentar com as coisas como elas são.
Brotherly Hate
Desde o começo, Brotherly Hate dividiu opiniões a respeito da intenção por trás da canção. Enquanto alguns apontam que pode ser simplesmente uma letra que acompanha uma história lírica, assim como Kill Me, que fala a respeito do peso que filhas mais velhas carregam, (embora Hayley seja filha única) outros afirmam que a Brotherly Hate, na verdade, faz referência aos irmãos Josh e Zac Farro, que juntamente com a própria Hayley, fundaram o Paramore.
Foto 15: Hayley, Josh e Zac Farro.
Ambos os irmãos acabaram saindo da banda após o terceiro álbum da banda, o Brand New Eyes, que já foi abordado aqui no Literatura. O fato é que Zac acabou retornando a banda dois álbuns depois, se tornando integrante fixo do Paramore até os dias atuais, apesar dos desentendimentos públicos que Hayley já teve com ambos.
Foto 16: Hayley e Zac Farro atualmente.
Falando ou não a respeito dos irmãos, Brotherly Hate aborda relações familiares intensas. Na letra, Hayley explora a linha tênue de sentimentos antagônicos como o amor e o ódio, além de brincar com a sensação agridoce que estes sentimentos trazem a mente humana, como nos versões: "Amor fraternal, ódio fraternal, as vezes não parece a mesma coisa?"
Foto 17: Foto promocional de Brotherly Hate.
A canção sugere que apesar de todas as brigas e diferenças, as bases deste relacionamento ainda permanecem inabaláveis e imperturbáveis devido a suas raízes profundamente conectadas, trazendo uma visão realista a respeito da complexidade dos laços humanos.
Negative Self Talk
Com um instrumental introspectivo e uma letra melancólica, Negative Self Talk é uma música que fala a respeito da autocrítica excessiva.
Em meio a um silêncio que é qualquer coisa, menos reconfortante, Hayley expõe de maneira direta as consequências de estar, constantemente, julgando a si mesma, um hábito que se tornou destrutivo com o passar do tempo, uma vez que ele acaba gerando depressão, autossabotagem e isolamento social.
Foto 18: Foto promocional de Negative Self Talk
A faixa também se destaca por transmitir a exaustão de estar dentro de uma mente que não para de se julgar, além de mostrar o perigo que tais pensamentos podem carregar, levando-a terrenos perigosos e ameaçadores dentro de sua própria mente.
Ego death at a barchelorette party
A faixa título do álbum é marcada por críticas carregadas e alvos com nome e sobrenome. Em Ego Death At A Barchelorrette Party, Hayley utiliza da ironia para criticar e expor a superficialidade do local onde nasceu e cresceu.
Foto 19: Foto promocional de Ego Death At A Barchelorette Party
Ao chamar a si mesma de: "A maioria estrela no bar desse cantor country racista" ela se refere, abertamente, a Morgan Wallen, que já havia se envolvido anteriormente em um caso onde havia proferido falas racistas em um vídeo obtido por um site chamado TMZ. No entanto, a menção a Wallen não está na letra apenas a título de exposição e provocação, mas é, também, uma crítica mordaz a normalização deste tipo de comportamento dentro da comunidade na qual ela nasceu e cresceu.
Foto 20: Hayley falando sobre Morgan Wallen na Rolling Stone.
Em um vídeoclipe simples e com estética dos anos 90, Hayley reflete a respeito dos valores questionáveis deste tipo de espaço, especialmente em bares ou festas de despedida de solteira, onde o vazio e o conformismo são celebrados.
Foto 21: Frame do videoclipe de Ego Death At A Barchelorette Party
Williams também reflete, em sua faixa propositalmente repetitiva, que até mesmo este tipo de "diversão coletiva" está marcada por atitudes performáticas e reconhecimento superficial, criticando os valores sociais atribuídos no sul dos Estados Unidos, afirmando que eles não são nada além de um palco para vaidades, racismo e fé performativa.
Hard
Fazendo um contraste muito grande com Negative Self Talk, Hard é uma canção de aceitação em meio a sua própria personalidade forte.
Mostrando, ao mesmo tempo, vulnerabilidade e autodefesa, a faixa explora escolhas feitas para tentar se encaixar e evitar julgamentos, mostrando não apenas o quanto esse tipo de atitude a afetou, mas também como possibilitou que Hayley construísse uma verdadeira armadura emocional ao longo de toda a sua vida.
Foto 22: Foto promocional de Hard.
É interessante perceber que, além da mensagem antagônica com Negative Self Talk, Hard também faz uma ligação direta com Petals For Armor, o primeiro álbum solo da cantora, que trás consigo o conceito de proteção emocional como seu principal tema.
No mais, a faixa retrata de maneira sincera o desejo de se abrir e o medo constante de se ferir ao sair dos próprios limites que ela mesma delimitou.
Discovery Channel
Criando uma verdadeira ponte entre humanos e animais, Discovery Channel é uma canção ousada que sugere, de maneira crua e até mesmo um pouco irônica que as relações humanas podem ser tão cruas e impulsiva quanto as dos outros animais.
Foto 23: Foto promocional de Discovery Channel.
Ao abordar o prazer e a dor que, misturados, formam uma dinâmica intensa e autodestrutiva, Hayley aborda o desejo físico se sobrepondo a razão, nos levando a refletir a respeito da intensidade dos sentimentos humanos, que muitas vezes não conseguem ser controlados, gerando, como resultado, relações marcadas por impulsividade e danos emocionais.
True Believer
Carregada de críticas es significados, True Believer é, provavelmente, a faixa mais relevante de Ego Death At The Barchelorette Party, fazendo uma crítica direta a gentrificação e a perda cultural do sul dos Estados Unidos.
De maneira simples, o processo de gentrificação seria tornar um bairro mais atraente para pessoas com alto poder aquisitivo, ou seja, promover mudanças que transformem aquele ambiente para atrair novos moradores, enquanto aqueles que viviam naquele espaço anteriormente fossem obrigados a encontrar uma nova moradia por não ter mais condições de se firmar naquele lugar, o que dá sentido as lamentações cantadas por Williams, que vê espaços históricos sendo substituídos por centros e franquias comerciais, escancarando a descaracterização cultural presente no lugar onde ela nasceu e cresceu.
Foto 24: Foto promocional de True Believer.
No entanto, a música não trás apenas o processo de gentrificação como um de seus temas principais. A hipocrisia religiosa e o racismo estrutural também marcam boa parte da mensagem de True Believer, muitas vezes chegando até mesmo a se conectar em meio a crítica ferrenha a fé performática e a falta de empatia com o seu semelhante.
Trechos como: "Eles dizem que Jesus é o caminho, mas deram um rosto branco a Ele só para não terem que rezar para alguém que consideram inferior a eles. " só deixam ainda mais evidente esse tipo de discurso, que também foi inspirado na canção Strange Fruit, da cantora Billy Holiday. A canção em si denuncia os linchamentos racistas, os conectando de forma direta com o histórico do sul em relação a escravatura.
Apesar das críticas sombrias e realistas, a canção também aborda termos de esperança, uma vez que ao se declarar "uma verdadeira cristã", Hayley declara ainda acreditar em uma transformação real baseada em amor, respeito e equidade, mesmo diante de todo o histórico apresentado.
Como uma compositora realmente contente com o resultado de seu trabalho finalizado, Hayley já admitiu abertamente que True Believer é a canção que ela mais se orgulha de ter escrito, e isso foi refletido em sua primeira aparição pública para divulgar o seu novo álbum, no programa The Tonight Show, do apresentador americano Jimmy Fallon.
No programa, Hayley performou "True Believer" com uma orquestra, e chegou a cantar algumas estrofes de Strange Fruit, sua grande inspiradora. O interessante da apresentação de Williams é que ela se posicionou atrás da orquestra (formada, em sua grande parte, por pessoas negras), praticamente invisível tocando em seu piano, ao contrário do que grandes artistas costumam fazer quando estão se apresentando ao vivo. A escolha desse posicionamento foi para mostrar que, no caso de True Believer, o que realmente importa é a mensagem, e não o artista que a está transmitindo.
Foto 25: Apresentação de Hayley no programa de Jimmy Fallon.
Zissou
Uma faixa muito querida pelos fãs brasileiros, uma vez que conta com uma frase inteira cantada por Williams em português ("Vem cá, me dá a sua língua"), Zissou é uma das duas canções do álbum que é inspirada em um filme, no caso, "A Vida Marinha com Steve Zissou". O motivo pelo qual Williams adicionou uma frase em português na canção é por conta da aparição de Seu Jorge, que também faz uma pequena aparição no filme em questão.
Foto 26 e 27: Foto promocional de Zissou. Abaixo, foto do filme mencionado.
A canção de instrumental suave e uma melodia levemente brincalhona parece sugerir uma parceria baseada em cumplicidade e aventura, tal qual acontece no próprio filme dirigido por Wes Anderson. Zissou reforça o prazer de estar junto de alguém, mesmo que seja apenas para "perder tempo", celebrando o prazer de se estar próximo de alguém tão querido.
Dream Girl In Shibuya
Também inspirada em um filme, Dream Girl In Shibuya é uma faixa interessante, pois trás uma ambientação muito interessante. Tanto a sonoridade da canção como os elementos que a compõem formam uma experiência praticamente imersiva dentro do universo e da cultura japonesa, contando uma história de duas pessoas tentando se reaproximar amorosamente na cidade de Tóquio.
Foto 28 e 29 Foto promocional de Dream Girl In Shibuya. Abaixo, foto do filme mencionado.
Como já dito anteriormente, a canção foi inspirada por um filme chamado Encontros e Desencontros, que se passa em Tóquio e acompanha a história de uma estrela de cinema e uma esposa de um fotógrafo que acabam se encontrando, por acaso, em um bar de um hotel de luxo.
Usando referências e termos próprios da cultura japonesa, Williams conta a ideia de se tornar mais atraente ou interessante, como se esses elementos pudessem, de alguma forma, ajudá-la a voltar para o estágio inicial da relação, onde tudo é encantador e misterioso. Revelando vulnerabilidades e incertezas, o eu lírico da canção ainda se pergunta se é capaz de despertar sentimentos românticos na pessoa desejada, uma vez que ela já viu todos os seus defeitos e imperfeições.
Dream Girl In Shibuya reflete os sentimentos de alguém que nutre esperanças de um recomeço.
Blood Bros
Fazendo um paralelo interessante com Brotherly Hate, Blood Bros demonstra uma parte totalmente oposta da relação de irmandade, embora a ideia da intensidade ainda esteja bem presente na composição de Williams.
Foto 30: Foto promocional de Blood Bros
Ao explorar um pouco mais essa intensidade do que na primeira canção, Hayley reflete que, quanto mais forte for a conexão, mais dúvidas e feridas emocionais ela pode acabar trazendo, questionando o esforço e a entrega de se manter uma relação, como a disposição de permanecer ao lado de alguém mesmo em um momento difícil, antagonizando, dessa vez, a beleza e o peso de relacionamentos íntimos entre duas pessoas que passam por situações turbulentas.
I Won't quit on you
Reforçando a importância de vínculos mesmo em momentos críticos e de incerteza, I Won't Quit On You é uma balada ambientada em uma galáxia distante. Trabalhando termos técnicos de astronomia e os transformando em metáforas líricas, Williams expressa, ao mesmo tempo, a distância emocional e a lealdade absoluta.
Foto 31: Foto promocional de I Won't Quit On You
Ao refletir que não importa o quão complicado uma relação se torne ela ainda estará ao lado da pessoa amada, Hayley cria uma conexão direta com o ouvinte, apresentando resistência em meio a hostilidade, utilizando o afeto como principal fator motivador.
Este trabalho possui a famosa metáfora da água, muito famosa no universo construído pela própria Hayley, onde a cantora associa o elemento com o próprio amor em si. Assim como um ser humano não pode sobreviver com a ausência de água, ele também não consegue sobreviver sem o amor, sentimento que não deve ser apenas sentido, mas também compartilhado.
Parachutte
Provavelmente a música mais famosa do álbum, Parachutte faz uma verdadeira ponte entre os dois possíveis significados da palavra fall, em inglês, que pode estar se referindo tanto a atitude de cair quanto de se apaixonar, o famoso fall in love.
Em meio a canção direcionada a Taylor York, Williams utiliza a imagem de um paraquedas como verdadeiro símbolo de segurança após uma decepção. Ao "despencar nos céus" por conta do amor que sente, Hayley acaba sofrendo uma queda iminente, e ao final de tudo, lamenta por não ter trazido o seu paraquedas, refletindo, assim, uma metáfora sobre confiar em alguém e ao ser decepcionada, sentir-se em queda livre.
Foto 32: Foto promocional de Parachutte.
O que chamou a atenção de todos em relação a esta canção é, na verdade, a segunda parte da canção, onde Hayley faz uma interpretação realmente emotiva de cada palavra que é cantada. Enquanto canta acontecimentos de sua vida pessoal de forma aberta e sem nenhuma espécie de símbolo ou representação, conseguimos sentir todo o peso das emoções que ela carrega ao longo da canção, como tristeza, raiva, frustração e arrependimento.
Essas sensações, misturadas juntamente com o videoclipe simples que Parachutte apresenta, onde Hayley se mostra, na maior parte do tempo, girando em torno de si mesma, como se estivesse em uma espécie de transe- ou ainda, despencando de uma altura consideravelmente capaz de derrubá-la do sonho para fazer com que ela retorne a realidade- apenas reforçam a ideia central da canção, que mistura vulnerabilidade com auto-defesa.
Foto 33: Frame do videoclipe de Parachutte.
Good ol' days
A primeira canção bônus do álbum possui uma bagagem considerável de referências e detalhes que serão melhor explicados ao longo do texto.
Fortemente inspirada pela cantora SZA, Hayley criou uma melodia R&B que também lembra bastante a fase After Laughter que o próprio Paramore vivenciou em meados de 2017. As referências a banda, no entanto, não param por aí, uma vez que está canção também está direcionada a Taylor York, onde Hayley reflete, em forma de lamentação, o quanto os tempos difíceis que ela passou eram, na verdade, tempos bons por que pelo menos naquela época ela ainda tinha Taylor ao seu lado.
Foto 34: Foto promocional de Good ol'days.
Na letra, Hayley chega até mesmo a citar momentos de sua vida pessoal, como o seu divórcio, perguntando ao guitarrista se ele se arrependia dela. A letra também brinca com o termo Hard Times, que também é nome das canções mais conhecidas do Paramore.
Ao se intitular Miss Paramour, uma referência não apenas ao nome da banda, mas também ao significado do próprio termo (Amor secreto) Williams reflete sobre como só reconhecemos o quanto algo era bom depois de já o termos perdido de vista, embora também ironize a conduta de Taylor York em relação a repercussão dada não apenas ao álbum, como também ao fim do relacionamento dos dois.
Conhecido por ser discreto e reservado nas redes sociais, York publicou um story que foi apagado pouco tempo depois, onde dizia que "Ele era muito mais do que uma música." Na letra, Hayley ironiza o comentário, dizendo: "Don't like songs about you don't listen." (Não gosta de músicas sobre você? Não ouça.) Na mesma estrofe, Hayley faz uma referência direta a Stevie Nicks, brincando com o fato de ela não ter seguido de maneira saudável com o término da relação que tinha com o seu companheiro de banda. No trecho, Williams garante que não fará o mesmo.
A faixa também conta, em sua ponte, com uma gravação do avô da própria Hayley, tornando Good ol'days, provavelmente, a faixa mais pessoal do álbum.
Showbiz
Trazendo um último recado a Taylor York, Hayley encerra seu álbum com Showbiz, que trás uma verdadeira reflexão sobre autenticidade. Depois de ter crescido e passado sua vida inteira nos holofotes, Hayley se pergunta se até mesmo os momentos mais felizes e íntimos não foram apenas parte do espetáculo.
Foto 35: Foto promocional de Showbiz
Com uma letra que transita o glamour do mundo do entretenimento, mas sem descartar, também, toda a sua superficialidade, criando um clima de contradições em relação a vida do estrelato. Showbiz é, muito provavelmente, a última canção de Hayley como artista solo, já que a mesma já informou em entrevistas que é muito provável que ela não volte a trabalhar dessa maneira, apenas reforçando o clima de despedida carregada de reflexão do que realmente significou toda essa jornada, conforme a própria letra de Showbiz já naturalmente sugere.
Conclusão
Concluímos então que o terceiro álbum de Hayley Williams não é apenas o mais famoso e também premiado, como também é o mais bem construído. Ao contrário de seus antecessores, ele possui múltiplos temas, e a natureza criativa pelo qual ele foi desenvolvido, construído e publicado o torna um verdadeiro acontecimento no mundo da música, cada vez mais padronizado e reproduzido para atender e agradar as grandes massas.
Ao publicar suas músicas, no auge da tecnologia, em um site totalmente caseiro e retrô, e ao lançar o álbum em uma quinta feira (dia de menor movimento comercial), Hayley nos mostra que mais do que o sucesso absoluto e os números que Ego Death At The Barchelorette Club pode alcançar, o mais importante é a sua mensagem.

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