Ser amado e ser temido- A grande questão de Walter White

 "Daí nasce uma controvérsia, qual seja; se é melhor ser amado ou temido. Pode-se responder que todos gostariam de ser ambas as coisas, porém, como é difícil conciliá-las, é bem mais seguro ser temido do que amado. " -O Príncipe, Maquiavel, Capitulo 17

Breaking Bad é considerada uma das melhores (se não a melhor) série de todos os tempos. O ator Bryan Cranston, que deu vida ao protagonista Walter White, venceu quatro globos de ouro devido a sua atuação e entrega intensos ao enredo, que narra a trajetória de um professor de química do ensino médio que, após descobrir que está com câncer, resolve fabricar metafetamina para deixar dinheiro para sua família após a sua morte.

Muito reconhecida pela complexidade, seja da história ou dos personagens, a série é repleta de debates e diferenças de opinião. No entanto, nenhum deles é mais atrativo do que a grande discussão que nasce em volta da verdadeira personalidade do protagonista. Seria ele uma pessoa que era boa, mas que acabou se perdendo no meio do caminho, ou seria Walter uma pessoa maligna, cujo diagnóstico de câncer só serviu para desencadear todos os sentimentos reprimidos que haviam dentro dele?

Neste ensaio, apresentaremos a trajetória de Walter White juntamente com os argumentos defendidos pelo filósofo Nicolau Maquiavel, e entenderemos com a teoria deste pensador pode nos ajudar a encontrar a resposta que os fãs, mais de dez anos após o encerramento da série, ainda discutem para encontrar.



Quem é Walter White?

Walter Hartwell White é apresentado, desde o inicio, como um homem reprimido. Ele vive uma vida simples em Albuquerque, sendo constantemente comandado por sua esposa Skyler, que está com uma gravidez relativamente avançada, e tem um filho mais velho chamado Walter Jr, um adolescente que sofre de paralisia cerebral.

Os personagens Marie e Hank Schrader também fazem parte da família de Walter White, sendo Marie uma cunhada indelicada e invasiva, enquanto Hank desempenha o papel de protagonista de todas as decisões importantes da família, chegando a "apadrinhar" o  filho mais velho de Walter a ponto do garoto admirar mais a figura do tio do que a de seu próprio pai.




Foto 01: Hank protagonizando a festa de aniversário de cinquenta anos de Walter White.


Walter trabalha em dois empregos para sustentar sua família. É um professor de química do Ensino Médio ridicularizado por seus alunos, e também explorado no lava rápido onde trabalha, vivendo uma vida medíocre.




Foto 02: Alunos de Walter vão ao lava rápido e se deparam com o professor encerando o carro deles.



Um homem infeliz. Um pai de família que faz o que é necessário para tirar o sustento de sua família. Uma vítima da sociedade.  É desta maneira que Vince Gillligan introduz o personagem principal de Breaking Bad ao seu telespectador.

As dificuldades e os apuros que Walt passa são essenciais para se construir uma espécie de empatia para com ele. Passamos a gostar do personagem, o que torna, consequentemente, mais fácil de torcer por ele.

Walter também nos é apresentado como uma espécie de talento desperdiçado. Tendo vencido, em sua juventude, o prêmio nobel de Química, nos perguntamos como um homem tão estudado e inteligente pode estar limitado apenas as salas de aula do Ensino Médio e a um humilhante trabalho assalariado de meio período, mas as perguntas acabam sendo respondidas tão rapidamente quanto os questionamentos, quando conhecemos os personagens Elliot e Gretchen.

Os dois personagens são fundadores, juntamente com Walter, de uma empresa bilionária chamada Gray Matter, cujo nome foi criado pelo próprio Walter.

Os três amigos de faculdade fundam a empresa, e no momento em que ela ainda estava dando seus primeiros passos, Walter simplesmente desiste de sua sociedade, vendendo sua parte por cinco mil dólares. Ele também termina seu relacionamento com Gretchen, que era, até então, sua assistente, de forma tão abrupta quanto, sem lhe dar nenhuma espécie de explicação, embora fique implícito que Walter não conseguia lidar com suas inseguranças e o seu sentimento de inferioridade, somado ao fato de Gretchen ter nascido em uma família já consagrada.

Após sua saída, a Gray Matter se torna uma empresa extremamente bem sucedida e Gretchen se casa com Elliot, o que desencadeia uma porção de sentimentos negativos em nosso protagonista, como uma ferida incapaz de cicatrizar em seu peito, um fardo que ele insiste em carregar mesmo após todos aqueles anos.

Quando descobrimos, ainda no primeiro episódio, que Walter foi diagnosticado com câncer de pulmão e que ele toma a decisão de fabricar metafetamina para proteger sua família e deixar algum dinheiro para eles, torcemos por ele. Queremos que ele consiga alcançar seu objetivo, e ficamos ansiosos para descobrir qual será a sua trajetória para alcançar os objetivos que ele tem.

E é neste momento, neste exato momento, que a armadilha é montada.


O Nascimento de Heinsenberg

Ao entrar no mundo do crime, Walt adota o pseudônimo de Heinsenberg, e ao longo da série percebemos, lentamente, o quanto Walter acaba sendo engolido por essa persona fria, calculista e essencialmente cruel que compõe a personalidade de Heinsenberg, até ser completamente consumido por ele, de forma que ao final da série, Walter White acaba se tornando o grande vilão da própria série que protagoniza.



Foto 03: "Heinsenberg" no auge de seu poder.



A forma como este desenvolvimento acontece é extremamente sucinta e imperceptível, causando surpresa e espanto em seu telespectador. Quanto aos efeitos disso, eu diria que se trata de uma experiência pessoal.

Alguns passam a torcer contra Heinseberg no final da terceira temporada, outros no final da quarta, mas a vasta maioria do público que consumia Breaking Bad se assustava e se posicionava contra as atitudes do protagonista durante os acontecimentos da última temporada, embora ainda houvessem remanescentes que possuíam a esperança de que Walter White ainda pudesse, de alguma maneira, estar vivo dentro de sua persona criminosa.

Vince Gillligan encerra a série de forma realista e ao mesmo tempo chocante, com Walter confessando ao final de tudo que nunca havia feito aquilo por sua família, e sim por ele mesmo.

"Fiz isso por que era bom nisso. Eu gostava." Declara Heinsenberg de forma sombria. "Isso me ajudava a me sentir vivo."



Foto 04: Walter White no último episódio de Breaking Bad.


Após toda a jornada, inicia-se então o debate a respeito da verdadeira personalidade de Walter White. Seria ele um homem mal, que só usou o diagnóstico de câncer para cometer todos aqueles crimes? Ou então se trataria de um homem reprimido que acabou se perdendo no meio de todo o poder que conquistou? Teria ele, ainda, deixado que seu ego o dominasse completamente, até não sobrar nada?


O que é o pensamento maquiavelista?

Agora que nós já entendemos toda a fonte do debate entre os fãs e os críticos da série, vamos conversar um pouco sobre a vida e a obra de Maquiavel, a fim de estarmos aptos para realizar as devidas comparações.

Maquiavel foi um filósofo italiano nascido em Florença. Ele é conhecido por ser o fundador da política moderna, mas também exercia as profissões de músico, historiador e poeta.




Foto 05: Nicolau Maquiavel.


O diferencial de sua obra, dentre todas as outras, é que Maquiavel escreve como o estado e o governo são em sua realidade, ao invés de se ater como eles deveriam ser, ao contrário de todos os outros pensadores de sua época. Ele foi visto como revolucionário por enxergar a política pela política, ou seja, ver a arte de comandar de maneira separada a igreja e ao poder religioso.

Sua obra principal, O Príncipe, foi um presente dedicado Lorenço de Médici, que governava a Itália naquele momento.

Em sua obra, ele defendia que os maus tem vantagens sobre os bons, pois pois os bons são parados por princípios éticos, ao mesmo passo que a ética não é um fator determinante que paralisa os maus, os impedindo de alcançar seus objetivos. Com isso, poderíamos dizer que sua obra sucinta que os  fins justificam os meios.

Embora esta frase não tenha sido dita literalmente por Maquiavel em sua obra, é uma boa maneira de resumir as suas séries de conselhos endereçados ao príncipe  Lorenço de Médici. Maquiavel diz que não importa muito que caminho tomamos, se os resultados forem bons e as consequências, positivas, as estratégias que utilizamos para fazer tal evento acontecer são um preço justo a se pagar.

"Mentir, distorcer os fatos, ameaçar os opositores, tirar o dinheiro e o poder dos ricos e dar aos pobres, usar de charme; palavras bonitas e de efeito... Para manter-se no poder!"  

Frases como esta, nas palavras do próprio Maquiavel, parecem reforçar esta crença anteriormente explicada, o que torna sua obra um verdadeiro manual de não apenas compreender ou obter o poder, mas principalmente como se manter nele.

Ao longo dos capítulos, Maquiavel nos apresenta a Virtú e a Fortuna como elementos essenciais para que qualquer governante possa aprender a administrar o poder for depositado em suas mãos.

A Virtú simbolizaria a astúcia e a sagacidade, enquanto a Fortuna seria o oposto disso, sendo representada pelo acaso e a própria sorte.

As duas forças seriam necessárias para criar este equilíbrio, ou seja, elas são independentes. No entanto, o filósofo infere que a Virtú pode ser ainda mais importante do que a Fortuna, e que um governante que se preze jamais, em hipótese alguma, deve depender unicamente da Fortuna para conseguir alcançar seus objetivos.

"Os estados que surgem subitamente... como tudo o que nasce e cresce depressa na natureza...não são capazes de lançar raízes profundas e desenvolvidas, de modo que a primeira tormenta pode abatê-los; a menos que, como já foi dito, esses que se tornam príncipes que de repente tenham tantas Virtú a ponto de saber preservar com presteza o que a Fortuna lhes pôs no colo, construindo alicerces que outros erigiram antes de se tornarem príncipes."


Fazendo a conexão

Sei que, a esta altura, você deve estar se perguntando: "O que um pensador político tem a ver com um químico sem princípios éticos?", mas é justamente nesta sessão que vamos tentar erguer a ponte de um tema para outro.

Embora pessoalmente acredite que a frase "Os fins justificam os meios" se encaixe melhor para outro personagem deste universo (Saul Goodman), a teoria maquiavélica se encaixa muito bem na persona de Heinsenberg, que outrora foi Walter White.

Uma cena que exemplifica isso é quando o protagonista discute com seu parceiro e sócio, Jesse Pinkman, que a esta altura já está considerando se aposentar do mundo do crime, alegando estar "Cansado do negócio do cristal". Indignado com o jovem ao menos cogitar essa possibilidade, Walter responde de bate e pronto: "Acha mesmo que eu estou no negócio do cristal, Jesse? Este aqui é o negócio do poder."


Foto 06: Walter discutindo com Jesse Pinkman.


Assim como o governante ideal retratado por Maquiavel, Walter White não apenas conquista o poder, mas também o mantém e o administra, consolidando o seu império de metafetamina no Novo México e chegando até mesmo a expandi-lo para algumas regiões da Europa.

Ao mesmo tempo que Walter utiliza a visão de vítima, a mesma lente que ele sabe que as pessoas lhe enxergam, dizendo que tudo o que ele está fazendo é por sua família, ele também quer ser reconhecido. Temido. Dono de inúmeros boatos que enalteçam seu intelecto e sua maneira fria e calculista de resolver todo e qualquer conflito.




Foto 07: Heinsenberg confrontando Declan, ordenando que ele dissesse o seu nome.



Mais um exemplo bem claro desta abrupta transição é quando seu cunhado finalmente descobre sua verdadeira identidade. A principio, Walter se deixa agredir e pede para que Hank reconsidere, visto que o seu câncer havia retornado, e que lhe restavam poucos meses de vida. Quando o agente da narcóticos dá a negativa, o semblante de Walter se modifica completamente e, em um passe de mágica, ele começa a fazer diversas ameaças.

Quando Hank, confuso e assustado, diz que não sabe com quem está falando, Walter- ou melhor- Heinsenberg, declara: "Então é melhor ter muito cuidado aonde pisa."




Foto 08: Heinsenberg confrontando Hank.



Com estas atitudes, somadas com o principio mais famoso de San Tzu, autor de "A Arte da Guerra" ("Conhece teu inimigo como a ti mesmo."), Walter White se torna o tipo de governante perfeito para Nicolau Maquiavel.

Não podemos dizer que tudo o que Walter fez foi única e exclusivamente por conta de seu ego. O bem estar de sua família estava ali. De forma secundária, mas estava. Walter apenas projetou esse objetivo secundário acima do primeiro pois sabia que desta maneira suas ações seriam mais aceitas e justificáveis.

De forma simples e objetiva, Walter White tentou ser amado e temido, mas, assim como Maquiavel previra, ele logo percebeu que não seria possível obter as duas coisas.

Logo, ele teria que priorizar, e a escolha que foi feita parecia muito mais simples do que realmente era.

"Com quem você pensa que está falando? Quem você acha que está vendo? Você sabe quanto eu ganho por ano? Mesmo se eu contasse, você não acreditaria. Você sabe o que acontece se eu parasse de trabalhar? Um negócio que poderia estar na bolsa de valores vai falir. Desaparecer. Ele deixa de existir sem mim. Não, você claramente não sabe com quem está falando, então me deixe esclarecer. Eu não estou em perigo, Skyler. Eu sou o perigo. Um cara abre a porta e leva um tiro, você acha que farão isso comigo? Eu sou o cara que bate. "




Foto 09: Heinsenberg discutindo com Skyler.




FONTES BIBLIOGRÁFICAS

Nicolau Maquiavel – Wikipédia, a enciclopédia livre

Nicolau Maquiavel: quem foi, suas obras e principais ideias (Filosofia) - Toda Matéria


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