Relembre o caso de Juliana Marins, jovem que foi encontrada morta após quatro dias presa no vulcão Rinjani, na Indonésia.
Escrito por: Julia Segre Data: 30/06/2025 Atualizado em: 09/07/2025
Uma pessoa apaixonada por artes e esportes, e que gostava de viver a vida com intensidade.
É desta maneira que a família Marins irá se lembrar de Juliana, uma publicitária de 26 anos, dançarina profissional de pole dance e também a caçula da família. Juliana fazia um mochilão pelo continente asiático desde o inicio do ano, compartilhando com a família e seguidores todos os lugares que já havia percorrido até desembarcar na Indonésia, onde resolveu fazer uma peregrinação até o monte Rinjani, onde sua vida se encerraria.
(Imagem 01: Foto de Juliana Marins, brasileira que morreu após queda no vulcão Rinjani)
O caso, que ganhou repercussão internacional, aconteceu no dia vinte de junho. Juliana estava junto a um grupo de cinco outros turistas estrangeiros e mais um guia que havia sido contratado para acompanha-los naquela trajetória que tinha tudo para ser inesquecível quando, algumas horas depois da aventura ter sido iniciada, Juliana pediu para parar, alegando cansaço.
Tanto o guia quanto o grupo respeitaram o pedido da publicitária, mas prosseguiram seu caminho, deixando Juliana sozinha. Em algum momento entre um acontecimento e outro, a jovem caiu em um trecho da trilha turística, há aproximadamente 180 metros da superfície. Inicialmente, ela havia sido dada como desaparecida pela administração do parque, permanecendo com esse status durante algumas horas até drones utilizados por voluntários serem capazes de captar imagens de Juliana, ainda viva e se mexendo, pedindo por socorro, o que comprovaria que a jovem permanecia viva, mesmo horas após a queda.
(Imagem 02: Imagens de Juliana captadas por drones utilizados por alpinistas voluntários)
É muito provável que a brasileira tenha tentado subir de volta, apoiando-se nas pedras, o que só a fez declinar ainda mais, devido ás condições traiçoeiras do solo vulcânico, o que fez com que a profundidade de sua localização aumentasse de 180 para 200 metros.
Como já dito, Juliana sofreu a queda no dia vinte de Junho, por volta das 19h no horário local. Apesar de ter sido avistada por drones, o resgate da brasileira só foi se iniciar no dia seguinte, ás 4h da manhã.
Esta primeira tentativa foi interrompida ás 16h devido ás condições climáticas. Fazia um frio intenso e a presença da neblina dificultou muito o papel dos alpinistas, que alegaram que o principal motivo para a interrupção do socorro seria a baixa visibilidade. As autoridades indonésias fecharam o parque por conta das buscas e se fez o uso de helicópteros na esperança de localizar a brasileira, sem sucesso.
Os socorristas teriam avançado por aproximadamente 250m abaixo da terra durante as doze horas de operação, estando há cerca de 350m da brasileira quando resolveram interromper as atividades devido as condições climáticas adversas, além de afirmar que as cordas utilizadas não teriam tamanho o suficiente para alcançar a jovem, que chegou a ser vista mais uma vez, também com o auxílio de drones, ás 17h, já imóvel.
Juliana Marins só conseguiu ser resgatada cinco dias depois do acidente, já sem vida.
Local do acidente
Palco do acidente fatal de Juliana Marins, o monte Rinjani é um dos principais pontos turísticos da Indonésia, o que o torna, naturalmente, um destino muito procurado por turistas.
Com 3800 metros de altura e com uma trilha considerada difícil entre os especialistas em alpinismo devido as suas temperaturas adversas, Rinjani é um vulcão ativo, com sua última erupção ocorrendo no ano de 2016. O lugar é amplamente reconhecido por sua vista única e paradisíaca, e todos os anos reúne milhares de pessoas de todos os cantos do planeta para apreciar de perto a grandiosidade da natureza.
O passeio turístico dura de dois a quatro dias, dependendo do trajeto escolhido. Nos últimos anos, oito pessoas perderam suas vidas na mesma trilha, em trechos muito semelhantes ao da brasileira.
(Figura 03: Monte Rinjani, ponto turístico da Indonésia)
Acidente ou negligência?
O que chama a atenção para o caso de Juliana não foi apenas a forma com a qual o resgate aconteceu- com muita lentidão, beirando até mesmo o amadorismo- mas também a postura das autoridades indonésias em relação ao que acontecera.
A família da brasileira, que já declarou abertamente que irá buscar medidas cabíveis, só foi informada do que houve com Juliana três dias após a sua queda, no dia 24/06, por volta das 11h no horário de Brasília. Após a notícia tardia do que ocorrera com a filha, pai da publicitária se deslocou até a Indonésia para acompanhar o caso mais de perto.
É perceptível desde o princípio o quanto a ajuda dos voluntários foi essencial para que o resgate fosse concretizado. A presença dos alpinistas que estavam por perto foi tão importante quanto- se não mais relevante ainda- do que a presença da equipe de resgate em si, uma vez que as únicas imagens que mostravam a localização de Juliana foram registradas com os drones manipulados por voluntários, que também tiveram um papel essencial na retirada do corpo da publicitária, em especial o alpinista local Abdu Agam, que liderou a equipe de exploradores que chegaram até mesmo a dormir próximos ao corpo da brasileira apenas para garantir que ela não despencasse ainda mais no solo arenoso.
“Se chovesse um pouco mais, morreríamos juntos. Não sabemos como conseguimos resistir, estava muito, muito frio.” Descreveu ele. Agam foi eleito, por muitos, como um herói, e ganhou reconhecimento por boa parte dos internautas e jornalistas brasileiros, mas o homem, por si só, não se considera digno de tanto reconhecimento. “Vi que me chamam de anjo no Brasil. Eu agradeço, mas não consegui salvá-la.”
(Figura 04: Agam e seus companheiros dormindo nas profundezas do Monte Rinjani.)
Após cinco dias da queda, o corpo de Juliana foi içado do ponto de onde ela caiu, depois de quase doze horas de trabalho árduo por parte dos alpinistas voluntários e também da equipe de resgate.
Haviam rumores de que o parque teria disponibilizado água, cobertores e comida para a jovem, mas a família da brasileira nega versão. “Não é verdadeira que a equipe de resgate levou comida, água e agasalho para Juliana.” Declara a irmã de Juliana, que chegou a criar um perfil no instagram exclusivo para atualizações e informações a respeito do resgate de sua irmã.
(Figura 05: Post de Mariana Marins, irmã mais velha de Juliana Marins, no instagram.)
A família também critica a falta de sensibilidade e de tato das autoridades indonésias a respeito das informações que dizem respeito ao estado de saúde de Juliana Marins. Mariana conta que houve uma coletiva de imprensa com os resultados do laudo médico realizado no corpo da brasileira antes de revelar para a família o resultado da autópsia, que se mostra controversa com os fatos e as imagens recolhidos de Juliana durante o resgate.
Segundo especialistas locais, Juliana teria sofrido um trauma contundente que gerou hemorragias internas, em especial na região do tórax, coluna e costas, o que teria sido a principal causa da morte ao invés de fome, frio e sede, hipóteses levantadas pela mídia por conta da instabilidade do clima e pelo fato da turista não ter recebido suprimentos. Enquanto ainda aguardava pelo resgate.
No entanto, a principal causa de controvérsia na versão fornecida pelas autoridades indonésias é a informação de que Juliana teria morrido cerca de vinte minutos após a queda, o que contradiz diretamente com as imagens captadas por drones nas quais Juliana ainda estava viva, horas após a queda, pedindo por socorro.
O corpo da brasileira passou por uma nova autópsia assim que chegou ao Brasil e ficou atestado que a causa da morte da publicitária foi uma hemorragia interna, causada por lesões múltiplas, resultado direto do forte impacto que ela teria sofrido durante a queda.
Não foi possível determinar se os fatores ambientais como hipotermia ou psicológicos, como desorientação ou exaustão tiveram alguma espécie de participação na morte da jovem brasileira. Contradizendo mais uma vez as imagens apresentadas pelos drones, os legistas nacionais indicam que os ferimentos foram letais, e que ela não poderia ter sobrevivido mais do que 15 minutos após sofrer o impacto. Os profissionais brasileiros também não descartam a possibilidade de que Juliana tenha sofrido um período curto de agonia física e psíquica, além de estresse endócrino, metabólico e imunológico antes de vir a falecer.
A segunda autópsia realizada, que acabou confirmando as informações já previamente fornecidas pelos profissionais indonésios, terá uma investigação precisa da Polícia Federal do Rio de Janeiro, um pedido feito por parte da família da vítima, uma vez que o documento que continha o resultado do laudo pericial foi vazado sem a ciência e a autorização da família da jovem, dois dias antes de sua suposta divulgação ao público em meio a uma coletiva de imprensa, que aconteceria na sexta-feira, dia 11/07. De forma dolorosamente semelhante ao tratamento que receberam na Indonésia, o laudo pericial acabou chegando ás mãos de terceiros antes do conhecimento da própria família da vítima também em seu país natal.
O corpo de Juliana chegou ao Brasil no dia 02/07 e passou por uma nova autópsia, que se iniciou as 8h30 da manhã e durou cerca de duas horas. Contou com dois peritos da polícia civil, um perito médico da policia federal e um assistente técnico indicado pela família.
Os perigos do Rinjani
O vulcão Rinjani soma, no total, cento e oitenta acidentes nos últimos cinco anos, sendo sessenta deles registrados apenas no ano passado.
O número de mortos na trilha turística também parece ser uma constante quando o assunto é o Rinjani. Com nove vítimas nos últimos cinco anos, o parque teve duas baixas no ano de 2020, uma baixa no ano de 2021, uma baixa no ano de 2022, três baixas no ano de 2024, e agora uma baixa em 2025, a jovem brasileira Juliana Marins, de apenas vinte e seis anos.
(Figura 06: Fachada do parque do turístico que oferece a trilha para a peregrinação rumo ao vulcão Rinjani)
Existem movimentos ativos na Indonésia que rogam para que o governo feche a trilha turística, ou que aumente a segurança e aperfeiçoe os protocolos já existentes, mas até o momento nada foi feito.
Vítima fatal da famosa trilha turística, Boaz Bar Anam era um israelense de trinta e sete anos que visitava o local em 2022 quando caiu acerca de 200m da mesma trilha que Juliana fazia, enquanto tirava fotos. O resgate de Boaz demorou uma semana e desde então, nada foi feito para reforçar a segurança do local.
(Figura 07: Boaz Bar Anam, vítima da trilha do vulcão Rinjani, em 2022. )
A história de Paul Farrell, turista irlandês de 32 anos, quase teve o mesmo final que a de Juliana e Boaz, mas felizmente ele conseguiu ser resgatado, pelo próprio Agam, cerca de cinco horas após a queda.
A grande diferença no caso do irlandês é que as equipes já estavam próximas ao local onde ele caiu, tentando resgatar uma outra vítima, quando o avistaram e resolveram tirá-lo dali.
(Figura 08: Paul Farrell, turista irlandês que foi resgatado cinco horas após cair na trilha do vulcão Rinjani)
Após a retirada do corpo de Juliana Marins no dia 25/06- Uma quarta feira- o parque voltou a ser aberto para peregrinação turística ainda na mesma semana, no dia 28/06- Um sábado.
Em um post no instagram, o parque reforçou a importância de trazer equipamentos de segurança adequados para o trajeto turístico, mas não se posicionou a respeito da tragédia.
No mesmo dia de sua reabertura, um alpinista da Malásia caiu no mesmo ponto da trilha onde a brasileira perdeu a sua vida, mas, dessa vez, foi resgatado com rapidez e agilidade pelos socorristas que estavam “a postos”. O turista, que tinha leves escoriações e um trauma superficial na região da cabeça, foi colocado em uma maca e levado por um caminho mais seguro, utilizado, nas próprias palavras da equipe de resgate para situações emergenciais.
“Estou bem, obrigado.” Agradeceu o turista em vídeo, após ser socorrido.
(Figura 09: Depoimento de alpinista malaio que caiu após a reabertura do parque)
Trâmite Político
A Prefeitura Municipal de Niterói, distrito de onde Juliana era natural, custeou o translado do corpo da jovem para o Brasil, além de batizar um dos principais pontos turísticos da cidade em sua homenagem, demonstrando apoio e solidariedade a família da vítima neste momento tão difícil.
As regiões do Mirante até a Praia do Sossego, em Camboinhas, serão renomeadas com o nome da jovem em memória ao amor que ela sentia e expressava pelo lugar.
(Figura 10: Região metropolitana do Rio de Janeiro, que passará a levar o nome de Juliana Marins)
No entanto, em um primeiro momento, o pedido de auxílio para custear o translado havia sido negado pelo Ministério das Relações Exteriores (também conhecido como Itamaraty) por conta de um decreto que impedia o translado de brasileiros falecidos no exterior de acontecer. Tal decreto foi derrubado pelo presidente Luiz Inácio da Silva (Lula), mas enquanto isso não acontecia, artistas famosos como Alexandre Pato se mobilizaram pela causa e chegaram a se voluntariar para arcar com o processo.
(Figura 11: Alexandre Pato, ex-futebolista brasileiro, se ofereceu para pagar o translado do corpo de Juliana Marins)
Ponto turístico e entidade religiosa
Reconhecido e enxergado como ponto turístico ao redor do mundo, o Monte Rinjani possui um significado diferente para o povo indonésio.
Segundo os habitantes e estudiosos da cultura local, o vulcão é considerado uma entidade sagrada, não sendo raro encontrar rituais e oferendas nas redondezas do espaço, uma espécie de prece na qual as forças do vulcão se reduzissem a fim de não causar maiores estragos, em caso de erupções.
Esta maneira de enxergar o espaço pode explicar, além do conhecimento adquirido pela experiência em meio a inúmeras peregrinações naquele tipo de solo, os números e estatísticas levantados por estudiosos.
De sessenta acidentes registrados, quarenta e quatro aconteceram com estrangeiros, o que dá uma estimativa de que a cada seis mortos, ao menos quatro deles seriam turistas.
Alguns povos chegam a acreditar que as mortes que ocorrem na trilha do Rinjani não são consequência do acaso, e sim uma espécie de sacrifício, algo que teria ocorrido de forma providencial a fim de aplacar a fúria das divindades que cercam o local.
(Foto 12: Tribo Sasak, que visita regularmente o monte Rinjani para realizar oferendas a entidade)
Conclusão
A despedida final de Juliana Marins aconteceu na sexta feira, dia 04/07, no Cemitério Parque da Colina, em Niterói. Parte da cerimônia, que se iniciou as dez horas da manhã foi aberta ao público. Após o meio dia, apenas parentes e amigos próximos da família puderam permanecer para prestar suas últimas homenagens a publicitária.
Estavam presentes no funeral da a primeira-dama Janja Silva, a ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
Inicialmente o corpo da jovem seria cremado devido a um pedido que a própria jovem teria expressado ainda em vida. A família teria conseguido a autorização do governo para realizar o procedimento, mas logo a decisão foi revogada caso seja necessário realizar mais uma eventual autópsia no futuro.
"Pedimos ao juiz, por meio da Defensoria Pública, para que a Juliana pudesse ser cremada. Mas o juiz tinha dito não, pois é uma morte suspeita. Talvez, não sei se o termo é esse. Então ela teria que ser enterrada caso precisasse fazer uma exumação futura." Explicou o Manoel Marins, pai da jovem publicitária.
(Foto 13: Velório de Juliana Marins que ocorreu em Niterói, no dia 04/07/2025. )
Após uma análise cuidadosa em relação ao que houve com Juliana Marins, concluímos que a tragédia que ceifou sua vida poderia muito mais do que ter sido evitada- poderia jamais ter sequer chegado perto de acontecer, caso as autoridades da Indonésia tivessem o mínimo de respeito aos Direitos Humanos proclamados pela ONU, sempre são celebrados no papel, mas jamais vividos na prática e no ao vivo e em cores.
“Trata-se de despreparo, de descaso com a vida humana, trata-se de negligência e de precariedade dos serviços daquele país. É um destino turístico mundialmente conhecido, [de um país] que depende do turismo pata sobreviver e que deveria ter mais estrutura para resgatar as pessoas que passassem por um infortúnio desses, mas, infelizmente, não tem”. Definiu o pai da jovem, em entrevista coletiva. Manoel também apelou para que o país reveja seus protocolos para que casos como o de sua filha não se repitam, mas até o momento não foi realizada nenhuma espécie de mudança para promover uma trilha mais segura através do Monte Rinjani, transformando Juliana Marins, para os responsáveis do parque turístico mundialmente famoso em apenas mais uma número, uma mera estatística na lista vítimas fatais que só vem crescendo ao longo dos anos.
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