Confissão, Luto e Memórias

 
Biografia escrita dezessete anos após a tragédia pela mãe de um dos atiradores é um relato comovente sobre sinais invisíveis e um lembrete de empatia e humanidade.

Escrito por: Julia Segre                Data: 02/09/2025               Atualizado em:  10/09/2025

O massacre de Columbine foi o mais famoso episódio de violência nas escolas, e ganhou notoriedade nos quatro cantos do planeta.

O caso aconteceu no dia 20 de Abril de 1999, na pequena cidade de Littleton, nos Estados Unidos, e mesmo hoje, quase trinta anos após a tragédia, o assunto permanece em alta e é relembrado com frequência, retratado em filmes, músicas, canções e seriados de televisão, ao mesmo tempo que levantou importantes discussões a respeito do porte de armas facilitado nos Estados Unidos, o papel dos pais na educação e criação de seus filhos e principalmente as consequências do bullying na escola.

Ler este livro pela segunda vez foi ainda mais desafiador do que a primeira, e a decisão de trazê-lo para ser resenhado aqui não foi fácil, mas escolhi este livro pois ele é inesquecível em todos os sentidos da palavra. Uma das leituras mais desafiadoras que já fiz na vida, e que me marcou de muitas maneiras diferentes, assim como as demais obras literárias que eu resenhei aqui para a Literatura da Meia Noite, embora este tenha me marcado por motivos totalmente distintos.


Literatura da Meia Noite

Foto 01: Capa do livro: "O Acerto de Contas de Uma Mãe".


É uma leitura densa, lenta e pesada. Sue consegue trazer o leitor para dentro de sua própria pele, fazendo com que a gente sinta exatamente tudo o que ela sentiu naqueles anos onde a tragédia era ainda mais incompreensível aos olhos dela. Com o auxílio de seus diários, que acompanharam seus pensamentos naqueles anos díficeis e tortuosos, e a participação de inúmeros especialistas em saúde mental, Sue nos conta com exclusividade a forma como sua vida se transformou completamente após a tragédia de Columbine e que tipo de lição ela pôde extrair de toda essa barbárie.


Foto 02: Sue Klebold, hoje ativista em prol de recursos que ajudem jovens a lutar contra a depressão e o suicídio.

Mas antes de falar a respeito do livro e o que ele apresenta, é necessário fazer uma pequena explicação para a tragédia; como ela estava planejada para acontecer e como ela realmente ocorreu, além de desmentir algumas teorias (que para alguns são tidas como verdades absolutas) que podem acabar atrapalhando a visão de quem ainda não conhece ou que luta para compreender esse caso.


O Massacre de Columbine foi um ato de violência generalizada cometido por Eric Harris e Dylan Klebold, filho de Sue, e foi planejado por mais de um ano.  Eric era dono de um site secreto, no qual ele e Dylan gravavam os famigerados "Vídeos do Porão". Neles, os garotos cheios de ódio reproduzem diversas falas racistas, xenofóbicas e homofóbicas, além de diversos palavrões em meio as suas tentativas de registrar a criação de suas bombas caseiras, que estavam sendo criadas especialmente para a ocasião.

É importante ressaltar que existe uma diferença entre os dois atiradores, diferença esta que fica evidente em um dos "Vídeos do Porão", vídeos nos quais as famílias Klebold e Harris foram, infelizmente, convocadas a assistir. Ambos os garotos guardavam diários, nos quais escreviam seus pensamentos mais profundos. Muitos psicólogos, após a tragédia, estudaram os escritos dos dois jovens e chegaram a conclusão de que eles eram totalmente diferentes entre si. Ao mesmo passo que Eric desenhava suásticas nazistas em seus cadernos, Dylan desenhava corações.

 

Foto 03: Dylan Klebold e Eric Harris.

Harris foi classificado pelos profissionais como um psicopata com um poder caricato de convencimento, enquanto Dylan foi diagnosticado com uma depressão muito grave, de forma que os especialistas logo afirmaram que Dylan foi coagido por Eric a participar do massacre, e que sem Harris, o Massacre nunca teria acontecido.

Um dos especialistas da polícia de Littleton concluiu, após o término da leitura do diário: "Eric queria matar e não se importava em morrer, já Dylan queria morrer e não se importava em matar." e isso parece resumir muito bem a dinâmica dos dois garotos. 

Esse comportamento também é mostrado nos "Vídeos do Porão", quando Dylan reclama do feriado de Pessarch (Celebração judaica, uma vez que sua mãe é judia) que ele é obrigado a participar e Eric encara o companheiro, gerando um silêncio desconfortável no vídeo. Dylan olha para o amigo de volta, quase com medo de Harris, e diz: "Mas minha mãe não é totalmente judia, cara. Ela é só metade judia, ou melhor, um oitavo". Depois de alguns segundos de deliberação, Eric retoma seu discurso, reclamando de seus pais, enquanto Dylan diz que seus pais foram muito bons para ele. 

Apesar da diferença no discurso, ambos isentam os pais de qualquer responsabilidade do massacre, quase como se soubessem que o vídeo que gravavam seria encontrado pela polícia após o ocorrido.

Eles se despedem cada um ao seu modo. Eric diz como suas posses devem ser distribuídas e Dylan diz: "Só sei que vou para um lugar melhor. Não gosto muito da vida."

(Em seu diário, certa vez, Dylan escreveu: "Vamos resumir minha vida; a existência mais triste de todos os tempos." cerca de 2 anos antes do tiroteio acontecer. É revelado no livro que Eric também chamou outros garotos para participarem do massacre, mas apenas Dylan teria "mordido a isca".)

A influência do nazismo nos escritos de Eric é notável, o que fez com que muitos acreditassem que o ataque aconteceu no dia 20 de Abril em uma espécie de homenagem ao líder político que pregava a respeito da supremacia de determinadas raças em detrimento de outras, mas este fato é completamente desmentido. O ataque aconteceu em uma terça feira pois algumas armas que os garotos haviam comprado não chegaram dentro do prazo esperado, o que adiou por um dia o planejamento de ambos.

A motivação por trás do ataque, muito repetida nos diários de Eric e também presente nos chamados: "Vídeos do Porão" era revidar o bullying sofrido por ambos nos corredores de Columbine. Alguns descartam a possibilidade de Eric e Dylan terem sofrido bullying, porém tudo indica que não apenas eles eram vítimas de bullying, como diversos outros estudantes, e que Columbine seria caracterizada por uma escola com uma cultura tóxica, cujos professores faziam "vista grossa" para o que acontecia nos corredores (Ao longo do livro, Sue se encontra com um pai de um garoto que teve o couro cabeludo queimado por atletas do time de futebol quando o menino estudava no Colégio de Columbine. Para Sue, o homem admitiu estar surpreso que a tragédia "não tenha acontecido antes").

O plano inicial dos dois garotos era chegar em carros separados, cada um em uma entrada do colégio, e plantar as três bombas no refeitório da escola (que estaria cheio no horário do ataque, planejado por volta das 10h da manhã). Quando as bombas explodissem, elas teriam capacidade de matar por volta de 200 a 300 alunos, além de comprometer a estrutura do prédio. A biblioteca, que ficava acima do refeitório, possivelmente desabaria no refeitório, causando ainda mais mortes.

Seguindo com esse raciocínio, os atiradores planejaram entrar por portas distintas justamente para receber os estudantes que sobreviveriam a esse pequeno impacto. Com Eric em uma entrada e Dylan em outra, ambos armados, os estudantes que tentassem fugir seriam alvejados por ambos. Quando a ação estivesse finalizada, ambos os atiradores cometeriam suícido, com as bombas programadas para detonar em seus carros no estacionamento, matando assim a imprensa local, a polícia e os primeiros pais que fossem notificados sobre o ataque.

No total, o massacre de columbine teve 12 estudantes **  e 01 professor morto, além de cerca de 36 feridos e 2 paralisados permanentemente pela gravidade dos ferimentos, no entanto, o plano original era matar por volta de 600 a 700 pessoas. Em seus diários, ambos os atiradores declararam querer fazer algo maior que Oklahoma, um ataque terrorista que deixou 160 pessoas mortas e mais de 600 feridas.

No entanto, o plano inicial acabou falhando devido ao fato das bombas do refeitório não terem sido detonadas conforme o planejado. Isso fez com que os atiradores partissem para o que chamavam de "Plano B", que era muito mais simples, e sombrio; matar qualquer pessoa que aparecesse no caminho dos atiradores.

Brooks Brown, amigo pessoal de Eric, com quem já tinha tido um desentendimento com ele no passado, o avistou chegando a escola e o abordou, perguntando por que ele havia chegado na escola tão tarde, visto que ele sabia o quanto Eric era inteligente e que ele havia perdido uma importante prova que havia acontecido naquela mesma manhã, mas Eric lhe respondeu dizendo que "nada daquilo importava mais" e lhe disse: "Brooks, eu gosto de você agora. Saia daqui. Vá pra casa." Brooks não entendeu o que Eric queria dizer com aquilo, mas obedeceu o amigo.


Foto 04: Brooks Brown, sobrevivente de Columbine.

Primeiro, Eric e Dylan caminharam em direção de Rachel Scott e Richard Castaldo, que almoçavam do lado de fora do colégio. Nenhum deles disse uma só palavra as vítimas. Eric matou Rachel Scott na mesma hora e atirou quatro contra Richard Castaldo, que conseguiu sobreviver, mas ficou paraplégico.

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Foto 05: Rachel Scott, vítima de Columbine.

Depois disso, Eric e Dylan atiraram contra Daniel Rouhbough, Sean Graves e Lance Kirklin. Daniel foi morto na mesma hora, enquanto Sean e Lance ficaram gravemente feridos, mas conseguiram fugir.

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Foto 05: Daniel Roughbough, vítima de Columbine.

Nesse meio tempo, as pessoas que estavam do lado de dentro da escola começaram a ouvir os barulhos de tiros e achavam que se tratava de uma espécie de pegadinha ou piada de mal gosto dos veteranos do terceiro ano. No entanto, o professor Dave Sanders percebeu que a situação era séria e começou a correr, avisando aos alunos que não era uma brincadeira, e que eles tinham que deixar o refeitório, se esconder em um lugar seguro ou então tentar deixar a escola pela saída dos fundos, uma vez que Eric e Dylan estavam na entrada principal.

Dito isso, Eric e Dylan entraram na escola, fortemente armados. No refeitório Eric atrou em vários estudantes e deixou Anne Marie Hocchalter paralisada. **

**Atualmente contamos 15 vítimas fatais ao pensarmos em Columbine, pois Anne Marie Hocchalter ficou paralisada após ter sido baleada no peito e nas costas por Eric Haris, não pdoendo mexer da cintura para baixo. Ela é agora considerada vítima de Columbine por que faleceu em 2025 devido a sepse, que foi complicada por ferimentos a bala, aos 43 anos de idade.


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Foto 07: Anne Marie Hocchalter, vítima de Columbine.

 

Enquanto isso, Dylan feriu Lance Kirlin e passou por cima de Sean Graves, que ficou gravemente ferido. Ambos conseguiram, no entanto, sobreviver.

O refeitório já estava parcialmente vazio quando Dylan e Eric entraram, então logo eles se puseram a subir as escadas em busca de mais vítimas

Os atiradores então encontram cinco estudantes nas escadas e Eric atira em todos eles. Michael Johnson foi ferido, mas conseguiu fugir. Mark Taylor se fingiu de morto para sobreviver, e os outros três estudantes conseguiram escapar ilesos.

Enquanto isso, a professora Patti Nielson e o aluno Brian Anderson, de 17 anos, foram de encontro com os atiradores a fim de persuadi-los a parar com aquilo. Quando os encontrou, Eric e Dylan atiraram contra os dois, que foram feridos por estilhaços da porta de vidro que os separava. Depois do ocorrido, a professora Nielson correu para a biblioteca e ligou para a emergência, pedindo reforço policial. A ligação da professora foi divulgada pela imprensa e ficou famosa no mundo todo.

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Foto 08: Professora Patti Nielson.

No corredor, Stepanhie Munson foi atingida por uma bala, instantes antes do Professor Dave Sanders, que ainda percorria a escola para tentar avisar aos alunos o que estava acontecendo, encontrar ambos os atiradores. O professor tentou correr, mas foi atingido nas costas, gerando uma grave hemorragia.

Após ter sido atingido, o professor se arrastou até a biblioteca. Havia um aluno que sabia o básico de primeiros socorros que tentou ajudá-lo, e anexou um bilhete: "1 bleeding to death" (Um sangrando até a morte, em português) na janela para a polícia, pois o professor precisava de tratamento imediato, mas o pedido de ajuda foi ignorado pela polícia, e após três horas perdendo sangue, o professor Dave Sanders acabou vindo a óbito.

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Foto 09: Bilhete que atestava o estado de saúde de Dave Sanders, na janela da biblioteca de Columbine.

Não se sabe quem foi que matou Dave Sanders, visto que ambos os garotos atiraram nele.

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Foto 10: Dave Sanders, vítima de Columbine.

Eric e Dylan, então, seguiram para a biblioteca do colégio, palco do maior número de mortos nessa tragédia. Ao chegarem no local, ambos os atiradores ordenaram que todos saíssem debaixo das mesas, mas ninguém obedeceu ao pedido.

Logo, Eric e Dylan começaram a atirar aleatoriamente nos vidros e debaixo das mesas. Eric feriu Evan Todd debaixo da mesa, mas não chegou a perceber o garoto. Na sequência, Dylan matou Kyle Velasquez, um garoto com deficiência intelectual que não tinha ciência do que estava acontecendo.

 

Foto 11: Kyle Velasquez, vítima de Columbine.

Na sequência, Dylan feriu Daniel Steepleton e Makai Hall, atirando em Patrick Ireland enquanto ele tentava ajudar Makai.

Enquanto isso, Eric matou Steven Curnow sem olhar para ele, atirando por debaixo da mesa, ferindo Kacey Ruguesgger logo na sequência.

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Foto 12: Steven Curnow, vítima de Columbine.

Após isso, Eric ouviu Cassie Bernall rezando o pai nosso debaixo da mesa. Ele caminhou até ela e perguntou se a garota acreditava em Deus. Após a menina confirmar que sim, Eric atirou contra a cabeça de Cassie, a matando na mesma hora. A banda americana Flyleaf fez uma canção em sua homenagem, de nome "Cassie".

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Foto 13: Cassie Bernall, vítima de Columbine.

Embaixo de outro conjunto de mesas estavam Isaiah Shoels, Mattew Kechter e Craig Scott, irmão de Rachel Scott. Dylan e gritou ofensas racistas para ele antes de Eric matá-lo.

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Foto 14: Isaiah Shoels, vítima de Columbine.

Ao mesmo tempo, Dylan assassinou Mattew Kechter.


Foto 15: Mattew Kechter, vítima de Columbine.

Dos três garotos que estavam embaixo da mesa, apenas Craig Scott, irmão de Rachel Scott, sobreviveu, apenas para sair dali e descobrir que a irmã também estava morta.

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Foto 17: Craig Scott, sobrevivente de Columbine.


Depois disso, Eric retornou na direção de Makai, Daniel e Patrick e jogou um explosivo na direção dos três estudantes já feridos, mas Makai jogou o mesmo para longe antes que explodisse. Enquanto isso, Dylan atirou em um balcão de vidro e na mesa mais próxima, atingindo Mark Kintgen.  Atirou novamente, ferindo Lisa Kreuz e Valen Shunurr. Depois de ferir as garotas, ele percebeu a cabeça de alguém se sobressaindo por trás das mesas e atirou, matando Lauren Townsend.


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Foto 18: Lauren Townsend, vítima de Columbine.

Não satisfeito, Dylan se abaixou para caçoar de Lisa e Valen para caçoar delas, atirando em Nicole Nowlen e John Tomlin no meio do caminho. Após ser atingido, John tentou fugir e acabou sendo morto por Dylan.


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Foto 19: John Tomlin, vítima de Columbine.


Depois disso, Dylan atirou novamente em Lauren (mesmo após a mesma ter morrido na hora) e Lisa Kreuzt, além de ferir Jeanna Park. 

Nesse momento John Savage, conhecido de Dylan, se levantou e perguntou a Dylan o que ele estava fazendo. Dylan respondeu: "Matando gente".  John então pergunta: "Você vai me matar?" Dylan não responde, mas manda ele correr, e é o que o garoto faz.



Foto 20: John Savage, sobrevivente de Columbine.

Enquanto isso Eric atirou e matou Daniel Mauser, de 15 anos de idade.


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Foto 21: Daniel Mauser, vítima de Columbine.

Depois Dylan e Eric feriram Jennifer Doyle e Austin Eubanks, além de matar Corey DePooter, a quem Eric reconheceu como uma das pessoas "que havia lhe feito mal no passado". Os dois fizeram piada de Evan Todd ao perceber que ele estava ferido.

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Foto 22: Corey DePooter, vítima de Columbine.

É nesse momento que ambos os atiradores saem da biblioteca, deixando 30 sobreviventes ilesos. Os estudantes ouviram ambos os atiradores contando até três antes de cometerem suicídio coletivo.

Após o som de tiros cessar, 10 feridos saíram da área, mas Patrick Irelend estava inconsciente e Lisa Kreutz não conseguia se mexer. A professora Patti Nielson e duas funcionárias se trancaram em salas próximas.

No total Eric atirou 47 vezes e Dylan 5. No dia 20 de Abril de 1999, o Massacre de Columbine fez 13 vítimas, 1 professor e 12 estudantes, além de 24 feridos.

Nenhuma das pessoas que Dylan e Eric queriam ferir, com exceção de Corey De Pooter, foi machucada no ataque.

O massacre durou, no total, 49 minutos, no entanto, a polícia só entrou no prédio as 15h da tarde, o que causou a morte de Dave Sanders, que permaneceu sangrando por horas mesmo após o fim da chacina.

A atuação dos policiais, bem como os membros da SWAT foi extremamente criticada pelos pais dos adolescentes e pela imprensa internacional. A justificativa da demora no atendimento das vítimas dada pela polícia foi a crença de que haviam oito atiradores dentro da escola, e que entrar em Columbine em um cenário como aquele poderia causar mais vítimas.

Agora com o devido reconhecimento do que ocorreu naquele fatídico 20 de Abril, podemos entender a complexidade por trás da escrita de Sue Klebold, não só por conta dos acontecimentos daquele dia, mas também pelo papel que ela ocupava.  Frases como: "Enquanto cada mãe em Littleton estava rezando para que seu filho estivesse a salvo, eu tinha de rezar para que o meu morresse antes de machucar mais alguém.",

"No dia de ação de graças, a única coisa que eu podia pensar para agradecer era que as bombas não explodiram." e "Se as situações fossem contrárias, se o filho de alguém tivesse assassinado Dylan enquanto ele estava fazendo lição atrasada na biblioteca da escola, eu também teria culpado aquela família." estão presentes em quase todos os parágrafos do livro, causando no leitor desconforto e reflexão, o que só torna o livro ainda mais desafiador de ser consumido.

Na narrativa, Sue explica a forma como ela tentava se curar, se habituar a nova rotina, procurar entender por que Dylan fez aquilo e a intenção de se aproximar das famílias das vítimas numa tentativa de oferecer alguma espécie de consolo ou apoio: "Como se diz: Sinto muito pelo meu filho ter matado o seu?" Questiona ela, enquanto conta da iniciativa de compor cartas para os familiares das vítimas.

Sue reflete sobre as atitudes de seu filho, nos conta o arrependimento de não ter enxergado os sinais que de depressão no próprio filho e procura compartilhar o que aprendeu na esperança que tragédias como aquela nunca se repitam, mas jamais justifica ou tenta defender seu filho pelos crimes e atrocidades que ele cometeu. "Dylan era amado, mas não se sentia amado. Ele era valioso, mas não se sentia valioso. Ele tinha muitas opções, mas a de Eric era a única que ele conseguia enxergar."

O Acerto de Contas de Uma Mãe é um livro perturbador, cru do começo ao fim e com uma carga emocional muito grande, mas ainda sim é uma reflexão profunda do retrato da violência. Um crime nunca é apenas um crime, é uma soma de diversos fatores, e Sue busca, com a ajuda de especialistas em saúde mental, respostas para um enigma que talvez nunca tenha uma solução definitiva.

Encerro a minha resenha com uma reflexão interessantíssima da própria Sue a respeito da importância de se cuidar da própria saúde mental como um convite para embarcar em uma das leituras mais desafiadoras- porém marcantes- que alguém já experimentar na vida.

"Se você machuca o joelho, não espera até conseguir caminhar antes de procurar ajuda. Você coloca gelo na articulação, põe a perna para cima, perde seus treinos- e então, se não vir nenhum tipo de melhora depois de alguns dias, marca uma consulta com um ortopedista. Infelizmente, porém, a maioria das pessoas não procura a ajuda de um  profissional de saúde mental até estar em crise. Ninguém espera consertar o próprio joelho usando coragem e autodisciplina. Mas, por causa do estigma, esperamos ser capazes de pensar em uma maneira de escapar da dor em nossa mente."

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