Como o filme Titanic escancara a verdadeira essência do ser humano e o que podemos aprender diante disso.
Escrito por: Julia Segre Data: 14/05/2025 Atualizado em: 21/06/2025
Fenômeno que marcou gerações, Titanic é o filme mais premiado da história do cinema mundial, posto que divide ao lado de Ben Hur (1959) e Senhor dos Anéis- O Retorno do Rei (2003), tendo sido indicado múltiplas vezes ao Óscar e vencido em 11 das 14 categorias que disputava.
O longa, reconhecido mundialmente pelo romance tocante e proibido dos jovens Jack e Rose, é prestigiado até os dias atuais, reprisado regularmente em canais abertos e fechados de comunicação e ocasionalmente catalogado em sessões de cinema, devido a sua grande popularidade e sucesso comercial.
O filme trouxe, de certa forma, visibilidade para a tragédia que ocorreu na vida real, trazendo novos debates, livros, documentários e reportagens sobre o assunto, além de expandir os horizontes do acontecimento a outras regiões do mundo, fora da Europa e da América, onde o interesse pelo ocorrido era relativamente maior.
Apesar de ser considerado por muitos um romance, Titanic é, na verdade, um retrato cinematográfico da questão social, que foi colocada acima das questões humanitárias no desenrolar da tragédia, levando a uma verdadeira série de decisões antiéticas que custaram a vida de centenas de passageiros que estavam a bordo daquele luxuoso navio, na noite de 14 abril de 1912.
De que maneira a famosa teoria filosófica de Michel Foucault se encaixaria neste contesto? Como podemos associar o conceito de corpo dócil a ausência de humanidade demonstrada no naufrágio mais famoso de todos os tempos?
Para além do romance de Rose e Jack, vamos analisar quais questões foram estas, por quê elas estão diretamente interligadas com esta teoria, e o que cada uma delas significa, nos embasando diretamente em fatos de conhecimento geral que aconteceram na tragédia verdadeira, ainda sob a ótica da ficção.
Entre luxo e problemas de logística; a tragédia que poderia ter sido evitada.
Antes de iniciarmos o comparativo do que é apresentado por Cameron em seu longa, vamos nos embasar nos fatos reais que envolvem a construção desta embarcação, considerada problemática desde os seus primórdios.
Feito sob encomenda em 1909, o Titanic foi financiado pelo banqueiro americano John Pierpont Morgan e sua companhia chamada Internacional Mercantile Marine Co, em parceria com a Oceanic Steam Navigation, mais conhecida como White Star Line.
O Titanic foi pensado, desde o inicio, como um meio de transporte inovador, que faria com que as pessoas se esquecessem das incômodas viagens realizadas em alto mar pelos navegadores do século passado; os navios, comumente associados a proliferação de doenças e acidentes marítimos, passariam a ser vistos com outros olhos- O objetivo era que as expedições passassem a ser vistas como luxuosas, oportunidades únicas de se atravessar territórios de forma singular, com o máximo de conforto e segurança possíveis.
O navio contava em sua estrutura, com quatro restaurantes, duas livrarias, compartimentos reservados para guardar veículos, mercadorias e outros materiais, e até mesmo um centro cirúrgico, para caso da necessidade de qualquer passageiro que pudesse vir a precisar utilizar o serviço, o que de certa forma justifica todo o esforço das companhias para reforçar essa impressão de luxo, originalidade e impotência que apenas aquela embarcação poderia oferecer.
Figura 01: Fotografia do Titanic
No entanto, a construção já havia apresentado seus primeiros sinais de insalubridade desde de sua concepção. Cerca de oito trabalhadores perderam suas vidas enquanto construíam o navio devido as precárias condições de segurança e as longas jornadas de trabalho pelas quais estes homens se submetiam. O salário que eles ganhavam era de aproximadamente duas libras por dia, o que nos faz refletir sobre o quanto a valorização do funcionário era secundária- se não inexistente- se comparada com a grandiosidade e os objetivos da construção que estava sendo desenvolvida em meio aquela movimentação de empresas milionárias.
Mesmo com todos os esforços dos trabalhadores para cumprir o prazo, o navio foi finalizado apenas dez dias antes de sua primeira e única viagem. A embarcação foi equipada com apenas 20 botes salva vidas, o que correspondia a 35% da capacidade dos passageiros que estariam a bordo.
No longa, o personagem Thomas Andrews- criador do navio- explica á protagonista Rose DeWitt que a decisão de reduzir os barcos de emergência foi tomada por motivos estéticos.
Figura 02: Rose e Andrews discutem sobre a quantidade de botes.
Por motivos igualmente estéticos, foi adicionada uma chaminé figurativa ao barco. Mais tarde, essa mesma chaminé causaria um impacto ainda maior no acidente, por se tratar de um peso desnecessário junto a estrutura do veículo. Em outras palavras, o Titanic. na verdade, só possuía três chaminés em funcionamento, sendo a última totalmente ilustrativa, a fim de pintar a imagem de grandiosidade que os arquitetos tanto se esforçavam para apresentar ao público.
Nos bastidores, no entanto, a situação não era a mesma. A falta de organização da companhia e dos construtores ia muito além da entrega do produto final com apenas 10 dias de antecedência; naquela época, não haviam tecnologias avançadas para que se pudesse ver com precisão corpos e objetos que estivessem a uma distância considerável, e por isso se fazia necessário o uso de binóculos.
A grande questão é que um dos comandantes- responsável por armazenar os binóculos dentro do navio- acabou sendo substituído de última hora, e se esqueceu de entregar a chave onde continham os equipamentos, que poderiam ter sido utilizados para enxergar o iceberg com antecedência, evitando assim a tragédia. Algumas fontes dizem que os tripulantes se lembraram dos binóculos ao terceiro dia de viagem, quando já não era mais possível (ou viável, financeiramente falando) retornar para recuperar a chave que os guardava, enquanto outras apontam que só deram falta dos aparelhos no momento em que a colisão estava prestes a acontecer.
Apesar de parecer a primeira vista, uma surpresa, o iceberg não foi algo que se impôs por obra do acaso no caminho do Titanic. Pelo contrário. Um navio chamado Mesaba, que estaria viajando algumas milhas a frente da famosa embarcação, teria enviado cerca de seis alertas para o barco vizinho avisando a respeito do iceberg, que já se encontrava naquela localização há um tempo considerável, tendo sido proveniente da Groelândia, cerca de um ano antes da colisão. O bloco de gelo andava em movimento desde então.
Apesar dos alertas, a tripulação do Titanic resolvera manter a rota que estava traçando, pois o roteiro de viagem estava atrasado, e o navio se movia acima da velocidade permitida. A preocupação dos engenheiros e da tripulação era de que a embarcação não poderia chegar ao seu destino com atrasos pois isso prejudicaria a sua já respeitada e praticamente incontestável reputação.
No longa, Cameron apresenta o personagem Joseph Bruce Ismay como o responsável pelo aumento da velocidade. O motivo do pedido do executivo seria, a priori, figurar na primeira página do jornal britânico, surpreendendo seus leitores pela qualidade do serviço prestado. Dessa forma, o homem consegue convencer o capitão a acatar a sua sugestão.
Figura 03: Cena do filme de Joseph Ismay.
O empresário não sabia, mas de qualquer maneira sua ideia se concretizaria e o Titanic figuraria na primeira página dos jornais- Não apenas os britânicos, mas também por toda a Europa, e das américas.
Sem os binóculos e em alta velocidade, a equipe só foi capaz de identificar o iceberg na rota do navio a uma distância de aproximadamente 500m, o que deu a John Smith, Capitão do Navio, exatos 37 segundos de tomada de decisão, que obviamente não foram suficientes para evitar a colisão, que mais tarde seria a causa raiz do naufrágio.
Fontes históricas afirmam que na noite anterior a tragédia, a tripulação faria um treinamento com botes de salva vidas, mas a atividade foi descartada da programação pelo próprio Smith apenas algumas horas antes do pior acontecer.
Após a tragédia foram criadas novas leis e códigos a respeito da segurança do navio e do número mínimo de barcos de emergência disponibilizados, que passou a ser calculado com base no número de passageiros a bordo, uma vez que isso não era tido como preocupação até o momento mencionado.
A prioridade para embarcar nos botes, já reduzidos mesmo em sua totalidade, eram mulheres e crianças provenientes, especialmente, da primeira classe de passageiros. Ismay, no entanto, conseguiu uma vaga em um dos botes, conseguindo se salvar do naufrágio, tanto no filme quanto na vida real.
Figura 04: Joseph sendo resgatado dentro do bote onde, teoricamente, somente crianças e mulheres poderiam embarcar.
Segundo testemunhas, Joseph ficava: “Olhando para o vazio, tremendo como uma folha.”, incapaz de encarar o navio naufragando de frente. Mais tarde, Ismay seria duramente criticado por sua postura diante da tragédia, passando a se dedicar realizando campanhas beneficentes em prol das famílias dos tripulantes que faleceram naquela noite fatídica em uma tentativa de limpar a sua imagem.
Sua atitude contrasta bastante com um outro passageiro, com quem dividia o nome; o jovem Joseph Philippe Lemercier Laroche, de apenas 25 anos e também único passageiro africano a bordo do famoso navio.
Este passageiro em questão ficou conhecido por ter sido capaz de colocar sua esposa grávida e suas duas filhas dentro do bote salva-vidas número oito, garantindo a salvação de sua família, instantes antes de sucumbir ao naufrágio.
Curiosamente, no longa, há uma cena em que um figurante consegue colocar duas meninas em um bote junto de sua mãe. As meninas choram, e o pai as tranquiliza rapidamente, conforme o bote vai sumindo de vista. Não se sabe se essa cena é ou não inspirada na vida de Laroche, mas a arte realmente pareceu imitar a vida neste sentido.
Figura 05: Frame da cena dos figurantes alguns instantes antes do naufrágio.
Um desastre que poderia ter sido minimizado
Seria matematicamente impossível dizer que todos os 2.224 passageiros que estiveram a bordo do Titanic teriam sobrevivido a tragédia que ocorreu na madrugada do dia 14 de Abril de 1912, considerando todas as questões logísticas da companhia que envolveram abdicar de alertas e sistemas de segurança em prol de suas razões financeiras e estéticas.
Porém é altamente provável que haveria um número muito maior de sobreviventes após a colisão, se tivessem sido tomadas medidas minimamente humanitárias depois que o barco começou a naufragar. Estima-se que cerca de mais de 300 pessoas poderiam ter sido salvas diante desse cenário, o que acabou não acontecendo devido a série de atitudes tomadas diante da catástrofe.
Para entender melhor como foi orquestrada cada tomada de decisão após o choque contra o iceberg, é necessário compreender que o Titanic abrigava 3 classes distintas, sendo a primeira com o maior número de condições financeiras e a terceira formada, em sua maioria por pessoas com poucos recursos e um número considerável de estrangeiros que tinham pouco ou nenhum conhecimento do idioma que estava sendo falado pela tripulação do navio, ou seja, o inglês.
Desde os primeiros momentos do filme, Camaron mostra a discrepância do tratamento entre as classes, a começar de seus protagonistas Rose e Jack, que pertencem, respectivamente a primeira e terceira classe. Conforme vão se conhecendo melhor, os mundos de Rose e Jack se misturam, e conseguimos perceber que existe um abismo entre ambos os universos, tanto por parte de Jack, que tenta se portar diante de um jantar entre passageiros da primeira classe, quanto por parte de Rose, que se diverte em um baile clandestino que acontece no terceiro mundo.
Figura 06: Jack e Rose se divertindo em uma festa na terceira classe.
O filme exalta o tratamento inferior que a terceira classe recebe muito antes do navio começar, de fato, a naufragar. Os passageiros pertencentes a esse grupo deveriam passar por uma inspeção antes de adentrar o navio, sendo examinados de forma minuciosa a fim de prevenir que possíveis doenças contagiosas, como pulgas, atingissem os cidadãos pertencentes as classes mais altas que dividiriam o espaço com eles.
Após o choque contra o iceberg, foi estimado um tempo de aproximadamente 2 horas antes do navio começar, de fato, a sucumbir. A evacuação deveria ser imediata, mas os tripulantes optaram pela alienação dos passageiros, repetindo diversas vezes que estava tudo bem e chegando a colocar uma orquestra improvisada de quatro músicos para que suas melodias fossem capazes de acalentar os ânimos e tranquilizar aquelas pessoas diante do inevitável.
Essa atitude funcionou durante muito tempo, pois cerca de 1500 passageiros se recusaram a deixar o navio, mesmo sabendo do choque, pois para eles era mais seguro permanecer na embarcação do que sair em plena madrugada em um bote improvisado.
Enquanto a alienação acontecia entre as classes mais altas, a terceira classe permanecia sem ter ciência do que estava ocorrendo. Eles receberam a notícia de que o navio estava afundando quando o pânico já estava começando a tomar conta do Titanic, e ainda sim, eles foram duramente contidos pela segurança do navio, uma vez que a prioridade de salvação estava reservada para mulheres e crianças especialmente das duas classes superiores.
Como já dito anteriormente, a maioria dos cidadãos que embarcaram no Titanic com ingressos da terceira classe sequer sabiam falar inglês, e morreram sem entender o que estava acontecendo. Cameron também destaca essa questão em seu filme, chegando até mesmo a matar Tommy, um dos personagens secundários, pertencente a terceira classe, a tiros, quando ele se recusou a obedecer as ordens impostas pela tripulação em uma tentativa de salvar a própria vida, percebendo que essa oportunidade não seria concedida a ele devido a posição social que ele ocupava.
Figura 07: Morte do personagem Tommy no filme.
Os músicos que entoaram canções desde o inicio da tragédia até o desaparecimento por completo do navio debaixo das águas congeladas foram reconhecidos como heróis e receberam medalhas póstumas, nas quais foram homenageados por sua coragem e dedicação ao ofício, mesmo diante de uma situação tão extrema quanto aquela.
Figura 08: Músicos reproduzindo melodias enquanto o Titanic afunda.
Um fato pouco conhecido é que a pequena orquestra não foi a única que se sacrificou por um bem maior. Nenhum integrante da rede de controle do navio conseguiu se salvar da tragédia; todos naufragaram junto ao Titanic sem abandonar os seus postos. As luzes do navio ficaram acessas até o último momento, bem como o sinal do rádio emitindo pedidos de socorro aos navios mais próximos.
Esta atitude pode ser facilmente relacionada com o movimento filosófico do estoicismo, no qual se prega a aceitação do destino, seja lá qual ele for, agarrando todas as oportunidades com um coração puro e sem fugir da dor e de seus deveres , enfrentando qualquer situação com gratidão e determinação a fim de alcançar a honra e a paz de espírito. Notamos esse comportamento em todos os funcionários que sacrificaram suas vidas dentro de suas funções, sem fugir de suas responsabilidades a fim de salvar o máximo de pessoas possíveis. No entanto, apenas os músicos conseguiram este reconhecimento póstumo.
Contrastando com a atitude estoicista da equipe de controle e da orquestra citada, temos o exemplo perfeito do que o filósofo francês Michel Focault chama de corpo dócil quando nos referimos a forma como os passageiros foram tratados durante o processo de evacuação do navio.
Ao discorrer em sua obra a respeito da relação de poder entre as pessoas, ou seja, ao refletir o por quê a sociedade coloca uma necessidade de um ser humano acima de uma necessidade de outro de mesma espécie, e ao tentar entender quais são os critérios avaliados na hora de tomar uma decisão como esta, Focault define o corpo dócil como aquele que pode ser facilmente domesticado, devido a circunstâncias sociais, movidas por razões disciplinares, a fim de moldá-lo para ser útil para a sociedade (Produção de Capital, fator motriz do mundo que vivemos).
O sacrifício feito pela equipe que estava a frente da torre de controle foi dado como vão, pois o único navio que se encontrava relativamente próximo ao Titanic naquele momento era o navio SS California. Como explicado anteriormente, os rádios do Titanic ficaram ligados até o último momento emitindo pedidos de socorro, mas o navio californiano optou por ignorar estes pedidos pois, assim como a famosa embarcação, o SS California estava com o roteiro de viagem atrasado, logo, retroceder um caminho já percorrido para salvar pessoas que nada tinham a ver com os seus negócios não seria financeiramente rentável, o que fez com que o navio californiano continuasse o seu trajeto normalmente, a fim de minimizar as avarias que sofreria ao chegar em seu destino. Outras fontes afirmam que o navio SS California desligou os rádios por volta das 23h, e por isso, não foi capaz de ouvir os pedidos de socorro do barco vizinho.
Figura 09: Navio SS California
Enquanto isso, dentro do Titanic, os comandantes e a tripulação que orquestravam a evacuação do navio, consideravam dóceis as pessoas de classes mais baixas e priorizavam a salvação de mulheres e crianças da primeira classe.
Os primeiros botes salva-vidas que já estavam, desde o princípio, em quantidades reduzidas partiram completamente vazios. Cada bote tinha a capacidade de abrigar, no máximo, 70 pessoas. Estima-se que os primeiros botes partiram do Titanic levando apenas 18. Botes considerados cheios abrigavam cerca de 40 passageiros.
James Cameron mostra em seu filme uma exemplificação perfeita da teoria de Foucault; o corpo dócil é moldado de ser útil para a sociedade, movida por Capital. Ao perceber que o seu dinheiro não seria capaz de salvá-lo, conforme destacou o Comandante Murdoch jogando as células de dinheiro no rosto dele, o executivo Caledon Hockley encontrou uma criança pertencente a classe dócil e enxergou nela uma utilidade. Agarrando a pequenina para si, ele afirma a tripulação que é um viúvo e que a criança seria “tudo o que ele tem”. Sem mais questionamentos, Cal é imediatamente colocado dentro do bote salva-vidas, conseguindo, dessa maneira sobreviver ao naufrágio.
Figura 10: Criança “dócil” chorando segundos antes de ser encontrada, pela segunda vez, pelo personagem Cal Hockley. O detalhe da cena é que o antagonista da trama já havia encontrado a mesma garota anteriormente, mas, por não ter tido essa utilidade para a criança em um primeiro momento, a decisão que ele toma é de ignorar o seu choro.
Seguindo com o raciocínio de corpos dóceis e do valor da vida humana diante de uma tragédia, trazendo aspectos raciais e culturais, temos a história do sobrevivente japonês Masabumi Hosono. único passageiro de origem asiática dentro da embarcação.
Masabumi era um funcionário público que estava a caminho dos Estados Unidos para enfim retornar ao Japão, sua terra natal. Em uma carta escrita para a sua esposa, Hosono conta que ao saber da colisão ele “tentou se preparar para o último momento de sua vida sem agitação, decidido a não deixar nada vergonhoso como um cidadão japonês”. Sabendo que não fazia parte da lista de prioridades, o homem vestiu o colete de salva-vidas que lhe foi entregue e aguardou por seu desfecho fatal. Mas, de última hora, foi anunciado que o bote que estava partindo tinha mais dois lugares disponíveis, e Hosono resolveu saltar do Titanic para embarcar nesse bote, salvando assim, a sua vida.
No entanto, uma série de aborrecimentos perseguiram este homem após ele ter sido capaz de retornar a sua terra natal. Ele foi rejeitado pela sua comunidade, que considerava uma vergonha ele ter sobrevivido, ferindo os princípios da chamada Conduta Samurai. Além disso, Hosono perdeu o seu emprego e foi condenado oficialmente pela justiça dos Estados Unidos da América, que lançou uma reportagem altamente maldosa sobre a sua pessoa, incitando que “Asiático causou confusão no bote salva vidas de número 10 durante o naufrágio”, narrando a história de sua salvação como se tivesse sido forjada ou manipulada, quando na verdade, Masabumi apenas entrou em um dos muitos lugares vazios do bote salva vidas, que nem era o de número 10, conforme reportagem especificava e sim o de número 13.
Figura 11: Masabumi Hosono, sobrevivente do Titanic.
Se haviam passageiros com coletes salva-vidas naquela noite fatídica, isso era de total responsabilidade de Thomas Andrews, inventor do barco. Tanto no longa metragem quanto historicamente falando, graças a documentos encontrados e relatos de testemunhas oculares, Andrews percorreu de forma insistente e incansável pelos corredores da embarcação, procurando salvar o máximo de pessoas que cruzavam o seu caminho. Ele oferecia coletes salva-vidas e orientava a todos que embarcassem nos botes. Apesar da mensagem ser clara, Andrews também procurava confortar os passageiros, garantindo que eles estavam em boas mãos e que tudo deveria acabar bem. Para a tripulação, o engenheiro não escondeu a gravidade da situação, mas tinha esperança de conter aquela notícia até onde fosse possível a fim de não causar pânico.
Ele também teve a preocupação de checar sua cabine pessoal, garantindo que não haveria ninguém em seu interior e providenciou cobertores para acomodar as pessoas que estavam dentro do bote, além de auxiliar homens e oficiais, demonstrando a melhor maneira de lança-los, dando instruções precisas de como preenche-los. Ele teria sido visto pela última vez dez minutos antes do naufrágio, próximo a sala de fumo da primeira classe, em estado de choque.
Tanto na ficção quanto na realidade, em nenhum momento Andrews pensou em salvar a si mesmo. Sua preocupação era com o bem estar geral daqueles que estavam correndo risco de perecer em sua própria criação. Através da atuação de Victor Garber, conseguimos perceber no personagem o peso da responsabilidade que o engenheiro sentiu durante o acidente, assumindo a culpa e o controle da situação, a fim de minimizar todos os danos que seriam causados, uma atitude que exaltou seu ato heroico e contrastou com a gestão do Capitão John Smith diante do ocorrido, uma vez que o comandante entrou em colapso a medida que a tragédia ia se desenrolando, sendo praticamente incapaz de comandar os seus funcionários.
Figura 12: Morte de Thomas Andrews no filme de James Cameron.
Enquanto alguns são glorificados após a morte, existem também as controvérsias históricas a respeito da forma que o longa retrata outras personalidades que já existiram. Já mencionado em outros momentos nessa mesma sessão, o papel do marinheiro William Murdoch foi alvo de muitas controvérsias dentro do filme pela forma como ele foi apresentado. Há rumores de que ele havia se suicidado durante o naufrágio, mas esses relatos se perdem e se negam uns nos outros, de forma que, oficialmente falando, Murdoch teria morrido no Oceano Atlântico, seu corpo nunca teria sido encontrado, ou ao menos, identificado. Murdoch também ficou reconhecido por ter auxiliado na dura missão de salvar os passageiros em pânico, mas não foi exatamente dessa forma que ele foi trabalhado no filme, sendo retratado como um oficial da marinha que aceitaria suborno para salvação, ameaçaria e atiraria em passageiros desarmados em uma tentativa de controlar a situação e sucumbiria ao suicídio no fim de tudo.
Documentários e filmes recentes produzidos após o massivo sucesso de Cameron tentaram inocentar e limpar a imagem de Murdoch, que era, antes do longa ser lançado, era reconhecido por ser um comandante competente e responsável, mas até hoje a imagem dele ainda está ligada ao enorme sucesso comercial do filme de 1997, trazendo como consequência, um ressentimento fortíssimo por parte da família do oficial em Dalbeattie, cidade natal do mesmo, localizada na Escócia.
Figura 13: Retrato real de William Murdoch.
Durante a submersão final do barco, que se partiu ao meio no longa, vemos uma sucessão de cenas curtas, porém interessantíssimas que reforçam o sentimento de corpo dócil pregado por Focault.
Temos um momento onde é mostrada a pregação de um padre a uma pequena multidão de fiéis, mostrando utilidade ao apresentar a religião como válvula de escape e emancipação da culpa diante de uma morte iminente, sugerindo que o ser humano passa a buscar formas desesperadas de encontrar conforto diante do desconhecido e do inevitável; a morte.
Figura 14: Cena do sermão do Padre no filme de James Cameron.
Após o naufrágio, há um outro momento que chama a atenção; quando Rose cai nas águas congeladas.
Enquanto busca por Jack no meio da confusão, ela acaba servindo de suporte para um outro homem que também, assim como ela, se afogava. Praticando de forma literal e imediata os conceitos de relação de poder entre as pessoas, ele vê na protagonista um corpo dócil cuja utilidade seria servir de apoio para que ele pudesse se firmar, sem se importar com o preço que a mulher pagaria por estar desempenhando, contra a sua vontade, aquele papel.
Figura 15: Rose servindo de suporte para um homem manter o equilíbrio.
No filme, de todos os botes salva-vidas que levavam os passageiros, apenas um retornou para procurar por possíveis sobreviventes na água fria. É demonstrada certa sensibilidade por parte do comandante daquele bote, que pede aos seus subordinados para não baterem nos corpos daqueles que estão boiando na água. É graças a essa atitude de benevolência que Rose consegue se salvar no filme, usando o apito preso aos lábios de um homem morto para denunciar sua localização para a equipe de resgate.
Figura 16: Cena do resgate de Rose no filme Titanic (1997)
Mas na vida real, infelizmente, não tivemos essa demonstração de humanidade por parte daqueles que retornaram ao local da tragédia; dos 340 corpos que ali estavam, cerca de 140 deles tiveram que ser devolvidos a água devido a superlotação do bote, ou seja, não havia espaço para comportar todos. Porém, o critério utilizado para fazer a liberação dos corpos de volta ao local onde eles foram encontrados era tentar identificar se eram pessoas oriundas da primeira, segunda ou terceira classe, o que nos faz inferir que, mesmo mortos, os seres humanos ainda possuem corpo dócil, presos em meio a um papel social que devem desempenhar.
O lucro por trás da tragédia
Como já dito anteriormente, além de seres humanos, o Titanic também carregava consigo todos os pertences de seus passageiros que, dependendo da classe de onde provinham, poderiam vir de mudas de roupas até joias caríssimas e outros pertences valiosos.
Por conta disso, havia um interesse cada vez maior das famílias das vítimas da tragédia em resgatar esses artefatos que foram deixados para trás dentro da famosa embarcação, não apenas por motivos sentimentais, como também por razões financeiras; os objetos eram considerados luxuosos demais para perecerem juntamente com o resto do navio debaixo das águas do Oceano Atlântico.
No entanto, essa preocupação acabou sendo deixada de lado por um momento devido a eclosão da primeira e da segunda guerra mundial, o que acabou tomando a atenção das pessoas para outro assunto. Quando os confrontos enfim terminaram, já não era mais possível realizar, com tanta facilidade, o resgate dos objetos que foram deixados dentro da famosa embarcação.
A ideia inicial, de resgatar completamente o navio das águas do Atlântico, acabou sendo descartada, pois com o passar dos anos, a estrutura base foi se perdendo debaixo d’água, o que faria com que o navio se desintegrasse por completo de forma instantânea se içado a superfície, o que não era interessante a nenhum dos grupos interessados na recuperação dos objetos abandonados dentro do navio.
Dessa forma, preferiu-se não interferir nas etapas de desmanche e decomposição do Titanic debaixo das águas pois, apesar de continuar a acontecer, é um processo bem mais lento e demorado. Mesmo nos dias atuais, mais de um século após a tragédia, o barco de luxo ainda resiste a passagem do tempo, e estima-se que ainda irá demorar cerca de trinta anos para que ele desapareça por completo nas profundezas do oceano.
Pensando nisso, uma equipe de cientistas e engenheiros franceses, em parceria com profissionais dos Estados Unidos criou o Sonar, um veículo que, através do som, poderia submergir as águas do Atlântico em busca das relíquias valiosas que ficaram para trás após a tragédia.
Curiosamente, é dessa mesma forma que Cameron resolve iniciar o seu famoso longa. Acompanhamos a trajetória de um grupo de pesquisadores que utilizam de um veículo que, através de ondas de som, consegue submergir a ponto de chegar até os destroços do navio, em busca de dinheiro e pedras preciosas.
Figura 17: Exploradores utilizando a máquina Sonar nos escombros do Titanic.
O interesse central da equipe giraria em torno de um diamante preso a um colar, chamado coração do oceano. Em busca do artefato e do dinheiro que ele poderia render, percebemos a falta de empatia destes homens em relação ao contexto daquela tragédia.
Nenhum dos pesquisadores parece refletir, em um primeiro momento, que estão vasculhando pertences de pessoas que foram mortas devido a negligência humana.
Quando o “Sonar” enfim consegue retirar uma espécie de cofre de dentro das profundezas, o grupo chega a fazer uma festa para comemorar a retirada do objeto do mar, sem se importar com o peso histórico ao qual ele está relacionado.
Figura 18: Homens comemorando o sucesso da retirada do cofre.
Ficção e realidade parecem, mais uma vez, estar conectadas. Algumas expedições foram realizadas em épocas onde ainda era possível fazer visitações ao Titanic, já que a embarcação continuava afundando de forma contínua dentro das profundezas do Oceano Atlântico.
Nessa mesma época, algumas avarias dentro da embarcação foram identificadas, como o sino principal do navio, que foi furtado. Também não era incomum turistas arrancarem pedaços do casco do Titanic como forma de recordação, a fim de exibir aos outros aquele momento inesquecível, ou até mesmo para vender tais peças a colecionadores, enquanto outras chegaram a figurar em museus e escolas ao redor do mundo.
Por conta desse comportamento obsessivo e desrespeitoso em relação as ruínas deixadas pela tragédia, a UNESCO se viu obrigada a interferir, tombando os escombros do Titanic como patrimônio cultural da humanidade, e passando a proteger, a medida que as limitações físicas lhes permitissem, aquele território de sofrer ainda mais danos nos anos futuros.
Figura 19: Sino do Titanic, furtado por turista.
Retomando nossa atenção ao longa metragem, a comemoração dos cientistas por conta da retirada do artefato não durou muito; segundos depois da abertura do cofre, os homens perceberam que no interior da peça não havia nada além de cédulas de dinheiro apodrecidas e um desenho de uma mulher que mais tarde se revelaria como Rose De Witt.
Figura 20: Retrato de Rose De Witt, usando o coração do oceano, desenho feito por Jack.
Assim que a notícia é divulgada nos meios de comunicação, e Rose se depara com o único registro que ela tem de que seu amor realmente existiu, a já idosa sobrevivente entra em contato com a equipe de pesquisadores e se dispõe a falar sobre a tragédia, e é em meio ao seu depoimento que conseguimos ter acesso, não apenas ao seu romance com o rapaz da terceira classe, como também a detalhes mais profundos sobre o que de fato aconteceu.
Ainda sim, não conseguimos ver o interesse dos estudiosos em relação a tragédia e a falta de humanidade que a caracterizou. Quando Rose informa ter conhecimento a respeito do coração do oceano para compartilhar, o pesquisador líder afirma que, a partir daquele momento, Rose se tornaria “A sua melhor amiga”.
Figura 21: Líder dos pesquisadores lado a lado com Rose De Witt.
Poucos minutos depois, temos uma cena onde o assistente de pesquisa narra o acidente que ocorreu naquela noite gelada de Abril. Ele usa termos extremamente técnicos e recursos visuais a fim de ilustrar o seu discurso, que é eloquente, possibilitando inferir que ele é um homem que realmente estudou os detalhes técnicos da tragédia, sua voz beirando a empolgação conforme ele ia avançando com o vídeo em 3D, mostrando o momento da colisão contra o iceberg.
Apesar de todo o conhecimento reunido, o assistente não demonstra nenhum pesar em sua voz, como se atribuísse a tragédia há algo que, por ter acontecido muitos anos atrás não teria mais relevância, pelo menos não na questão humanitária. Depois de ouvir todo o relato e de reviver, em suas memórias todo aquele pânico daquele dia, que para Rose, nunca terminou, ela apenas levanta os olhos na direção daquele homem e diz: Você pode imaginar que a minha experiência foi um pouco diferente , gerando, por consequência, um silêncio desconfortável de alguns segundos.
Figura 22: Assistente em seu discurso sobre como o acidente ocorreu.
Ao final do filme, Camaron demonstra um certo arrependimento em meio a um arco de redenção por parte dos estudiosos que, visivelmente emocionados com o relato de Rose, passam a ver a tragédia de forma diferente, chegando até mesmo a desistir de procurar pelo coração do oceano ao ver que não era exatamente sobre bens materiais a serem resgatados que a tragédia que houve no Titanic representava. Poderia, algum dia, esse tipo de comportamento ser reproduzido na vida real, fora do cinema?
A vida imita a arte
Aparentemente, a resposta é não. Mas antes de compartilhar a respeito da história recente do por quê chegamos a essa conclusão e nas palavras do próprio Cameron por que nós: “Não aprendemos nada”, enxerguemos o assunto sob outra ótica.
Bem como todos os casos famosos que entraram para a história da humanidade, o Titanic possui muitas teorias da conspiração. Não é o foco da nossa conversa, por isso vamos aos fatos.
Livro de ficção, publicado pela primeira vez em 1888 , (ou seja, antes do navio ser construído e idealizado) The wreck of the Titan, é uma obra de ficção escrita pelo autor Morgan Robertson . Apesar de não ter sido um durante a época em que esteve em circulação, o livro voltou a ser comentado entre as pessoas após o terrível acidente, pois muitos passaram a acreditar que a trama poderia ser alguma espécie de premonição em relação ao que ia ocorrer com o navio mais famoso do mundo.
Figura 23: Capa do livro The wreck of the titan, de Morgan Robertson (1888)
Isso acontece por que no enredo do livro nós mergulhamos na história de uma embarcação (Titan) que também sofreu um naufrágio no mês de Abril. E exatamente como o Titanic, a tripulação do navio fictício parecia despreparada para o que viria a seguir pois eles enfrentavam exatamente o mesmo problema que na vida real os tripulantes da White Star Line tiveram de lidar; a falta de botes salva-vidas. E as diferenças não param por aí: A causa raiz do naufrágio também seria a colisão contra um iceberg, com o pequeno adicional de que no caso, o navio desapareceria no Atlântico Norte, mas até mesmo o sobrenome do Capitão da Embarcação era, exatamente como na vida real Smith.
Mas, independente se essa teoria é verídica ou não, fato é que existiu um Titan na vida real, e não faz muito tempo. No ano de 2023, uma empresa estadunidense chamada Ocean Gate estava promovendo ousadas expedições até as ruínas do Titanic (vale lembrar que as visitações já não eram mais consideradas seguras após o final da década de 90) , onde os passageiros teriam, através das naves projetadas pela empresa, a oportunidade de ver de perto os destroços do navio.
Para embarcar no Titan, era necessário desembolsar 250 mil dólares por pessoa. Além disso, a pessoa que se dispusesse a participar dessa empreitada precisava assinar um contrato no qual isentaria a empresa de qualquer responsabilidade a respeito de quaisquer acidentes físicos ou mentais- até mesmo risco de morte- caso houvesse alguma eventualidade.
Figura 24: Fotos dos cinco passageiros que embarcaram no Titan em 18 de Junho de 2023. Não houveram sobreviventes.
O Titan saiu do Canadá para realizar o seu trajeto, que demoraria cerca de duas horas, no dia 18 de Junho de 2023. Nele, estavam a bordo o explorador britânico Hamish Harding, um empresário paquistanês e seu filho Suleman Dawood , Paul Henri Nargeolet, um mergulhador francês e também o CEO da Ocean Gate, Stockton Rush. As cinco pessoas morreram, causando repercussão internacional, porém o que realmente aconteceu naquele dia?
Antes de discorrer a respeito dos detalhes técnicos (Como o que foi que gerou a implosão daquele submarino, por exemplo) gostaria de enfatizar o fato de que a história, mais uma vez, precisou se repetir. Além do contrato de alto risco assinado por cada um dos passageiros que embarcaram no Titan, há controvérsias a respeito da composição do projeto em si, ainda em seus primórdios, exatamente da mesma forma que ocorreu com o próprio Titanic.
Um funcionário teria advertido Stockton a respeito do casco da embarcação, informando ao CEO que ela não seria capaz de resistir a tamanha profundidade, no entanto, esse mesmo empregado acabou sendo demitido por seus comentários. Segundo o próprio Stockton, não era de bom tom manter colaboradores que ainda adotavam a “segurança contra o progresso” em sua empresa.
A viagem, como mencionado, teria a duração total de duas horas. Cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos depois de seu inicio, a equipe externa perdeu o contato com o Titan, o que não poderia ser considerado um bom sinal, de forma que logo se iniciou uma verdadeira corrida contra o tempo na tentativa de resgatar as pessoas que já estavam fora de qualquer espécie de alcance. A reserva de oxigênio que existia dentro da embarcação era de 96h, e este era o tempo exato que a equipe de resgate internacional (que contou até mesmo com o auxílio de um helicóptero) tinha para tentar encontrar o Titan em uma área de aproximadamente 20 mil quilômetros quadrados, o que seria correspondente ao tamanho da Cidade de São Paulo, multiplicada em dezessete vezes.
Figura 25: Edward Cassano, líder da equipe de buscas ao Titan.
Os esforços foram intensos, comandados pela guarda costeira dos Estados Unidos, mas infelizmente não houve tempo para localizar o submersível. Pesquisadores conseguiram encontrar apenas quatro dias depois destroços da nave, cerca de 500m do navio original, o que fez com que chegassem a conclusão de que o Titan teria, na verdade, implodido.
Implodir, em outras palavras, significa que as paredes inflaram dentro do Titan, que, exatamente como o funcionário demitido havia tentado alertar, não teve estrutura o suficiente para resistir a compressão da pressão da água. Essas paredes simplesmente esmagaram os passageiros dentro do submersível, destroçando os seus corpos.
Há pesquisadores e especialistas apontam que a temperatura deve ter aumentado consideravelmente devido a pressão pela qual o Titan estava se submetendo, em uma escala que seria suficiente para evaporar carne humana. Apesar disso, todos os sinais apontam que os passageiros não sentiram dor ao morrer, uma vez que a implosão lhes causou uma morte instantânea.
A notícia de que eles iriam sucumbir teria sido percebida cerca de um minuto antes- Um certo luxo, se comparado ao tempo de tomada de decisão do Capitão John Smith, de apenas trinta e sete segundos.
Não foi possível nem mesmo resgatar esses corpos para serem enterrados em seus países natais, devido não apenas a profundidade, mas também ao estado físico em que eles se encontravam, uma vez que foram despedaçados pelo próprio submersível.
Os restos mortais provavelmente serão devorados por seres que vivem a essas profundezas do oceano; espécies que, por conta de tamanha profundidade, nem mesmo são conhecidas por nós, mas sabe-se que, justamente devido ao fato de se tratar de uma camada tão profunda do Oceano Atlântico, não recebe luz o suficiente, o que , por sua vez, compromete a fotossíntese das plantas e dos animais e torna a busca por comida algo realmente difícil entre as espécies que habitam esse meio, logo, qualquer espécie de material orgânico, para tais criaturas, é tida como um grande banquete.
Quando aos esqueletos, deu se um prazo de um a dois anos até que eles se desintegrassem por completo, portanto, três anos após o incidente, é possível inferir que os bilionários já não figuram mais como vizinhos do Titanic, embora este ainda permaneça firme e forte nas profundezas do Oceano Atlântico.
Após a morte de seu CEO, a Ocean Gate acabou fechando as portas, mas não encerrou as atividades de forma completa pois coopera com as autoridades a fim de encerrar as investigações a respeito do incidente. O mais curioso de tudo é o fato da esposa de Stockton Rush, Wendy, ser descendente direta de duas vítimas que estavam dentro do Titanic, e que não sobreviveram.
Figura 26: Isidor e Ida Straus, vítimas do Titanic.
Conclusão
Depois de todas essas inferências e observações, concluímos que não importa muito a época, seja há cem anos ou nos dias atuais, o ser humano continua colocando suas ambições financeiras acima da questão humanitária, que promove segurança e direitos básicos. Apesar de todo o trabalho incansável de seus representantes, ela ainda não é tida como garantida a determinados grupos de pessoas por motivos de gênero, raça e condição social. A esses mesmos grupos não é concedida humanidade, e sim utilidade, conforme teoriza Focault.
Enquanto comportamentos como este permanecerem ocorrendo em prol de um corpo dócil, muitos outros naufrágios podem continuar a ocorrer- E neste caso não estamos falando de navios.
Fontes Bibliográficas
Vídeo:
VOCÊ SABIA: “A verdade sobre o Titanic: 35 segredos que não querem que você saiba”
https://youtu.be/Vn4hV_r5xxM?si=o0gUZkqUxkhTSoSm. Acesso em: 14 de mai.2025
FATOS DESCONHECIDOS: “O que aconteceu com os corpos na hora da implosão do Titan?”
https://youtu.be/SBLa9mjhxqU?si=clAzkMZyR2N8sktL. Acesso em: 14 de mai.2025
Curso Enem Gratuito: “MICHEL FOCAULT: Corpo e Poder”
https://youtu.be/zILgN1teXSc?si=FZ-6pqFhC5MfweBF. Acesso em: 14 de mai.2025
Domingo Espetacular: “Viagem sem volta: entenda o que houve com o navio implodindo”
https://youtu.be/BJ9cHtnZ-ng?si=u0O3VcnaTfz3YRN9. Acesso em: 14 de mai. 2025
FATOS DESCONHECIDOS: “A verdadeira história do Titanic”
https://youtu.be/epc1KZMx2vs?si=txI6tRORMwq0DKPx. Acesso em 14 de mai. 2025
FATOS DESCONHECIDOS: “O que os sobreviventes do Titanic escutaram quando o navio afundou?”
https://youtu.be/X1HKU88Mg4Y?si=948cFYlrV_VWhsSw. Acesso em 14 de mai. 2025
Sites:
RMS TITANIC. https://pt.wikipedia.org/wiki/RMS_Titanic. Acesso em 14 de mai. 2025
JOSEPH BRUCE ISMAY. https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Bruce_Ismay. Acesso em 14 de mai.2025
JOSEPH PHILIPPE LEMERCIER LAROCHE. https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Philippe_Lemercier_Laroche. Acesso em 14 de mai. 2025
MASABUMI HOSONO. https://pt.wikipedia.org/wiki/Masabumi_Hosono. Acesso em 16 de mai. 2025
THOMAS ANDREWS. https://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Andrews. Acesso em 20 de mai. 2025
EDWARD SMITH. https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Smith. Acesso em 20 de mai. 2025
STOCKTON RUSH. https://pt.wikipedia.org/wiki/Stockton_Rush. Acesso em 28 de mai. 2025

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