As crianças são o reflexo dos pais? Até onde uma criança deixa de ser manipulada por aquilo que vê e vivencia e passa a agir por conta própria?
Escrito por: Julia Segre Data: 04/06/2025 Atualizado em: 23/06/2025
Fenômeno que marcou o cinema internacional no ano de 2017 com mais de 35 milhões de ingressos vendidos, Extraordinário é um longa metragem dirigido por Stephen Chobosky baseado no livro homônimo da autora R.J Palacio.
Contando com grandes estrelas em seu elenco, como Julia Roberts e Owen Wilson, a trama acompanha a trajetória de August Pullman, um garoto de dez anos que sofre de uma síndrome genética raríssima chamada disostose mandibulofacial, conhecida popularmente como Síndrome de Treacher Collins.
Tal condição é caracterizada pela má formação de ossos e tecidos do rosto, que não se desenvolvem da maneira correta, causando alterações no formato do queixo, da mandíbula e das orelhas de seu portador.
Figura 01: August Pullman “Auggie”, protagonista de Extraordinário (2017).
Após ter passado os primeiros anos de sua vida sendo educado em casa, August passa a frequentar a escola a partir do quinto ano do ensino fundamental, e o filme tem como missão retratar o dia-a-dia de August em meio ao ambiente escolar e os desafios que ele proporciona.
Recomendado por inúmeros professores, Extraordinário é reconhecido por ser um manifesto contemporâneo da gentileza, mensagem central da obra de Palacio, além de abrir espaço para debates pertinentes a respeito de inclusão e bullying nas escolas.
Além da moral um tanto quanto escancarada que o filme propõe, é possível perceber que Extraordinário possui uma mensagem- ou questionamento- tão pertinente e tão relevante quanto o primeiro, mas que acaba sendo deixado de lado pela maioria dos telespectadores que, entretidos e emocionados com a história de superação de August, acabam não lhe dando a devida atenção.
Ao assistir ao longa com um olhar demasiadamente crítico- bem como consumir da mesma maneira o best-seller que o inspirou- conseguimos perceber uma nuance interessantíssima no comportamento dos personagens mais jovens que nos são apresentados, quase como uma tendência.
Ao longo da narrativa; os jovens passam a ter suas ações espelhadas, baseadas e até mesmo justificadas através da conduta de seus pais ou responsáveis, o que nos leva a uma refletir: Seriam os filhos, realmente, tão diferentes de seus pais? Até onde uma pessoa deixa de agir conforme os princípios da criação que ela mesma recebeu e passa a agir e pensar de forma independente?
Esta é uma questão que foi levantada há muito tempo.
Já dizia Rosseau, três séculos atrás: O homem é fruto de seu meio. Mas o que fazer, se o meio é ruim? Podemos alterá-lo? Moldá-lo? Adaptá-lo?
Até onde o respeito ao outro interfere no meu espaço pessoal? E o quanto as atitudes dos pais moldam o caráter e o futuro das crianças que eles colocam no mundo? Que tipo de mensagem, de legado- as gerações antigas deixam para as atuais?
Tentaremos responder a cada uma destas questões a seguir, utilizando o filme e os argumentos de Rosseau e Aristóteles como base.
É de consenso geral afirmar que a primeira influência que o ser humano recebe em sua criação provém do contato com seus familiares, em especial a convivência com o pai e a mãe.
Esse primeiro período de interação faz com que o indivíduo possa criar seus primeiros modelos; A quem e por quê se espelhar, além de aprender os conceitos pré-estabelecidos do que seria o correto e o incorreto, o prudente e o imprudente, o aceitável e o inaceitável, dentre tantos outros.
Esta base se constrói e se estabelece nos primeiros anos de vida da criança, que até então não possui nenhuma espécie de influência externa ou qualquer outra coisa que possa incentivá-la a ver as coisas de modo diferente, o que torna o ambiente escolar o primeiro espaço onde os indivíduos estarão expostos a múltiplas perspectivas e experiências, gerando, dessa maneira, as primeiras trocas.
Ainda sim, essa troca ocorre de forma condicionada, sendo diretamente subordinada a todas as influências daquilo que o ser humano absorveu durante o seu período de “preparo”, ou seja, a sua criação. No momento da tomada de decisão, seja ela simples ou complexa, a criança sempre tomará partido daquilo que foi armazenado como fator universal, executando comportamentos semelhantes- se não idênticos- de seus genitores, o que exemplifica o tamanho da importância das figuras materna e paterna na construção do caráter e da personalidade dos filhos.
Esses comportamentos parecem ser um fator determinante e extremamente influenciador na trama de Extraordinário, impactando diretamente a vida e a mente dos personagens mais jovens, a ponto de justificar grande parte das atitudes e decisões que eles tomam.
Um exemplo muito claro disso no longa é quando vemos que Nate, o pai do protagonista August, esconde o capacete do próprio filho em uma tentativa de fazê-lo enfrentar o mundo que o rodeia.
Marcado para sempre por conta de sua luta contra a doença, August se sentia confortável usando um capacete de astronauta para se esconder do resto das pessoas, evitando, desta maneira, comentários e olhares depreciativos a respeito de seu rosto.
Em um momento de crise em meio a adaptação ao novo colégio, Auggie começa a implorar pela presença do capacete, que teria desaparecido de seu quarto. Isabel, a mãe do garoto, chega a telefonar para Nate no trabalho, perguntando ao marido se ele sabia em qual lugar o acessório poderia estar.
Muitas cenas mais tarde, Nate admite ao filho que escondeu o capacete por conta própria, deixando Auggie zangado por um primeiro momento, mas o sentimento logo se dispersa, já que o próprio menino reflete que não teria conseguido seguir em frente se continuasse a usar o acessório, reconhecendo que seu pai o ajudara com aquela atitude, afinal, ele o forçou a sair de sua zona de conforto, mesmo sabendo que não apenas August, mas como todo o resto de sua família sofreria no meio do processo.
Figura 02: Nate explicando para August por que escondeu o capacete dele.
Ainda falando sobre a família Pullman, tanto o livro quanto o longa também procuram levantar o lado da história narrado sob a ótica da adolescente Olivia (ou simplesmente Via, para os mais próximos), a irmã mais velha de August.
Reconhecida por ser A criança mais compreensiva do mundo, Olivia narra sua experiência e o seu dia-a-dia convivendo com um irmão mais novo portando aquela raríssima doença. A garota revela ao telespectador a respeito de sua infância solitária, caracterizada por viver a sombra de seu irmão mais novo, que naturalmente necessitava de cuidado e atenção.
A sensação de ser “normal” afetou Via profundamente, a ponto da garota passar a adotar uma conduta totalmente independente, acreditando que seus pais não poderiam lidar com mais um problema, dando inicio, assim, a um ciclo vicioso, no qual todos os seus desejos e vontades eram reprimidos e negligenciados.
O resultado primário desta série de atitudes percebe-se de forma nítida; Olivia se torna uma jovem extremamente introspectiva e distante, de forma que muitas vezes os assuntos que giravam em torno de seus interesses, sonhos e ambições acabavam sendo colocados em segundo plano por seus pais, que tinham uma participação pequena- ou quase inexistente- em sua vida pessoal e cotidiano.
Mas Olivia via em sua avó uma fonte de apoio. Após a mais velha confessar que a neta seria, secretamente, a sua preferida, Via e sua avó materna parecem se tornar confidentes, de forma que a matriarca se torna alguém com quem a jovem sabia que poderia contar, mesmo em momentos nos quais ela não possuía esse canal de comunicação aberto com seus próprios pais.
Figura 03: Olivia lado a lado com sua avó, na praia.
No entanto, poucos meses depois, a garota é surpreendida pela notícia de que sua avó falecera. Após a morte de sua única confidente, Olivia voltou a se sentir solitária e desamparada, sem mais ninguém com quem dividir os seus anseios ou conseguir alguma espécie de atenção. Como consequência, a jovem passou a se fechar cada vez mais dentro de sua própria mente, deixando de se sentir segura ao lado de sua própria família, a medida que, ao mesmo tempo, ela desejava, um dia, ter a oportunidade de ser notada por eles.
Figura 04: Isabel, Nate, August e Olivia caminhando para levar “Auggie” para a escola. Via está propositalmente- e naturalmente- em segundo plano, andando atrás da família, quase como se não pertencesse aquele momento.
Um dos problemas que Olivia deve aprender a lidar, juntamente com a chegada do Ensino Médio, é a instabilidade em relação a sua amizade com Miranda, que até então atendia como sua melhor amiga, com quem ela costumava se dar muito bem.
Tanto o filme quanto o livro inferem que a amizade delas já vinha de um longo período, quase uma década, visto que ambas teriam se conhecido ainda no Jardim de Infância. Miranda não apenas conhecia a família Pullman; era praticamente parte dela, além de ser extremamente próxima de August, chegando a acompanhar toda a sua trajetória em meio aos inúmeros tratamentos e cirurgias que, quando mais novo, ele teve de se submeter.
Figura 05: Miranda ao lado da família Pullman, no natal, instantes após ela presentear August com o capacete.
A jovem era tão apegada aos Pullman que acabou sendo a responsável por apresentar o famoso capacete de astronauta para o protagonista. Apesar disso, a amizade das duas jovens passa por mudanças após a ida de Miranda a um acampamento de verão.
Após a viagem, Olivia percebeu que a amiga retornou para a cidade completamente mudada e sem dar notícias, o que deixou a jovem confusa, afinal, as duas tinham o costume de compartilhar esse tipo de detalhe uma com a outra.
O afastamento precoce, bem como a mudança, não apenas no visual, como também na personalidade de Miranda foram fatores determinantes para que a amizade das garotas esfriasse. Olivia estava visivelmente chateada, sem conseguir entender por que a amiga parecia tão distante, e mais uma vez, não parecia ter ninguém por perto para compartilhar esse sentimento de frustração.
Figura 06: Miranda e Olivia se reencontrando, após Miranda ter retornado do acampamento de verão.
Ao mesmo tempo, Miranda lidava com a rede de mentiras que ela mesma havia inventado. Em ambas as obras, há um espaço exclusivo reservado para a personagem, onde descobrimos que a jovem vinha enfrentando problemas familiares intensos.
Um divórcio conturbado, somado ao fato de seu pai já estar em um outro relacionamento, com a nova parceira já esperando um filho, parecia ser muito para qualquer adolescente ter de lidar, mas Miranda ainda tinha de lidar com o alcoolismo precoce de sua mãe que não parecia conseguir lidar com o que havia acontecido como bônus.
Miranda narra que sua mãe não conversava com ela sobre muita coisa, optando sempre pelo silêncio, o que acabava deixando a jovem a ver navios a respeito da situação da própria família, sempre presa em palpites e suposições, mas sem nunca chegar, de fato, a uma conclusão real do que estava acontecendo.
O acampamento de verão teria sido apenas um pretexto para que ela pudesse se livrar dos problemas que a aguardavam em casa, e quando menos percebeu, Miranda estava usando a família Pullman- a única memória positiva que tinha- para conseguir um pouco de empatia e de atenção- Calor humano- durante o período de férias.
Espalhando mentiras sobre como seria, de fato, estar no lugar de Via, Miranda conseguiu conquistar a visibilidade que não tinha dentro de sua própria casa, mas não foi capaz de retornar para a cidade como se nada tivesse acontecido, uma vez que a culpa do ocorrido ainda lhe atingia profunda e intensamente.
Dessa forma, Miranda acabou optando pelo silêncio, fazendo com que sua amiga ficasse completamente no escuro a respeito de sua mudança repentina enquanto se afastava dela, deixando Olivia com mais perguntas do que respostas. Em suma, Miranda acabou agindo, ainda que de forma inconsciente, exatamente da mesma maneira que sua mãe agia com ela.
Figura 07: Miranda ao lado de sua mãe, na noite de natal.
A escola também parece ter um papel decisivo no comportamento dos jovens de Extraordinário, mas de maneira antagônica com a função desempenhada pelos pais ao longo da trama.
O colégio Beecher Beep, dirigido pelo Diretor Lawrence Buzanfa (Ou Tushman, na versão original), parece incentivar que seus alunos pensem por si mesmos, e que parecia ter como objetivo formar pessoas capazes de cultivar suas próprias personalidades, seguindo a filosofia de seu líder e fundador, que pregava que a grandeza não estaria na força, mas sim no uso correto dela.
Ao receber a notícia de que August iria ser, oficialmente, um dos muitos alunos que ingressariam na instituição com a chegada do quinto ano, o Diretor Lawrence convocou três alunos considerados “gentis” a fim de apresentar a escola para Auggie, uma forma de ajudar o garoto a interagir com as demais crianças, em uma espécie de comitê de boas vindas.
Os três garotos escolhidos para cumprir esta tarefa foram Charlotte Cody, Julian Albans e Jack Will. August descreve que: “Conhecer crianças é mais difícil do que conhecer adultos, por que todos fazem a mesma cara no começo.” Na sequência, o protagonista avalia os sapatos de seus anfitriões, tentando adivinhar, através deles, um pouco de suas personalidades.
Figura 08: Charlotte, Jack Will e Julian se apresentando a August, alguns dias antes das aulas começarem.
Não há muito o que ser dito sobre Charlotte, a garota pela qual Auggie descreve carinhosamente como “Maluquinha”, mas Jack Will e Julian ainda serão temas recorrentes neste ensaio, especialmente pela forma como eles irão se portar para com August ao longo de toda a narrativa.
Começando por Jack Will, o filme faz questão de inferir uma cena na qual o garoto recebe a notícia de que teria que apresentar a escola para August. Quando Jack se mostra pouco disposto a ir, sua mãe faz questão de lembra-lo a respeito de sua bolsa de estudos, e do quanto era importante realizar aquele favor a escola para manter a boa relação com o colégio, o que pode nos fazer inferir sobre alguns pontos que fazem com que Jack Will se destoe dos demais colegas, algo que trabalharemos com mais detalhes daqui a algumas sessões.
O ponto alto a ser observado, no entanto, surge logo na sequência, quando a mãe de Will especifica que o garoto que entrará para a Beecher Beep naquele ano não era qualquer garoto, e sim, o garoto que fez seu irmão sair chorando do parquinho.
Nomes não são necessários diante daquela descrição, e de repente Jack sabia exatamente de quem se tratava.
Quais seriam as chances? Questiona a Senhora Will, pouco antes de convencer o filho a comparecer aquela visita.
Figura 09: Jack Will conversando com sua mãe assim que recebeu a convocação do Diretor Lawrence.
Ao mesmo tempo, somos apresentados a figura de Julian, um garoto que, desde o começo, parecia ter ressalvas em relação a August, fazendo comentários e provocações discretas, mas fortes o suficiente para começar a incitar um verdadeiro ciclo de bullying no colégio.
Julian era, como Isabel, mãe de Auggie, definiria mais tarde, O tipo de criança que muda o próprio comportamento quando não está diante dos adultos. Ao longo do filme, Julian vai se mostrando como o “antagonista” do longa, e o principal opositor da permanência de August na escola, lhe enviando diversos bilhetes e desenhos através de seu armário, em seus cadernos e até mesmo embaixo de sua mesa, com dizeres que deixavam bem claro o quanto, aos olhos dos outros e especialmente aos dele, August não era- e nunca seria- bem vindo.
Figura 10: Coleção de bilhetes depreciativos que Julian escreveu para August.
Quando a direção da escola decide punir Julian pelo ocorrido, temos uma das cenas mais favoráveis que podemos utilizar a fim de sustentar a teoria primária deste ensaio. A forma como a família Albans se comporta diante da situação- em especial a mãe do garoto- chama muito a atenção do diretor da escola, uma vez que eles afirmam que seu filho era demasiadamente jovem demais para lidar com tamanha “pressão” ao conviver lado a lado de “alguém como August”.
Figura 11: Família Albans no escritório do Diretor Buzanfa.
A personalidade verdadeira dos personagens, no entanto, parece se sobressair nestes momentos de conflito. Percebemos que ambos, Jack Will e Julian, pareciam fadados a se posicionar de lados opostos, uma vez que seus pais pareciam ter opiniões contrárias a respeito da chegada de August a escola.
Enquanto a Senhora Will acreditava que era necessário dar uma oportunidade ao garoto, os Albans afirmavam que a Beecher Beep não se enquadrava como uma escola inclusiva, e isso de certa forma explica o comportamento dos dois garotos em relação a convivência que eles teriam com o protagonista, de forma que a postura- Tanto de Julian quanto de Jack- já estava condicionada antes mesmo do primeiro encontro entre eles acontecer.
Ainda sim, houveram momentos em que a personalidade em construção das crianças-seu caráter- pareceram se sobressair diante da visão de seus genitores, em ambos os casos.
Jack Will passou a ter interesse genuíno em fazer amizade com August, chegando a declarar que: “Se todos os garotos do quinto ano estivessem alinhados em uma parede, e ele tivesse que escolher qual deles iria querer andar, ele escolheria August.” Jack deixa de ver o protagonista como alguém que precisa de uma chance, e passa vê-lo como pessoa, como amigo e como alguém que ele realmente quer manter por perto.
Figura 12: Jack Will e August.
Ao mesmo tempo, Julian parece ter um pequeno momento de redenção ainda na cena na qual ele é convocado para a sala da direção. Enquanto seus pais começam a defender suas atitudes, o menino parece perceber que suas últimas ações foram inadequadas e passa a demonstrar um desconforto visível em sua expressão.
Este desconforto se transforma em desespero quando seus pais anunciam que Julian não voltaria a frequentar a escola no próximo ano letivo. Não há nada que faça seus pais mudarem de ideia, embora o próprio Julian pareça ter mudado.
Antes de deixar definitivamente o escritório do diretor, o garoto admite que sente muito, e parece transcrever seu estado de espírito em seu preceito escolar; As vezes é bom recomeçar.
Figura 13: Julian lamentando o ocorrido pouco antes de seguir seus pais para fora do escritório.
A vida é uma jornada, não um destino.
August define, em suas próprias palavras, a vida como uma jornada, e não como um destino. Em Extraordinário, a jornada impulsiona os jovens a tomar suas próprias decisões, tanto para o bem quanto para o mal.
Como dito acima, a escola aparece como intermediário em meio a todo este conflito, procurando incentivar os alunos a pensarem por si próprios. Isso pode ser visto de forma mais clara nas aulas de Inglês, ministradas pelo Sr.Browne, que ensina aos seus estudantes a respeito dos preceitos. Mencionado alguns parágrafos cima, os preceitos são, em sua mais pura definição, tentativas de compreender a essência do ser humano.
Nas palavras do próprio educador: “Quem nós somos [...] que tipo de pessoas somos? Que tipo de pessoas são vocês? Não é isso o mais importante? Não é esse tipo de pergunta que devemos nos fazer o tempo inteiro?”
Mensalmente, os alunos de Browne se deparavam com uma espécie de frase de efeito, e precisavam refletir sobre ela até o fim do mês, onde fariam uma redação escolar refletindo sobre o preceito e discorrendo sobre o que ele poderia significar. Ao final, durante as férias de verão, os alunos deveriam criar seus próprios preceitos.
Figura 14: Summer Dawson, uma das alunas do quinto ano, lendo o preceito de Setembro do Sr.Browne: Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.
Ao final do livro, temos acesso aos preceitos que os personagens mais relevantes da trama enviaram ao Professor durante o período de recesso, e o de Jack Will, especificamente, foi retirado a partir de um lema proclamado durante a segunda guerra mundial, onde lia-se: Mantenha a calma e siga em frente.
Esta frase, de certa forma, parece refletir o papel de movimentação e geração de conflitos que este personagem tem ao longo de toda a trama.
Afinal, se analisarmos de forma crítica, logo fica perceptível que Jack foi aquele que mais precisou tomar decisões independentes em toda a narrativa, de forma que podemos classificar os efeitos de suas decisões como positivos, negativos e impulsivos, o que reforça a natureza conflituosa que este personagem parece possuir.
Jack age de forma positiva, quando, conforme mencionado, ele resolve deixar o pré-conceito de lado e conquista, verdadeiramente, a amizade do protagonista. Apesar de próximos, sua relação com August não permanece positiva em todos os momentos da trama, uma vez que a relação dos dois é posta a prova quando Jack, em busca de aprovação social, acabou agindo de forma depreciativa por trás das costas do amigo, chegando a dizer que “se mataria se tivesse nascido com aquela cara”.
Figura 15: August fantasiado de pânico no Halloween, ouvindo Jack Will lhe depreciando pelas costas.
Após os eventos da festa de Halloween, August deixa de conversar com Jack, mantendo distância dele, o que faz com que o garoto fique se perguntando o que poderia ter acontecido. Jack havia sido informado que seu amigo viria fantasiado de Boba Fett, logo, não percebeu que Auggie tinha ouvido tudo, pois o menino acabou indo ao evento escolar vestido de pânico. Ele sente falta de August, mas não chega a conversar com ele sobre o ocorrido, demonstrando uma natureza orgulhosa.
No entanto, após descobrir que o protagonista havia ouvido tudo o que foi dito a respeito de sua pessoa, Jack imediatamente muda de atitude, decidido a tentar consertar as coisas com o amigo, uma vez que ele diz o que disse numa tentativa de conseguir aprovação de pessoas que, no fim das contas, ele percebe que não queria manter por perto. O garoto parece ter consciência disso, pois rejeita entrar no mesmo grupo que Julian para fazer o trabalho de ciências, optando por permanecer com August, no exato momento em que a professora anuncia o trabalho.
Essa escolha desencadearia a atitude impulsiva de Jack que, ao ser questionado do por que havia realizado a troca, acabou agredindo Julian, de forma que ele acabaria sendo punido com uma suspensão.
Figura 16: Jack Will agredindo Julian, instantes antes dos professores apartarem a briga.
Jack acaba se tornando a representação da crise que toda a criança apresenta ao ser retirada de seu núcleo familiar, passando a conviver com outras pessoas de forma intensa e precoce.
Por ser um aluno que frequenta a escola com o auxílio de uma bolsa de estudos, percebemos que Jack não é exatamente uma criança com condições financeiras elevadas. Filho de um professor com uma assistente social, ele tenta se encaixar no mundo que parecia ser muito distante daquele que ele vivencia em sua casa, ouvindo relatos de viagens de seus colegas para a Europa, enquanto ele, por sua vez, passava as férias esquiando em uma colina de seu bairro, usando um trenó que havia sido encontrado no lixo, e que mais tarde ele descobriria que teria sido descartado por um dos seus amigos de classe.
Enquanto busca por essa aprovação vinda de terceiros, Jack lida com a crescente amizade com August que, apesar de verdadeira, não lhe rende popularidade, aumentando a tensão e parecendo justificar sua fala na festa de Halloween, sendo facilmente reconhecida como uma atitude impulsiva e que não refletiria, nem de longe, os verdadeiros pensamentos e sentimentos do personagem.
No livro, as consequências da briga entre Jack e Julian não se limitam apenas a suspensão que o jovem sofreu. Após retornar para a escola, Jack se torna alvo de bullying de outros alunos de sua turma, uma vez que as crianças pareciam estar cientes de que mexer com August lhes renderia prejuízos, de forma que seria mais conveniente provocar Jack em seu lugar.
O garoto, no entanto, se mostra disposto a aguentar o preço de estar “queimado” a fim de defender sua amizade com August, posição que ele mantém de forma firme e definitiva até o fim da trama.
Figura 17: Jack Will e August sentados juntos na mesma mesa.
Aristóteles foi um dos primeiros filósofos que discorreu a respeito do caráter, trazendo o enfoque para a forma como ele supostamente era formado. Segundo ele, o segredo para a construção de um caráter estava na prática.
A prática de fazer escolhas. O ser humano seria capaz de escolher se viveria uma vida boa ou ruim através de exercícios de raciocínio diário, o que reforça a ideia de “jornada” colocada por August.
Personagem secundário do filme, mas melhor trabalhado no livro, Justin é representado como o namorado de Olivia em ambas as obras, embora sua participação e relevância no livro seja mais significativa do que sua adaptação para as grandes telas.
Enquanto no filme Justin é tido como um jovem tímido e levemente sufocado pela superproteção de sua mãe, no livro, quando lemos a sessão reservada especialmente para o personagem, descobrimos um Justin totalmente diferente do que é apresentado no longa, uma vez que ele parece possuir um ponto de conexão muito interessante com Via, já que ele também carregava o título de invisibilidade em sua família. O rapaz narra que sempre foi negligenciado por seus pais, de forma que eles sempre pareciam esperar que ele já fosse capaz de fazer as coisas sozinho, o que lhe rendeu um amadurecimento precoce e uma forma independente de pensar e agir.
“É engraçado que exista a palavra superprotetores para descrever alguns pais, mas nenhuma para se referir ao oposto. Que palavra se usa para pais que não protegem o filho o suficiente? Subprotetores? Negligentes? Egoístas? Péssimos? Todas as anteriores.” Define ele. Ainda no livro, há um determinado momento no qual Justin vê Jack Will sendo ridicularizado por Julian e seus dois amigos, Amos e Miles, e resolve defende-lo, tomando a atitude que ele sabe que seus pais nunca tomariam por ele.
Figura 18: Justin conhecendo August. No filme, o protagonista sugere que o rapaz diga aos outros que carregava uma metralhadora ao invés de um violino em sua maleta, coisa que ele acaba, de fato, dando a entender no livro, para espantar os bullies de perto de Jack Will.
Após lidar com as consequências de sua suspensão e do bullying que sofria de outros alunos, Jack Will ficou exposto as tentativas- não apenas de Julian, mas como da família Albans como um todo- de tentar questionar a entrada de August da escola, afirmando que a Beecher Beep não estaria preparada para receber alunos com deficiência, embora a deformidade facial de August não afetasse o seu porte físico nem suas capacidades mentais- enquanto argumentavam que a presença da criança poderia estar alterando o regimento escolar, justificando assim todo o bullying e segregação que August andava sofrendo em sala de aula, como se tais atitudes não passassem de reflexos daquilo que as crianças ainda não estavam preparadas para lidar.
Enquanto justificavam para os pais tais comportamentos, realizando reuniões em sua residência em uma tentativa de convencer cada vez mais pais a aderirem a ideia, os Albans chegaram a excluir a presença de August na foto da turma de seu filho com o auxílio do photoshop, em uma tentativa claríssima de realizar o que Rosseau mais tarde chamaria de autoimagem, ou seja, August passou a ser fruto daquilo que terceiros acreditavam que ele fosse, sem fundamentação ou conhecimento a respeito de quem ele, de fato, se tratava.
O filósofo francês define o autoconhecimento como a arma mais poderosa a ser usada contra a autoimagem pois, quando o indivíduo conhece a si mesmo de forma aprofundada, ele mesmo passa a construir a sua própria autoimagem, se transformando, assim, em um agente de mudança no mundo.
Summer, a eudonômica
O conceito de eudonomia é caracterizado pela felicidade conquistada com base na virtude.
A virtude, por sua vez, é alimentada por atos virtuosos. Ainda mantendo o mesmo raciocínio de ações cotidianas, Aristóteles define os atos virtuosos como aqueles que se mostram em situações onde podemos agir ou não agir.
A escolha correta, seja ela qual for, alimenta a virtude, que caracteriza a eudonomia.
Em sua obra, o filósofo grego classifica as virtudes como morais ou intelectuais, sendo uma dependente direta da outra, com o pequeno adicional de que as virtudes morais só podem ser criadas quando são colocadas em prática.
No entanto, alerta Aristóteles, é necessário encontrar o equilíbrio perfeito ao executar uma ação virtuosa. Seus efeitos, sejam eles causados pelo excesso ou pela falta, podem acabar gerando consequências positivas ou negativas.
Para ilustrar o raciocínio do filósofo, utilizaremos como exemplo a coragem. Considerado um sentimento virtuoso, porém com dois extremos positivos e negativos, que seriam, respectivamente, a imprudência e a covardia.
Ao contrário dos demais jovens, que ainda parecem estar travando suas próprias batalhas a fim de descobrir quem realmente são e como realmente pensam, a personagem Summer se destaca em relação a todos eles, pois age por conta própria, possuindo, apesar da pouca idade, todas as qualidades eudonômicas que Aristóteles tanto se esforçava para ensinar a seus discípulos.
Agindo de forma extremamente virtuosa ao revelar para Jack o por que August não estava mais conversando com ele, Summer foi eudonômica pois não quebrou a promessa que fizera ao protagonista de manter o que houve em segredo, mas também foi honesta para com Jack, o incentivando a consertar a questão inacabada que havia entre eles.
Figura 20: Cena onde Jack Will descobre o que houve com August. Summer apenas diz: “Pânico”, antes de deixar o garoto sozinho para tirar as suas próprias conclusões.
Assim como Justin, Summer também é mais explorada no livro do que no filme, e se mostra como uma aluna que se aproximou de August por iniciativa própria. Ela não tinha pena dele, e nem achava que ele merecia uma chance, simplesmente queria encontrar um novo amigo para dividir o que, mais tarde, eles batizariam como a mesa do verão. (Vê-se aqui uma brincadeira, uma vez que o nome Summer significa verão e August é uma representação do mês de Agosto, onde é verão nos Estados Unidos).
Figura 20: Summer e August na mesa do verão.
Summer também parece ter sua opinião consolidada em muitos aspectos, como no momento do livro em que ela chama a atenção de sua própria mãe quando ela recebe August em sua casa. É interessante notar que este foi o único momento em Extraordinário onde os papéis se inverteram, e Summer passou a condicionar as atitudes de sua mãe ao invés do contrário.
No livro, ela conta a August que o pai dela já não estava mais presente, uma vez que ele pertencia ao exército dos Estados Unidos, o que pode justificar essa maneira mais madura de pensar e agir quando comparada á outras crianças. Em contrapartida, Summer critica as crianças de seu colégio, acreditando que elas seriam “adultas demais”, por já possuírem interesse em namorar, ou por ridicularizar sua fantasia de unicórnio, por exemplo.
Outro momento interessantíssimo a respeito de Summer, e que acabou sendo cortado do longa metragem acontece em uma festa de aniversário na qual a garota havia sido convidada. Ao chegar no espaço, Summer é questionada pelos outros colegas se ela seria a namorada de August. Summer nega a história, e imediatamente seus colegas de classe se perguntam o por que ela “perdia tanto tempo” ao lado do protagonista, além de inferir, logo na sequência, que Julian estava interessado em passar um pouco mais de tempo com ela.
Summer sorri e diz palavras gentis, pouco antes de desviar o assunto, mas na primeira oportunidade que tem, a menina vai até o banheiro da casa da colega e telefona para a sua mãe, pedindo para a sua mãe busca-la o mais rápido possível.
Quando questionada o motivo, Summer tem certeza: Não quero ficar aqui.
Conclusão
Após todas essas inferências, concluímos que a criação dos pais é essencial para a formação dos princípios morais de um indivíduo.
Toda a instrução (e também a falta dela) pode ser decisiva para formar a base de conhecimento na qual a criança irá se espelhar ao longo de seus primeiros anos de vida, e de onde ela retirará todas as suas tomadas de decisão, como já declararia Rosseau, ao afirmar que o homem é fruto de seus meios.
No entanto, o valor do caráter e da integridade de um indivíduo ultrapassa essa esfera, evoluindo através das trocas que ocorrem não apenas na escola e com a convivência de terceiros, mas também a partir do conhecimento de mundo que a criança vai se dispondo a desbravar a medida que ganha experiência, como afirmaria Aristóteles, na ganha, na perda e na manutenção da virtude, tornando assim sua personalidade fruto único e exclusivo de suas próprias mãos.
Fontes bibliográficas
PALACIO. R.J. Extraordinário. Ed. Intrínseca. 2012.
JEAN JAQUES ROSSEAU. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau. Acesso em: 13 de junho de 2025.
DESTRAVE MENTAL. “Como desenvolver um caráter virtuoso” (Aristotelismo). https://youtu.be/ppKHYe1I98g?si=s5Z4GcxboDfI5hor. Acesso em: 13 de junho de 2025.
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