PRIMEIRO TRATAMENTO
DESENCONTROS
Um roteiro de
JULIA SEGRE
DESENCONTROS- PRÓLOGO
CENA 01
INT. – CASA DA SOFIA- QUARTO DA SOFIA – TARDE
1-1 PLANO GERAL
SOFIA está brincando sozinha de boneca.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Quando era pequena, fazia de tudo para sonhar.
1-2- PLANO GERAL
INT. - CASA DA SOFIA- SALA DE ESTAR- TARDE
Os ADULTOS estão reunidos no sofá, conversando. Sofia está escondida na parede, ouvindo tudo.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Ouvia, curiosa, as conversas dos adultos, a respeito de sonhos que tiveram e do que eles poderiam significar e invejava meus amigos quando os via compartilhando o que sonharam durante a noite, desde uma aventura mágica na terra dos sonhos até um pesadelo onde alguém achou que estava caindo de um lugar muito alto.
1-3 PLANO AMERICANO
No meio da narração de Sofia, cortar para; INT. ESCOLA DA SOFIA- SALA DE AULA- MANHÃ e capturar um frame dos COLEGAS DE SOFIA conversando e rindo. Sofia fica do lado de fora da rodinha, em sua mesa, excluída.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Todas essas conversas pareciam pertencer a um mundo do qual eu não fazia parte, já que parecia que eu não tinha nascido com a capacidade de sonhar. E quando criança, eu fazia de tudo para tentar preencher esse vazio.
Cortar para Sofia fazendo todas as atividades listadas na narração abaixo em: INT- CASA DA SOFIA- QUARTO DA SOFIA- NOITE.
1-4 PLANO AMERICANO
SOFIA (NARRAÇÃO)
Tentava ir para a cama mais cedo, tomava um chocolate quente mesmo depois de ter escovado os dentes, e contava carneirinhos até pegar no sono, mas... o resultado era simplesmente inevitável.
1-5- FADE OUT- CÂMERA FICA PRETA.
SOFIA (NARRAÇÃO)
O preto. A escuridão. O nada. Era com isso que eu sonhava, até meus olhos se abrirem outra vez.
1-6 PLANO AMERICANO
SOFIA (NARRAÇÃO)
Eu me sentia péssima, mas ao crescer percebi que sonhar não era tão importante assim. A maioria dos adultos nem sonha mesmo.
Seguir com frames que mostram as situações descritas na narração abaixo:
SOFIA (NARRAÇÃO)
Estamos tão estressados com o mundo real, com o trabalho, com a faculdade, com filhos, tarefas, contas, reuniões, e míseros momentos de lazer que nossos sonhos acabam se esvaindo em algum lugar da nossa consciência.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Debaixo da medicação e dos porres que a gente toma para tentar encontrar um pouco de calmaria no meio de toda essa tempestade que é ser um adulto funcional.
1-7 ZOOOM
Mostrar Sofia TOMANDO REMÉDIO e BEBENDO em diferentes cenários.
1-8 PLANO AMERICANO
SOFIA (NARRAÇÃO)
Então, meu sentimento de tristeza por simplesmente não ser capaz de sonhar acabou sendo substituído pela indiferença a escuridão que já estava acostumada a enfrentar todas as vezes que fechava os olhos.
Mostrar Sofia brigando com o despertador em INT- CASA DA SOFIA- QUARTO DA SOFIA- MANHÃ
SOFIA (NARRAÇÃO)
Se antes eu não gostava dela, agora passei a abraçá-la, a aceitá-la, e até mesmo a gostar dela, o suficiente para gritar contra o meu travesseiro todas as vezes que o barulho irritante do despertador soa, e com direito a resmungar frases clássicas como...
SOFIA (Sonolenta)
Mais cinco minutinhos...
O despertador toca novamente.
SOFIA (Sonolenta)
De novo não...
SOFIA (NARRAÇÃO)
Pelo menos uma vez por semana quando abro os olhos e me deparo com o mundo real. Então sim, eu não tenho a capacidade de sonhar. E sim, eu estava confortável com isso. Até as coisas mudarem e eu começar a sonhar.
1-9- CLOSE EM SOFIA
SOFIA (NARRAÇÃO)
Não com algo, mas...com alguém.
1-10- CLOSE EM BRENO
SOFIA (NARRAÇÃO)
E não com qualquer alguém.
Breno sorri.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Eu comecei a sonhar com...ele.
CENA 02
INT. FACULDADE DA SOFIA- REFEITÓRIO- NOITE
2-1 CLOSE EM DENISE
DENISE
Vamos lá Sô, você sabe que sonhar com pessoas estranhas é comum.
2-2 PLANO AMERICANO
Sofia se encolheu na mesa.
DENISE
Eu mesma tive um sonho na semana passada onde eu agarrava um moleque branco pelo colarinho e ele me dava um beijo de língua tão gostoso que fiquei até desapontada quando acordei. E olha que isso não faz o menor sentido. Eu nem pego garotos brancos, e você sabe muito bem disso.
SOFIA (Murmurando)
Sonhar com pessoas estranhas é comum, mas não repetidamente.
Sofia toma os últimos goles de seu suco.
DENISE
O que você disse?
SOFIA
Nada não.
DENISE
A maioria das pessoas tem um sonho e esquece. Mas se você realmente continua sonhando todos os dias com a mesma pessoa...
MATIAS entra em cena.
2-3 CLOSE EM MATIAS
MATIAS
Quem está sonhando todos os dias com a mesma pessoa?
2-4 PLANO AMERICANO
Sofia se encolhe de vergonha.
DENISE (Rindo)
A Sofia! Ela está sonhando todos os dias com o mesmo cara!
MATIAS (Surpreso)
E quem é o cara?
DENISE
Ela diz não saber. Mas consegue descrevê-lo perfeitamente. Cabelos cacheados, olhos negros, pele chocolate, cicatriz na altura da sobrancelha...
MATIAS (Rindo)
Tem certeza que não dormiu com ele, Sô?
Sofia se encolhe de vergonha de novo.
SOFIA (Com vergonha)
Tenho certeza. Tenho certeza absoluta. Eu não conheço esse cara, mas sonho todos os dias com ele e... é quase como se eu o conhecesse de algum lugar!
DENISE
Tem certeza que nunca viu ele? As vezes você estudou com ele e não está lembrando...!
SOFIA
Tenho! Eu não sei nem mesmo o nome dele.
MATIAS
Há quanto tempo você sonha com esse cara?
SOFIA
Duas semanas.
MATIAS
Duas semanas já é um tempo considerável. Já pensou se pode ser alguma espécie de alerta ou sinal...?
DENISE (Rindo)
Ah, lá vem o Matias falar de alertas e sinais!
MATIAS (Irritado)
É verdade! As vezes é alguma espécie de mensagem!
O SINAL soa. Denise sai andando na frente, e Sofia fica para trás para jogar fora o seu suco. Matias espera por ela.
2-5 CLOSE EM MATIAS
MATIAS (Sorrindo)
Espero que você consiga procurar as respostas que tanto procura, Sô.
CENA 03
INT. CLÍNICA DE PSICOLOGIA- NOITE
3-1- PLANO GERAL
Sofia aparece entrando no prédio.
SOFIA (Narração)
Se eu quisesse saber as respostas, claramente que não resolveria passar o meu tempo reclamando, ou me lamentando por semi-estranhos não terem sido capazes de me confortar. Eu tinha que fazer algo para me ajudar.
Pensando nisso, resolvi procurar ajuda para tentar descobrir o que estava acontecendo comigo.
3-2- CLOSE NA MÃE DE SOFIA
MÃE DA SOFIA- Na mente dela
Uma consulta para o psiquiatra?
3-3 CLOSE NA SOFIA
Sofia balança a cabeça em negativo.
3-4 CLOSE NA ENFERMEIRA
A ENFERMEIRA aparece.
ENFERMEIRA
Sofia Nogueira?
3-5 PLANO AMERICANO
Sofia levanta o rosto e se depara com BRENO, e o reconhece de seu sonho. Sofia fica chocada.
ENFERMEIRA (Desconcertada)
Sofia Nogueira?
A enfermeira chama o nome de Sofia mais uma vez, e a mulher que está ao lado fica com raiva.
SOFIA (Gaguejando)
Sou eu!
ENFERMEIRA (Sorrindo amarelo)
Você pode me acompanhar, por favor?
CENA 04
INT. CLÍNICA DE PSICOLOGIA- NOITE
4-1 PLANO AMERICANO
SOFIA (Narração)
Eu já estava ensaiando o que ia dizer para o doutor.
"Sabia que eu tenho sonhado muitas vezes com a mesma pessoa desconhecida? E sabia que essa pessoa, por acaso, trabalha com vocês?"
SOFIA (Narração)
Quais são as chances de ser considerada completamente maluca quando eu disser isso para ele?
ENFERMEIRA (Sorrindo)
Pode se sentar e esperar um minutinho aqui, por favor. O doutor Breno chega já já.
SOFIA
Obrigada.
4-2 CLOSE NA PORTA
Pouco tempo depois, a PORTA se abre. É Breno. Sofia está chocada.
4-3 CLOSE EM BRENO
BRENO
Olá, você deve ser a Sofia, certo? Meu nome é...
4-4 CLOSE NA SOFIA
SOFIA (Surpresa)
Você.
4-5 PLANO AMERICANO
BRENO (Confuso)
Perdão?
SOFIA (Com certeza)
É você.
Sofia se levanta e se aproxima dele.
SOFIA
Você é a pessoa que aparece nos meus sonhos!
BRENO (Sorrindo)
Desculpe, eu não estou entendendo.
SOFIA
Olha, eu vim aqui por que estou sonhando todos os dias. E eu nunca sonho. Nunca mesmo. Nunca me lembrei de nenhum dos sonhos que eu tive, desde pequena, só... Eu só acordava com aquela sensação de que eu tinha sonhado com alguma coisa. Mas agora é diferente. Eu sonho todos os dias com a mesma pessoa.
Sofia está andando de um lado para o outro no escritório.
BRENO
Quase como se fosse um personagem.
SOFIA
É, quase como se fosse um personagem.
BRENO
E como é esse personagem?
Sofia para de andar.
4-6- CLOSE NA SOFIA
SOFIA
Eis a questão: não é um personagem.
4-7 PLANO AMERICANO
BRENO
Como?
SOFIA
Não é um personagem. Você é a pessoa que eu tenho sonhado.
Silêncio no consultório.
SOFIA (Com vergonha)
Você aparece nos meus sonhos. Isso tem me perseguido por semanas e foi por isso que eu resolvi pedir ajuda profissional. Sei que você vai dizer que provavelmente eu te vi de algum lugar, mas...
4-8 CLOSE EM BRENO
BRENO (Sorrindo sem mostrar os dentes)
Impossível.
Sofia encara Breno.
BRENO
Impossível termos nos visto em algum lugar, eu acabei de chegar a cidade. É meu primeiro dia aqui. A não ser que você trabalhe no aeroporto de Guarulhos e...
4-9 PLANO AMERICANO
SOFIA
Definitivamente não.
BRENO (Sorrindo)
Foi o que eu imaginei.
SOFIA
Nunca me veio a cabeça que você seria um psicólogo.
Breno olha para Sofia, surpreso.
SOFIA
Você tem mais cara de artista.
BRENO (Confuso)
Um...artista?
SOFIA (Timidamente)
Não exatamente um cantor ou dançarino. Tá mais pra alguém que pinta telas.
Silêncio.
SOFIA (Com vergonha)
Pelo menos...De qualquer forma, eu me sinto muito melhor agora, Doutor...
Sofia para e olha para o JALECO de Breno.
SOFIA
......Martins. Muito obrigada pelo seu tempo.
BRENO
Mas...
4-10 PLANO AMERICANO
SOFIA (Com a mão na maçaneta da porta)
Tenha um ótimo dia.
CENA 05
INT.CASA DA SOFIA- DIA
5-1- PLANO GERAL
SOFIA (Narração)
Bom... aquilo era uma história e tanto. Louca o suficiente para contar para os filhos no futuro, eu sei.
Mas eu estava mais do que disposta a virar essa página e tentar, pelo menos tentar, seguir a minha própria vida e fingir que nada daquilo aconteceu.
Sofia se deita na CAMA com a seguinte narração de fundo:
SOFIA (Narração)
Me deitei na cama com um medo sincero do que ia acontecer naquela noite. Durante todas aquelas semanas, tenho sonhado com aquele estranho- que agora eu sei que se chamava Breno- sem saber quem, de fato, ele é, mas agora eu o encontrei, será que isso vai fazer alguma espécie de diferença? Céus, eu esperava mesmo que não.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Fechei os olhos, prestes a encontrar Breno e suas pinturas quando... o despertador tocou.
5-2 PLANO AMERICANO
O DESPERTADOR toca. Sofia se levanta da cama e olha ao redor.
SOFIA (NARRAÇÃO)
Meu quarto parece...normal. Meu quarto parece normal! Mal posso acreditar, eu não sonhei...com nada!
Corta para: INT- FACULDADE DA SOFIA- SALA DE AULA-NOITE
DENISE (Sorrindo)
Acho que isso merece uma comemoração.
MATIAS
O que você fez para os sonhos pararem?
SOFIA (Sorridente)
Ah, eu tenho meus truques.
Corta para: INT- CASA DA SOFIA- DIA
Sofia se aproxima do FORNO para tirar um BOLO de dentro dele quando a CAMPAINHA TOCA.
5-3 CLOSE EM SOFIA
SOFIA (Confusa)
Quem será que é?
5-4 PLANO AMERICANO
Sofia caminha até o OLHO MÁGICO e percebe que é Breno do outro lado da porta.
SOFIA (Murmurando)
Vou fingir que não tem ninguém em casa.
Sofia deu passos para trás até bater o cotovelo na forma quente do bolo, queimando-se. Sofia grita de dor.
5-5- CLOSE EM BRENO
BRENO:
Sofia?
5-6 CLOSE EM SOFIA
Sofia abre a porta, com o rosto vermelho e as lágrimas escorrendo os olhos:
5-7 PLANO AMERICANO
SOFIA (Envergonhada):
Doutor Martins...! O que....o que o senhor faz aqui?
SOFIA (Narração):
Era estranho me dirigir a ele como senhor, já que ele não parecia ser tão mais velho do que eu.
SOFIA (Narração):
Era estranho me dirigir a ele, de forma geral.
As coisas entre nós pareciam ser muito mais simples nos sonhos do que na realidade.
BRENO
Desculpe por incomodar, eu vi o seu endereço preenchido na sua ficha de cadastro e... você está bem?
Sofia assente com a cabeça, lutando contra a dor da queimadura.
SOFIA
Não é nada de mais! Eu...eu posso te ajudar com uma coisa?
BRENO
Não. Sim.
Breno balança a cabeça.
5-8- CLOSE EM BRENO
BRENO
Quer dizer... eu não sei.
5-9- PLANO AMERICANO
SOFIA (Confusa)
Não sabe?
BRENO (Baixo)
É que...eu...sonhei com você.
5-10- CLOSE EM SOFIA
SOFIA (Completamente surpresa)
O quê?
5-11- PLANO AMERICANO
BRENO (Envergonhado)
Você aparece nos meus sonhos. Você aparece nos meu sonhos todos os dias, desde que deixou o meu escritório.
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