Websérie de Anne Frank reconta história da autora do diário mais famoso do mundo através de uma ótica diferente.
Escrito por: Julia Segre Data: 06/09/2025 Atualizado em: 08/09/2025
Em 2019, em meio a uma pandemia global, muitos de nós sofremos com o lockdown. Isolados em nossas próprias residências, incertos de quanto tempo que teríamos de permanecer trancados até que fosse seguro sair novamente, a história de Anne Frank, garota judia que permaneceu dois anos escondida dos nazistas em um cômodo aos fundos da empresa de seu pai- ganhou um novo significado.
Mesmo em meio a todas as diferenças históricas e as implicações dadas a cada contexto, as situações também possuem suas semelhanças. O sentimento de angústia e solidão por estar isolada, a sensação de ver o mundo continuar a girar mesmo sem a nossa presença e o anseio de poder sair e aproveitar o sol um pouco também eram sentidos por Anne em seus momentos de privação, assim como a maioria de nós nos sentimos em meio a pandemia.
Essas semelhanças trouxeram um novo significado a história de Anne Frank para aqueles que já a conheciam, como eu, e também chamou a atenção daqueles que ainda não tinham conhecimento de sua história. Em 2020, a Anne Frank House anunciou o lançamento de uma webserie gratuita que contaria a história de Anne Frank de uma maneira completamente diferente e inovadora; E se Anne Frank mantesse uma câmera ao invés de um diário?
Anne Frank Video Diary foi uma Webserie exibida inicialmente no ano de 2020, contando com episódios semanais. Possuindo como idioma oficial o alemão, mas disponibilizando legendas em quinze idiomas, a minisérie de quinze capítulos está disponível no Youtube.
Estrelada por Luna Cruz Perez, a série com 15 episódios curtos (que juntos somam cerca de 1h30 de duração) aproxima a história de Anne Frank com os tempos atuais, substituindo os manuscritos originais por uma câmera e trazendo cada episódio no formato de vídeos curtos, criando uma ponte de comunicação com o público mais jovem, habituado a consumir conteúdo desta maneira.
Foto 01: Foto oficial da série Anne Frank Video Diary.
Como grande admiradora da história de Anne, posso dizer que a série trás de forma resumida, mas acessível, os acontecimentos históricos que são mencionados no diário. Iniciando a série com o momento em que Anne ganharia a sua "câmera" de presente e momentos com suas amigas até o momento de tensão onde ela deve se esconder com sua família, a primeira temporada de Anne Frank Video Diary faz um grande pulo temporal do ano de 1942 a 1944, comprimindo os acontecimentos do diário, mas ao mesmo tempo sem deixar de mencionar pontos importantes da história, como os conflitos que Anne tinha com os outros habitantes do Anexo, um dos assaltos que eles sofreram, a cooperação dos ajudantes para com eles e o romance dela com o jovem Peter Van Pels.
Foto 02: Anne ao lado de Peter na série Anne Frank Video Diary.
Um ponto muito positivo ao meu ver foi a proximidade retratada entre Anne e a ajudante do Anexo, Bep Voskujil. Como a mais nova dos ajudantes a ajudar a esconder os judeus escondidos, Bep era muito próxima de Anne, e compartilhava muitas coisas com ela.
Geralmente ocultada devido a sua personalidade introspectiva e sempre a sombra de Miep, que geralmente é o nome mais comentado quando o assunto é auxiliar a família Frank a se esconder do regime mais autoritário de todos os tempos, Bep acabou ganhando pouca relevância nos conteúdos adaptados a respeito de Anne Frank, como adaptações para séries, filmes e peças de teatro.
Parte disso se deve ao comportamento da própria Bep, que apesar de ter batizado sua única filha de Anne em homenagem a vitima mais famosa do holocausto, raramente falava sobre o assunto e não dava muita atenção a mídia. No entanto, ver essa proximidade sendo representada foi muito interessante, pois Bep aparece exatamente do jeito que ela é retratada nos diários e nas memórias de Anne; como uma amiga leal, que lhe trás roupas e sapatos, e que gosta de conversar sobre garotos, romances e filmes que estão estreando no cinema.
Foto 03: Anne e Bep em Anne Frank Video Diary.
O último capítulo da primeira temporada da série, com mais de dois milhões de visualizações, começa de maneira muito semelhante ao que imaginamos que deve ter acontecido naquele 04 de Agosto de 1944. Anne está em meio aos seus afazeres comuns, devaneando seus pensamentos para a câmera quando seus pensamentos são interrompidos: A Gestapo está no prédio. Eles foram descobertos.
Um silêncio pesado preenche a tela a medida que os passos altos dos nazistas são ouvidos, seguidos pelo choro e o desespero dos habitantes do Anexo que são obrigados a organizarem poucos pertences a fim de serem deportados. Conseguimos ver apenas os pés de Anne e de Fritz, que guardam poucos pertences dentro de suas bolsas, e assistimos, impotentes, ambos serem levados para um lugar de onde nunca retornariam.
Foto 04: Cena do último episódio de Anne Frank Video Diary.
No ano seguinte, em 2021, a Anne Frank House anunciou que uma segunda temporada seria disponibilizada no Youtube. Com uma proposta completamente diferente da anterior, a intenção seria concluir a história de Anne, contando exatamente o que teria acontecido após a sua prisão.
Em três episódios longos, o primeiro com quase meia hora de duração, a segunda temporada nos apresenta Anne em um casarão branco, quase como uma tentativa de se representar o paraíso. Nos primeiros segundos de vídeo, Anne se apresenta e informa: “Morri de tifo no campo de concentração de Bergen Belsen, em 1945.”
Foto 05: Anne Frank na segunda temporada da série.
Sem a câmera para acompanhar suas aventuras, Anne permite ao interlocutor que tenha acesso a sua mente a fim de concluir a história e entender como foram os últimos dias de Anne após ela ter sido capturada pela Gestapo no dia 04 de Agosto de 1944. A principal mudança que podemos perceber, além da atmosfera e do conteúdo de cada episódio, é a barreira linguística. A série, originalmente interpretada em alemão, passou a ser inteiramente reproduzida em inglês, gerando uma modificação da voz da atriz Luna Cruz Perez para a de uma dubladora.
Nesta temporada, conseguimos ter acesso a tudo o que acontece com Anne desde da deportação a Westerbork até seus últimos dias em Bergen Belsen, incluindo o seu reencontro com Hanneli Goslar, sua melhor amiga, que lhe passou, em duas oportunidades, comida por trás de uma cerca.
A série trabalha a teoria de que Anne supostamente desistiu de viver após ver Margot colapsar por conta da tifo. Sem sua mãe por perto, e acreditando que seu pai estava morto, Anne não teria mais motivos para continuar perseverando, conforme a própria Anne disse ao final da série, segundos antes da tela ficar totalmente preta: “Eu não podia continuar daquele jeito. Eu simplesmente não podia.”
A conclusão que tiramos é que Anne Frank Video Diary é uma webserie que foi criada em um momento extremamente oportuno, no qual as pessoas passaram a entender o que é estar em casa, ciente de que o lado de fora representa um grande risco. A forma como a história é contada- e a maneira como a narrativa é violentamente aprofundada na segunda temporada- nos dá um entendimento ainda maior a respeito da maneira como não apenas Anne Frank, mas milhões de outros judeus foram tratados durante a segunda guerra. A websérie, além de nos conscientizar a respeito, também nos dá recursos suficientes para passar a lutar para garantir que genocídios como este nunca mais ocorram novamente.
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