Trabalho mais recente da banda parece um resumo de todos os estilos construídos pelo grupo até então, com uma pitada adicional de crescimento e reconstrução.
Escrito por: Julia Segre Data: 28/07/2025 Atualizado em: 10/08/2025
Sendo
considerada uma das bandas mais relevantes do século 21 e com músicas que
atravessam gerações, o Linkin Park é muito conhecido por suas letras profundas.
que falam a respeito de feridas visíveis e invisíveis.
O grupo
estadunidense, que foi formado ao final da década de 90 e que teve uma ascensão
poderosíssima a partir dos anos 2000, vinha enfrentando um hiato desde o ano de
2017, marcado pela morte precoce de um de seus vocalistas, Chester Bennignton,
aos 41 anos de idade.
No mesmo
ano da morte de Bennigton, o Linkin Park lançava o One More Light, sétimo álbum de estúdio da banda, e o último a ser
colaborado por Chester Bennigton e Rob Bourdon, baterista da banda que não
retornou a ativa com os demais membros em 2024.
O disco,
que enfrentava duras críticas por seu ritmo demasiadamente pop acabou sendo completamente ressignificado dois meses após o seu
lançamento, com a morte de Bennignton. O álbum ficou eternizado como o último
trabalho realizado pela formação original da banda e a canção que dá nome ao
disco, One More Light, um verdadeiro
hino a memória do falecido vocalista.
(Vocalista Chester Bennigton, no ano de 2017, enquanto performava One More Light )
Após longos
sete anos em silêncio, lançando apenas algumas demos e trabalhos inacabados no
youtube, bem como algumas músicas já finalizadas que originalmente pertenceriam
a álbuns que já haviam sido publicados (Tais como Across the line e No roads left), o Linkin Park anunciou o
seu retorno, trazendo mudanças em sua formação, com Emily Armstrong nos vocais
e Collin Brittain assumindo a bateria.
(Nova formação do Linkin Park, com Emily Armstrong e Collin
Brittain)
As novas adesões ao grupo trouxeram também seus frutos e resultados; o álbum From Zero (Do Zero, em português) é o primeiro trabalho da banda americana após o doloroso hiato, e tem sido divulgado em uma turnê mundial há mais de um ano. Pretendemos, neste artigo, analisar faixa por faixa, a fim de entendermos de forma mais aprofundada e enriquecedora, a mensagem do grupo por trás de seu trabalho mais recente.
00. From Zero- Intro
É de conhecimento de todo fã de
Linkin Park o quanto a banda gosta de publicar instrumentais, introduzindo
neles muitas de suas ideias e sensações. A faixa inicial de From Zero é uma pequena sinfonia, que,
apesar de curta, serve como uma espécie de introdução ao que está por vir.
A banda trás, em meio a melodia
rápida, uma atmosfera de renovação quase cósmica, dando a entender que algo
está sendo interligado a fim de dar forma a algo novo. Enquanto isso, temos um
diálogo rápido entre Mike e Emily, onde a mais nova vocalista questiona: “From Zero?” é possível ouvir Mike confirmar o nome do
projeto logo na sequência. “Yes.”
Emily segue perguntando: “Like,
from nothing? “ (Tipo, do
nada?) esta pergunta é considerada
quase essencial se levarmos em consideração todo o contexto que a banda estava
no momento. Após o lançamento de seu
antecessor, que até os dias atuais divide opiniões e o anúncio de novo
vocalista após o trágico fim de Chester Bennington, a pergunta de Armstrong se
mostra extremamente relevante, quase uma dúvida geral; Do que se trata o From Zero, afinal? Começar de novo?
Procurar um novo sentido, uma nova motivação? Seguir com o sonho de continuar a
fazer novas músicas, mesmo depois de tudo o que passaram?
(Foto oficial
da banda )
É de total responsabilidade da banda
responder a cada uma das perguntas de seus ouvintes, fãs e críticos através das
faixas elaboradas para compor o primeiro trabalho da banda mais importante do
século vinte e um após sete longos anos de hiato.
01. The Emptiness Machine
Primeiro single do grupo, portanto,
canção que marca o seu retorno, The
Emptiness Machine é uma canção que
desde o princípio chamou muito a atenção pelo “resgate” a identidade do que
seria o som tradicional da banda, trazendo, ao mesmo tempo, as inovações
marcadas pela voz de Emily nos vocais.
Com um videoclipe que exibe cada
integrante da nova formação de maneira separada em meio a um cotidiano
individual, a canção se refere ao peso de viver em meio a frustração de perder
a sua essência em prol de algo ou de alguém que não é capaz de lhe preencher
por inteiro.
A “máquina do vazio” gerou muitas
controversas e teorias para os fãs empolgados com o retorno estrondoso do
grupo. Muitos comparavam a letra com a teoria da modernidade líquida, proposta
por Zygumunt Bauman, na qual se defendia a tese de que as coisas eram
“líquidas”, ou seja, finitas, e que nada na atual sociedade é construído ou
pensado para durar a longo prazo, enquanto outros apontavam que a canção falava
sobre a Internet de maneira geral, um ambiente outrora acolhedor, mas que tem
se tornado cada vez mais hostil, onde milhares de pessoas atacam umas as
outras, aguardando uma falha para serem enfim capazes de criticar de forma
ferrenha e aberta, teoria que poderia ser comprovada pelo trecho: “Don’t know why i’m hoping for what i won’t
recieve.” (Não sei por que espero
por algo que não vou receber) .
Mike Shinoda participou de algumas
entrevistas, nas quais ele procura explicar um pouco da mensagem a ser
espalhada pela composição. Os símbolos religiosos usados na segunda estrofe da
música seriam para simbolizar a devoção cega a sistemas que esvaziam o
indivíduo. “’Cause there’s a fire under the altar, i
keep’on lying to, i keep’on lying to.” (Por que há
um fogo embaixo do altar, e eu continuo me deitando, eu continuo me deitando.)
(Desenho de
Mike Shinoda no clipe de The Emptiness Machine)
No clipe, a reunião dos membros da banda- de forma
quase heroica, quase como uma “convocação” , logo dá lugar a uma porção de
imagens pixeladas, que sugerem a perca da identidade descritas após se entregar
para a máquina do vazio.
(Membros
pixelados no videoclipe)
Outro momento interessante no
videoclipe é o momento onde a nova vocalista Emily Armstrong discute com seu
próprio reflexo na parede, sugerindo um embate entre quem ela se tornou e quem
ela deixou de ser, ou seja, o que ela teve que sacrificar ao longo do caminho,
(Emily
discutindo com seu próprio reflexo no espelho)
02. Cut The Bridge
Faixa seguinte de The Emptiness Machine e considerada por muitos uma continuação dela, Cut The Bridge é uma canção que narra sobre o fim de uma relação tóxica e abusiva.
O "clipe" da canção nada mais é do que um visualizador de imagens pixeladas, que parecem se reconstruir umas nas outras, fazendo um caminho inverso do apresentado em The Emptiness Machine.
(Comparação entre as imagens pixeladas de Cut The Bridge e The Emptiness Machine)
A letra narra sobre a constante sensação de viver esperando o próximo conflito, onde o emissor percebe, em meio a todo o ambiente de tensão, que tais situações são sempre manipuladas para acontecerem, uma espécie de armadilha na qual o eu lírico já se cansou de cair ou tentar escapar.
Trechos como: "You're too ignorant to fail, i can't look you in the eye." (Você é muito ignorante para falhar, não consigo te olhar nos olhos) e "Actin' like the truth and your opinion are identical" (Agindo como se a verdade e a sua opinião fossem idênticos) demonstram essa insatisfação do emissor ao perceber os comportamentos padronizados da pessoa com a qual ele se relaciona, em meio a uma eterna discussão sobre as mesmas falhas e deficiências, sem chegar, de fato, a uma solução definitiva
Com um refrão forte e intenso, a frase: "Cut the bridge we are" (Corte a ponte em que estamos) é muitas vezes interpretada e traduzida de forma literal, tal como "Corte o laço que temos". O símbolo da "ponte", construção sólida feita para interligar duas ou mais regiões, sendo derrubada representa a vontade de se encerrar esta relação, a fim de se afastar de todos os julgamentos e críticas da pessoa com a qual o emissor se relacionava.
Perfeita para shows, Cut The Bridge é uma canção que fala, em suma, sobre criar a coragem de se libertar de tudo aquilo que te faz mal.
03. Heavy Is The Crown
Com habilidades vocais impressionantes e passíveis de comparação com a clássica música Given Up, devido ao scream de 16 segundos protagonizado por Armstrong, Heavy Is The Crown é uma das faixas mais populares do From Zero por diversos motivos.
Parceria direta da banda com a Riot, responsável por criar e desenvolver material relacionado ao jogo League Of Legends, a canção foi tema do campeonato mundial do game em 2024, e contou até mesmo com uma performance ao vivo da banda na grande final, que aconteceu no dia 02/11/2024 na arena O2, no Reino Unido.
(Banda performando Heavy Is The Crown na final do campeonato de League Of Legends, em 2024 )
Inspirada na famosa frase de William Shakespeare:"Inquieta jaz a cabeça que usa a coroa." , e na trajetória pessoal da personagem Caityln Kiramman, a música é um retrato das pressões e conquistas de alguém que busca liderança ou destaque em ambientes altamente competitivos.
A música também toca na série da Netflix Arcane, porém em uma versão mais suave, em uma cena onde a personagem Caityln resolve assumir o seu papel como líder da casa Kiramman após a morte de sua mãe ao final da primeira temporada.
(Cena de Caityln assumindo a responsabilidade de sua família na série Arcane.)
Tal personagem é conhecida por sua mudança radical de um arco da história para o outro, o que parece contribuir para que ficção e realidade passem a se misturar. Ao mesmo tempo que Caityln tenta descobrir o seu legado e levá-lo adiante, a banda parece buscar exatamente a mesma coisa em meio ao cenário musical.
O trecho: "This is what you ask for, heavy is the crown" (Isso é o que você pediu, pesada é a coroa) pode servir de interpretação para a situação da própria Emily como nova vocalista do Linkin Park, que havia sido liderado tantos anos por Chester Bennigton. Ciente da pressão e das altas expectativas, a nova vocalista deve assumir a responsabilidade de ajudar a escrever essa nova fase da história do grupo.
O vídeoclipe da canção é em formato de animação, trazendo muitas referências ao jogo e a série, o que rendeu muitos comentários positivos a respeito da imersão da banda no universo desenvolvido pela Riot, além de trazer diversas representações de jogadores profissionais já reconhecidos pela comunidade, incluindo Brance, representando a região do Brasil, um ponto extremamente positivo para os fãs nacionais da banda.
(A banda, retratada no videoclipe animado de Heavy Is The Crown)
Em suma, o clipe narra Faker como um rei recém coroado que luta para manter o seu posto diante da invasão de seus inimigos obstinados para tomar o seu lugar. O jogador foi homenageado devido a sua última vitória no mundial anterior, o que dá a entender que a canção não é apenas sobre conquistar o topo, mas também sobre se manter nele.
(Jogador Faker retratado no videoclipe)
04.Over each other
Over Each Other é o terceiro single do álbum e a primeira canção que conta apenas com os vocais da nova vocalista da banda Emily Armstrong.
Quebrando um pouco a agitação das primeiras canções apresentadas no inicio do trabalho, Over Each Other é uma balada que fala sobre relações desgastadas, caracterizadas especialmente pela falta de empatia e comunicação.
(Cena do videoclipe de Over Each Other)
Com um videoclipe que se passa na Coreia do Sul, narrando um acidente de carro e contando com um surpreendente final, a letra reforça a relação já ilustrada no clipe escrito e dirigido por Joe Hahn, DJ da banda desde a sua formação; a música fala sobre duas pessoas que se importam profundamente uma com a outra, mas que são incapazes de se dar bem.
(Acidente de carro retratado em Over Each Other)
Apresentando um tipo diferente de técnica vocal, Emily demonstra um timbre forte e frágil ao mesmo tempo, que parece captar a verdadeira essência da canção; tanto o cansaço das discussões presentes no dia a dia do relacionamento quanto a vontade de mudar a situação parecem estar presentes e em sincronia diante da música e do videoclipe que a representa.
(Cena do videoclipe de Over Each Other)
A lição que podemos tirar desta canção é o conflito interno de estar se vivendo em uma relação que precisa ser remendada o tempo inteiro, onde nenhuma das duas partes quer ceder, muito menos abrir mão.
05.Casuality
Com uma agressividade muito presente
em sua letra e em sua melodia, Casualty
é uma canção que remete aos tempos de rock mais pesados da banda, se
contrastando completamente com Over Each
Other, a sua antecessora.
Em meio a uma potente performance de
Armstrong, mostrando aos fãs a versatilidade de sua voz, algo que acompanha
diretamente os diferentes estilos de música que a banda se propõe a produzir, a
música é um manifesto intenso de dois minutos; um verdadeiro grito de protesto
contra a opressão e a manipulação.
Performada diversas vezes em shows,
os fãs passaram a observar uma certa "preferência" de Emily ao entoar essa canção, e logo passaram a criar
conexões entre a letra da música com a trajetória pessoal da própria artista,
uma vez que sua mãe é Emily, membro um
importante membro da cientologia, religião que mistura o cristianismo com
elementos místicos ocidentais e de ficção cientifica. A fé cientológica é
altamente conhecida por ser uma seita manipuladora e com condutas éticas dignas
de longos debates e controvérsias.
(Emily
performando Casualty ao vivo)
Casualty- "Vítima" em
português, poderia ser uma rejeição a Religião de hollywood e todos os seus
dogmas. Trechos como: "Stop
tellin’me you’re something you’re not, i can see the greed right in your
eyes" (Pare de me dizer que você é algo que não é, eu posso ver a
ganância nos seus olhos” e "I know
all the secrets you keep " (Eu sei todos os segredos que você guarda)
podem evidenciar essa ideia.
Seja ligada a cientologia ou não,
esta canção demonstra, em sua forma mais pura e direta, o sentimento de
descontentamento diante de uma situação de autoridade e manipulação,
desencadeando o sentimento de revolta e o desejo de se ter a liberdade.
06. Overflow
Com um ritmo que transita entre os
álbuns Living Things e A Thousand Suns, Overflow é,
provavelmente, a canção mais estética do From
Zero.
Apresentando em seu visualizador um
clipe estético, contendo contrastes de estátuas construídas em preto e branco,
que parecem ilustrar o dueto que Mike e Emily fazem na canção, a música fala a
respeito o contínuo acúmulo de pressões vivenciadas por alguém que está prestes
a romper completamente com qualquer espécie de controle.
(Contraste
preto e branco presente em Overflow)
Em meio a uma crítica a facilidade
que o ser humano possui em optar por escolhas destrutivas- e a linha tênue que
existe entre escolher o conflito ou permitir que esse conflito o destrua
completamente- a letra também narra a busca pela resolução deste conflito em
meio a um futuro incerto.
Repleta de metáforas e de antíteses
como luz e sombra, bem e mal, buraco negro e céu branco, a ideia de Overlfow “transborda” em uma linha muito rica de
referências visuais e sonoras, como no momento em que a vocalista admite que
está transbordando e a imensidão preto e branco se transforma em algo lilás,
representando a falta de harmonia entre o bem e o mal.
(Tonalidade
roxa presente no vídeo oficial de Overflow)
Cantando em
três tons diferentes e com a participação de Mike, que demonstra, em meio a
toda a mudança e o conflito interno proposto pela música um sentimento de
apatia diante da situação, como no trecho: “It’s
all the same to me” (É tudo o mesmo para mim), a banda busca trazer uma
mensagem complexa, quase decodificada, aos seus fãs, apresentando a eles um meio termo entre os
dois polos extremos do álbum, um verdadeiro ponto de conexão entre o rock mais
pesado e o som mais alternativo e comercial que o Linkin Park solidifica entre
a mensagem central de seu trabalho mais recente.
08.Two Faced
Muito elogiada por críticos e uma das
queridinhas dos fãs, tanto antigos como novos, Two Faced foi o quarto single do From Zero e definitivamente
o que fez mais sucesso, superando até mesmo a canção que marcou o retorno da
banda a ativa, The Emptiness Machine.
Possuindo uma similaridade muito
grande com One Step Closer e com instrumentais extremamente próximos ao
famoso Hybrid Theory, Two Faced é uma canção de rock pesado, com uma letra
representa de acusações a respeito de alguém que manipula a situação a ponto do
eu lírico não conseguir se sentir capaz de organizar os próprios pensamentos-
ideia evidenciada ainda mais na ponte da música e no começo dela, onde é
possível ouvir um áudio ao contrário com a frase tão repetida ao longo da composição:
“I can’t hear myself think” (Eu não consigo ouvir meus pensamentos)
A canção serviu para reafirmar o
estilo de composição já conhecido e
defendido pela banda ao longo dos anos, capaz até mesmo de impressionar os mais
críticos e céticos a respeito da adição da nova vocalista.
(Foto de
Emily no clipe Two Faced)
O clipe ajuda a ilustrar um pouco da
sensação que o eu lírico tem de estar encurralado em uma situação sem lados
claros e também auxilia a dar palco para a atmosfera de tensão que Armstrong
canta e Mike sugere em meio ao seu rap, com todos os membros da banda vestindo
ternos elegantes, o que poderia simbolizar o desconforto, enquanto se
posicionam em frente a câmera, quase que intimidando o seu telespectador.
(Imagem de Brad próximo a câmera do vídeoclipe)
Com um tom de alerta e com um dueto que anuncia que a verdade sempre vem a tona, Stained possui, assim como a sua antecessora, Overflow, um contraste preto e branco, porém com uma ideia totalmente diferente da outra canção; os tons escuros ilustrariam a ideia da "mancha", tão mencionada na letra da canção.
(Representação de um “coração manchado” no vídeo oficial de Stained)
Mais uma vez, testemunhamos a sincronia dos vocais de Mike e Emily, seguindo a lógica clássica da banda, mas ao mesmo tempo com um ritmo mais voltado para os seus trabalhos mais recentes, reforçando ainda mais a ideia de que o From Zero é, na verdade, um compilado de todas as sonoridades já trabalhadas pelo grupo, mas ao mesmo tempo que trás elementos já conhecidos, trás também novidade e inovação.
O significado de “estar manchado" proposto pela música é a opinião de que mentiras não podem ser capazes de comprar uma consciência limpa. Enquanto desafiam o seu interlocutor a assumir as consequências do que fez, a banda vai retratando em sua canção a respeito da dificuldade de esconder os danos causados por erros graves, e reflete sobre como essa atitude acaba se tornando totalmente inútil quando o assunto são feridas profundas.
Deixando bem claro que certos atos deixam marcas que não podem ser apagadas, mesmo com tentativas de negação ou fingimento de inocência, a banda reforça essa mensagem em trechos como: "Pretend you're spotless, but i don't wash away" (Finja que está impecável, mas eu não vou lavar, trecho que dá a entender que o eu lírico não está mais disposto a fingir normalidade, embora seu emissor insista em manter as aparências) e “You realize you had it coming" (Você vai perceber que foi merecido).
A repetição do verso de Mike: "What you forget you're gonna repeat" (O que você esquece você vai repetir), sugere que o arrependimento tardio não significa inocência, muito menos muda o resultado final, uma vez que certas situações só se perpetuam por que permitimos isso.
10. IGEIH
IGYEIH- Abreviação para I Gave You Everything I Had (Eu te dou tudo o que tenho) é uma canção que fala a respeito de uma relação caracterizada pelo esforço de apenas uma das partes, enquanto a outra se limita a controlar a situação por trás dos panos.
Com os vocais intensos de Emily e os versos propositalmente repetidos na estrutura da composição, a música mostra a ruptura desta situação, a medida que o eu lírico se cansa da rotina que vivencia, se livrando da culpa por saber que fez tudo o que pôde, mas que ainda sim não foi o suficiente. Trechos como: "I'm not the enemy you make me out to be " (Eu não sou o inimigo que você me faz parecer) e "I'm so tired of this wishful thinking " (Eu estou cansada desse pensamento positivo) sugerem essa mudança de pensamento que vai sendo construída ao longo da canção.
(Foto promocional da banda)
Já outras partes, como "Forgotten doesn't mean forgiven this time" (Esquecer não significa perdoar dessa vez) parecem ilustrar o limite da tolerância e da paciência do eu lírico, que de repente se vê independente, percebendo que pouco adianta tentar arrastar alguém para frente quando a pessoa ainda insiste em olhar para trás.
A ponte da música, bem como a finalização da mesma, com a repetição de: "From now on, i don't need you" ilustra muito bem essa ideia, e a decisão tomada pelo eu lírico ao final da canção.
11. Good Things Go
Balada que fecha a edição comum do From Zero e a preferida de muitos fãs, Good Things Go é uma canção que fala abertamente sobre vulnerabilidade.
A letra, que retrata a coragem em admitir falhas e deslizes na frente de pessoas tão importantes e queridas explora, juntamente com seu instrumental marcante, a dificuldade de se manter relações próximas em meio a conflitos emocionais.
Assumindo a culpa em versos como: "It's hard do laugh when i'm the joke" (É díficil rir quando a piada sou eu) e "And i won't make excuses for the pain i caused us both" ( E eu não vou inventar desculpas para a dor que eu causei a nós dois) só ilustram a intensidade da canção, em meio a colaboração de Mike e Emily, cujas vozes se contradizem e se complementam ao mesmo tempo ao longo da canção, criando uma sensação agridoce de contraste e compreensão em meio a uma relação turbulenta de duas pessoas que entram em conflito por uma querer ajudar enquanto a outra se sente culpada pela falta de sinceridade.
(Mike e Emily, as vozes protagonistas em Good Things Go)
12. Up From The Bottle
Primeiro single da edição deluxe do From Zero, Up From The Bottle é uma canção marcante que fala a respeito de conflitos internos e externos.
Com um videoclipe rico em referências e interpretações, dirigido por Joe Hahn, a canção fala a respeito da luta contra forças negativas, sejam elas internas ou externas. Trechos como "You put up to keep me down" (Você me esforça para me derrubar) e "As i realize there's no one else to blame" (Enquanto me dou conta que não há ninguém para culpar) reforçam essa ideia de que a canção não apresenta uma única narrativa a ser retratada ao longo de seus três minutos e quatro segundos de duração.
(Collin representando seu personagem no videoclipe, um presidiário.)
No vídeoclipe, reproduzido em mais de trinta milhões de aparelhos, cada integrante da banda se encontra em uma situação complexa, o que abre um leque muito grande de interpretações sobre o que seria o "beco sem saída" , tão mencionado na letra da canção.
Os efeitos intensos e o refrão marcante, seguido da finalização: "Gotta get out of here" (Preciso sair daqui) demonstra a vontade que o eu lírico sente de se libertar da situação em que se encontra, e é nesse momento que o videoclipe, mais uma vez, chama a atenção, pois também conecta os múltiplos sentimentos de libertação trabalhados em meio aos conflitos que cada integrante parece representar.
(Mike em frente a um edifício de concreto.)
Collin Britain aparece como um presidiário, e encontra a sua liberdade em um livro que aparece ao final do videoclipe em sua cela, o que nos faz inferir que a liberdade não precisa necessariamente ser apenas física, como também mental. Brad Delson aparece em meio a uma sala repleta de televisivos, e parece se libertar nos segundos finais do videoclipe, colocando as mãos na cabeça e se permitindo ter o inicio de uma reação de descontrole emocional, segundos antes da tela ficar totalmente preta, encerrado o videoclipe.
(Última aparição de Brad no videoclipe)
Alguns momentos antes, Mike Shinoda aparece em frente a um grande edifício de concreto, permanecendo preso ali até içar uma grande corda que poderia ajudá-lo a sair daquela situação. Já baixista Dave Farrell se encontrava amarrado em uma camisa de força para, em seguida, ser colocado dentro de uma caixa, que pode simbolizar o aprisionamento de sua própria mente. Sua libertação acontece quando a caixa, antes içada por cordas de ferro, é derrubada.
(Caixa caindo junto ao chão.)
Ao mesmo tempo, o DJ e também diretor do clipe Mr.Hahn aparece logo nos primeiros instantes do vídeo, em uma situação de apatia por conta de uma doença que parece consumi-lo aos poucos. No final da canção, alguma força parece ser capaz de puxá-lo para fora do sofá, quase como se seu corpo tivesse conseguido encontrar energia para sair daquela situação.
(Joe se libertando aos segundos finais do vídeo.)
Por fim, a vocalista Emily Armstrong é mostrada amarrando uma bandana em seu rosto, em um verso específico: "Bristilling, listening to you" (Estremecendo ao ouvir você ) o que dá a entender que este acessório se refere a opressão que a sua personagem poderia estar passando no vídeoclipe. A forma como Armstrong abre os braços em direção a uma quantidade considerável de polícias armados com escudos e porretes, segundos depois de retirar o pano que supostamente a silenciava, fez com que muitos fãs acreditassem que aquela era a reação da própria Armstrong as críticas negativas ao seu trabalho, e as comparações inevitáveis que os críticos faziam em relação a ela e a Chester Bennigton, o antigo frontman da banda.
(Emily Armstrong no videoclipe de Up From The Bottle)
Com uma letra e um vídeoclipe repletos de metáforas e significados, Up From The Bottle pode ser considerado um dos maiores sucessos do álbum, constantemente comparando aos seus antecessores The Emptiness Machine e Heavy Is The Crown.
13. Unshatter
Marcada pela intensidade da voz de Emily e os acordes que remetem ao som do Dead Sara, a faixa Unshatter é um protesto intenso de ruptura e reconstrução pessoal em meio a desilusão.
Ao começar afirmando: "We'll never ever put it back together" (E nós nunca vamos conseguir juntar tudo de novo), o eu lírico parece saber da situação que o rodeia e procura, apesar disso, recuperar aquilo que foi perdido, tal como ouvimos no inicio do refrão: "Unshatter the picture i was tryna see myself in" (Reconstrua a imagem em que eu tentava me ver).
(Foto promocional da banda durante anúncio da nova música, Unshatter)
Mas há uma dualidade de sentimentos presentes na música, mesmo diante de uma temática tão complicada. Ao mesmo tempo que o narrador está desiludido com a situação e assume a culpa: "Maybe i made more complicated than it had to be" (Tavez eu tenha complicado mais do que precisava ser), também passa a perceber que há uma certa manipulação por parte das ações e atitudes da outra pessoa. "You just truned the tables and made my right to a new wrong" (Você só virou o jogo e transformou o meu acerto em um novo erro).
Ambos os pontos de vista retratados chegam ao seu climáx com a ponte da música, em meio a intensidade da voz de Emily que brada como um trovão, repetidamente: "You don't know me, you don't know me, i don't owe you anything, go" (Você não me conhece, você não me conhece, eu não te devo nada, vá embora), trazendo ainda mais ênfase nesse sentimento de libertação e reconstrução proposto pela canção.
14. Let You Fade
Faixa final
do álbum From Zero e também seu
título mais recente, Let You Fade
surpreendeu a grande maioria de seus ouvintes, e é considerada, por muitos, uma
forma de homenagear Chester Bennigton.
A canção,
que aborda abertamente a questão da resiliência em meio ao luto, e a
perseverança em manter laços que são ameaçados com o passar do tempo, é também
considerada uma espécie de resposta a famosa canção Leave Out The Rest, que assim como outras faixas do grupo, passou a
adquirir um significado diferente após a morte de Bennigton.
(Chester Bennigton, antigo vocalista do Linkin Park)
A repetição
do verso: "I won't let you
fade"(Eu não vou deixar você desaparecer) na voz de Armostrong denota
uma espécie de promessa, quase como se a vocalista deixasse implícito que o
papel e a importância de Chester no grupo jamais iria desaparecer.
Conclusão
O From
Zero foi, de maneira geral, um
projeto muito bem aceito pelos fãs e também por críticos. O álbum alcançou a
posição mais alta das paradas musicais em quinze países, incluindo Estados
Unidos, Inglaterra, Alemanha, Austrália, França e Portugal.
O trabalho foi considerado uma
verdadeira síntese de todo o trabalho já construído pela banda até então,
trazendo inovação para o novo capítulo que a banda está passando, e ao mesmo
tempo mantendo a sua essência, o que pode ser reconfortante para os fãs de
longa data e ao mesmo tempo convidativo para novos usuários e adeptos.
(Linkin Park
recebendo o prêmio de “Álbum de Rock do Ano” pela IHeartRadio Music Awards)
O compilado de novas canções levantou
uma verdadeira discussão sobre o que seria a verdadeira essência de sua banda,
e se seria justo resumi-la única e exclusivamente a presença de seu vocalista.
A banda também foi reconhecida pela
mídia em seu último trabalho, tendo sido premiada pela IHeartRadio Music
Awards, com o From Zero sendo reconhecido como “Álbum de Rock do Ano”.
O single The Emptiness Machine também foi premiado como “Música de Rock
Favorita” do American Music Awards, além de serem indicados para a categoria de
“Artista de Rock Favorito”.
(Mike e Emily
“brigando” pela premiação)
A premiação da rádio americana também
proporcionou um encontro muito agradável aos fãs de Rock, uma vez que os
caminhos de Linkin Park se encontraram com os do Green Day, que também saiu
premiada naquela mesma noite, levando o troféu de “Artista revelação do ano”.
A banda punk americana também estava
retornando após um período de hiato no ano de 2024, proporcionando uma
verdadeira conexão entre o período que ambas as bandas- já amadurecidas e com
uma base sólida de fãs- vinham enfrentando, juntamente com os novos desafios
para se reafirmar na indústria musical.
(Registro do
encontro entre os integrantes do Linkin Park e do Green Day)
Apenas o futuro vai dizer se o Liniin
Park conseguirá, em sua nova formação, permanecer relevante para as novas
gerações da mesma maneira que tem feito desde a sua poderosa ascensão, no inicio dos anos 2000. Enquanto aguardamos pelos próximos capítulos, é inegável
dizer que a banda norte americana conseguiu realizar um retorno triunfal, com
um álbum que excedeu expectativas e conseguiu capturar a verdadeira essência da
banda, que reúne milhares de fãs apaixonados ao redor do mundo.
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