Imersiva, emocionante e essencial; Minha experiência visitando a exposição Anne Frank- Deixem-nos ser.

Por: Julia Segre    Data: 15/08/2025  Atualizado em: 17/08/2025

Uma das figuras mais importantes da Segunda Guerra Mundial e símbolo do Holocausto, Anne Frank foi uma jovem judia que nasceu em 1929, e é mundialmente conhecida por ser a autora do diário mais famoso de todos os tempos, o Diário de Anne Frank.

 


(Fotografia de Anne Frank, autora do diário mais famoso do mundo.)


 


A obra relata a experiência da adolescente e o seu dia-a-dia escondida dos nazistas em um esconderijo clandestino, de nome Anexo Secreto. Anne se escondeu da perseguição nazista ao lado de seus pais e sua irmã mais velha, juntamente com a família Van Pels e o dentista Fritz Pfeffer.


 


(Moradores do Anexo Secreto, organizados na seguinte ordem: Hermann Van Pels, Auguste Van Pels e seu filho Peter, Anne e Margot Frank centralizadas, seguidas por Otto Frank, Edith Frank e o dentista Fritz Pfeffer.)



Anne e sua família conseguiram permanecer escondidos durante dois anos e meio, até serem descobertos no dia 04 de Agosto de 1944, devido a uma ligação anônima, cuja autoria ainda é investigada, debatida e contestada até os dias atuais.

A adolescente judia e sua família foram levados para Westerbork, e depois foram enviados no último trem rumo a Awschivitz.

De todos os habitantes do Anexo, apenas Otto Frank, o pai de Anne, conseguiu sobreviver a guerra. Após retornar e receber a triste notícia de que suas filhas jamais fariam o mesmo, Miep Gies, sua secretária pessoal e também funcionária de sua empresa, que ajudou Otto e sua família a se manterem seguros no esconderijo, entregou a ele uma porção de folhas soltas juntamente com o caderno xadrez de capa vermelha; o diário de Anne.



(Foto de Otto Frank após a guerra)



A jovem aspirava em se tornar uma grande escritora, e se inspirou em um anúncio da Rei da Holanda feito através da rádio para começar a reunir os seus manuscritos e torná-los um verdadeiro testemunho sobre o que seria viver na clandestinidade.

Apesar disso, o diário de Anne vai muito além das questões que existiam entre os judeus e o povo alemão, e o contexto histórico em que está situado. Considerado clássico, a obra é uma verdadeira carta aberta a humanidade, repleta de revelações, anseios e pensamentos de uma garota que tinha apenas treze anos quando começou a compor aquelas cartas e que, aos quinze, finalizou definindo a si mesma como um "Feixe de contradições".

A profundidade e a vivacidade da escrita de Anne atravessaram fronteiras, países e gerações, e sua vida ainda é tema para diversas séries, filmes, documentários e peças teatrais.

Com um testemunho forte o suficiente para tocar qualquer pessoa em qualquer região do planeta, o diário de Anne Frank, bem como a sua pessoa, se tornaram um legado global que nos faz refletir até que nível o ódio e o ressentimento humano podem chegar.

A Anne Frank- Deixem nos Ser é a primeira  exposição sobre a vida e a obra de Anne Frank no Brasil. Anteriormente apenas mencionada como parte dos nomes célebres da comunidade judaica, a jovem autora passa a ter seu próprio espaço, dedicado única e exclusivamente a sua breve, mas marcante vida.


                              

 

(Foto oficial da exposição Anne Frank- Deixem-nos ser)


 


A exposição aconteceu por iniciativa da Unibes Cultural, localizada em sua unidade da Óscar Freire, logo ao lado da Estação Sumaré, linha verde do metrô de São Paulo, e seu sucesso e popularidade foram tão grandes que a mostra foi estendida por uma temporada extra.

A primeira delas ocorreu em 2024, sendo inaugurada no dia 03 de Agosto, e permanecendo em exposição até o dia 22 de Dezembro. Os ingressos custavam R$15 (Inteira) e R$7,50 (Meia Entrada), mas o evento também possuía tickets gratuitos as sextas-feiras, com a única exceção de se ter a necessidade de realizar um agendamento prévio através do site da instituição.

A exposição funcionava todos os dias, incluindo finais de semana e feriados. De segunda a sexta, a mostra ficava aberta ao público das 13h30 ás 20h, enquanto aos sábados, domingos e feriados, o horário de funcionamento ia das 11h ás 20h.

A segunda temporada da exposição aconteceu de 25 de Janeiro de 2025 até o dia 27 de Abril, ocorrendo exatamente no mesmo lugar da mostra anterior. Os ingressos, dessa vez, custavam R$20 (Inteira), o que consequentemente alterou o preço da Meia Entrada para R$10. Ainda sim, os ingressos de sexta-feira permaneceram gratuitos mediante reserva no site.

Com objetos cedidos diretamente pela Anne Frank House, em Amsterdã e com a estrela amarela de Nanete Konig, as minhas expectativas, como fã de carteirinha de Anne e de sua história pessoal desde de os tempos de ensino médio estavam altíssimas, especialmente por se tratar do primeiro grande evento para falar exclusivamente sobre Anne Frank aqui no Brasil.

Minha visita aconteceu no dia 09/08/2024, a primeira sexta feira gratuita do evento. Ao chegar na Unibes, um local de facílimo acesso, a primeira coisa que fiz ao chegar na recepção foi pedir para a atendente permissão para levar meu exemplar do diário comigo, a fim de acompanhar a exposição lendo os trechos escritos por Anne. Meu pedido foi negado de forma gentil, o que mais tarde nem se tornou um motivo para lamentação, conforme contarei a vocês mais adiante.




(Banner posicionado em frente a entrada da Unibes durante o período em que a exposição estava ativa)


Após guardar meus pertences no guarda-volumes, ganhei um adesivo circular para pregar na roupa com o rosto da Anne. Fazia um frio intenso no dia, e eu logo fui conduzida para o um elevador, rumo ao primeiro andar do prédio.




(Adesivo da exposição da Anne Frank)


 

Ao chegar do lado de fora, tive que respirar fundo para conter as lágrimas- esforço que acabou se tornando completamente vão, uma vez que eu acabei passando todo o restante da exposição soluçando, emocionada com o tamanho da fidelidade e da profundidade da exposição, digna da figura de Anne Frank e de tudo o que ela representou para a humanidade.

A delicadeza das artes que foram expostas naquele dia pareceu roubar o meu ar por um momento; as paredes eram completamente decoradas com diversas fotos de Anne, e ao adentrar o ambiente, somos imediatamente informados que Anne não sobreviveu a segunda guerra mundial, o que só aumenta o peso e o significado da mensagem que Anne deixou ao mundo.

 


(Cortinas da exposição Anne Frank: Deixem-nos Ser.)


Na sequência, somos recepcionados por cômodos extremamente parecidos- pra não dizer idênticos- com aqueles que ilustram os ambientes do Anexo Secreto.

Todos os detalhes descritos no livro por Anne, e também por depoimentos dos ajudantes de Otto estão presentes ali, desde as estrelas de cinema que Anne costumava colar na parede de seu quarto, até os riscos sutis no canto da parede, marcados por Otto, que acompanhava o crescimento de suas filhas.

Estava tudo ali- absolutamente tudo- nos transportando diretamente para aquela época não tão longínqua, quase como se fôssemos parte do numeroso grupo de turistas que visitam a Anne Frank House todos os anos em Amsterdã.


 

(Réplica da famosa escrivaninha, local onde Anne costumava se sentar para atualizar seu diário.)


Como mencionei, o diário acabou não fazendo tanta falta no final das contas, uma vez que a exposição também contava com textos lidos do diário em voz alta, que nos contextualizavam ainda mais dentro da história de Anne, garantindo a nós uma experiência ainda mais imersiva dentro de todo o contexto de estar na pele de um judeu escondido dos nazistas em plena Segunda Guerra Mundial.



(Tabuleiro, muito mencionado por Anne como uma das maneiras que os residentes do Anexo tinham para passar o tempo.)



Depois de visitar o primeiro andar, fui até o térreo, onde ficava um ambiente exclusivo para ambientação. Apesar de não ser focado na Anne em si, eu achei extremamente necessário por parte da curadoria em incluir aquele tipo de espaço, uma vez que para entender por que Anne e sua família foram, assim como tantos outros, assassinados durante a Segunda Guerra mundial, é necessário entender por que eles tiveram de se esconder, em primeiro lugar.




(Placa hostil aos Judeus, presente na exposição.)



O lugar é intimidador, cada texto, placa e objeto parecendo entender por que está ali e qual é o seu papel em meio a toda a contextualização.

Os dizeres ofensivos que estavam pregados em frente a estabelecimentos públicos, como comércios, escolas e parques, bem como a réplica da estrela amarela fornecida pela sobrevivente Nanete Konig, amiga de Anne Frank que hoje reside em São Paulo e fala português fluentemente, nos faz ter uma leve ideia do tipo de discriminação que o povo judeu estava sofrendo naquela época.




(Fotografia da Estrela Amarela de Nanete Konig, cedida especialmente para a exposição.)



No entanto, o ponto alto do andar térreo foi a enorme fogueira que foi organizada, simbolizando a Noite dos Cristais, evento que ficou conhecido pela queima, danificação e destruição de centenas de sinagogas judaicas, destruindo dezenas de obras, muitas consideradas até mesmo sagradas, cujos autores foram banidos do país até o final da Segunda Guerra.




(Lareira que representa a Noite dos Cristais.)

 

Embora seja falsa, a estrutura da fogueira chama a atenção, além de emitir uma espécie de calor ao expectador que ficasse por muito tempo ali.

Mas assim como todas as demais coisas, a visita a exposição de Anne Frank não foi perfeita. Não apenas eu, como também outras pessoas foram informadas que os visitantes deveriam subir ao terceiro andar pois haveria uma "surpresa" no local.

Meu palpite principal, naquele momento, é que o terceiro andar havia sido reservado para ilustrar exclusivamente o sótão, único ambiente do Anexo Secreto que não foi fielmente replicado durante a mostra.

Estava animada e ansiosa para verificar o que havia no andar de cima, especialmente por saber que nos dias atuais, mesmo os visitantes que se deslocam até a Holanda para visitar o verdadeiro esconderijo de Anne tem a oportunidade de subir até o sótão, local onde Anne costumava espiar a vida cotidiana, conversar com a cerejeira que existia no quintal e também local de seu primeiro beijo com o jovem Peter Van Pels, seu colega de esconderijo.

No entanto, para a minha grande surpresa (e decepção), o terceiro andar não tinha ligação alguma com Anne Frank, muito menos com a exposição em si. Era apenas uma galeria de quadros de arte contemporânea que residem permanentemente na Unibes, o que gerou uma quebra de expectativa em todos nós que subimos ao elevador, imaginando que se tratava de uma coisa, e no fim ser outra completamente diferente.

Este foi o único ponto realmente negativo da minha visita, não por conta da qualidade das obras apresentadas em si, mas pela quebra de expectativa. Também senti um pouco de falta de um setor, nem que fosse pequeno, de presentes e lembrancinhas. Apesar de estar ciente de que a história de Anne, bem como o seu legado e o que lhe aconteceu- não podem (e nem devem) ser usados para fins comerciais, acredito que não seria de todo mal utilizar o valor arrecadado em brindes inofensivos como chaveiros, agendas e canecas para promover mais eventos como este não apenas na cidade de São Paulo, mas em todos os demais cantos do país.



(Famosa prateleira de livros, construída por Johan Voskujil, pai de Bep, para esconder a entrada do Anexo Secreto.)


Em suma, a minha visita a exposição Anne Frank- Deixem-Nos Ser foi simplesmente inesquecível. De todos os jeitos possíveis. É uma experiência única, bem como tudo o que é relacionado a história de vida dessa jovem que teve uma vida tão curta, mas também longa o suficiente para  transformar o mundo através de suas palavras.


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