O longa metragem, baseado no livro de mesmo nome, passa uma mensagem poderosa a respeito do poder e do impacto dos estudos na vida do ser humano.
Escrito por: Julia Segre Data: 22/07/2025 Atualizado em: 26/07/2025
Considerado clássico, além de ser reprisado diversas vezes em escolas e em canais de televisão fechados, Escritores da Liberdade é um filme de 2 horas e 3 minutos lançado no ano de 2007. Dirigido por Richard LaGravenese, e estrelado por Hillary Swank, o filme é baseado em seu livro homônimo, que reúne mais de 150 diários dos estudantes da Sala 203 da Woodrow Wilson High School, palco principal de toda a narrativa apresentada.
(Figura 01: Pôster oficial do filme)
A trama gira em torno de Erin Gruwell, uma jovem professora que abandonou a carreira jurídica inspirada pelo exemplo de seu pai, que lutava a favor dos Direitos Humanos.
Idealista e determinada, a professora de vinte e três anos acreditava que não adiantava defender menores de idade em tribunais, onde, na sua visão, a batalha já estaria perdida. Para Gruwell, “ A verdadeira batalha começa dentro da sala de aula”.
Interessada e seduzida pelo programa de integração que o colégio Woodrow oferecia, Erin aceitou o cargo como professora da turma 203, determinada a trazer conhecimento para os jovens e garantir que eles tivessem uma boa base acadêmica.
(Figura 02: Erin aceitando o cargo de professora da sala 203)
O filme é muito profundo, portanto, possui vários conflitos e camadas, a começar do nível educacional. Ao mesmo passo que Gruwell vê o programa de integração como uma grande oportunidade, os demais professores e funcionários do local não enxergam a situação com os mesmos olhos, fator que contribuiu muito para o distanciamento de Erin em relação a sua chefe Margareth e aos seus demais colegas de trabalho.
Insatisfeitos com a situação, os professores da Woodrow Wilson se queixam de que a escola, outrora reconhecida como uma rede de ensino de qualidade, havia sido transformada, de repente, em um “reformatório infantil”. Com a chegada do programa de integração, a instituição perdeu 75% de seus alunos, o que prejudicou não apenas o nível de excelência acadêmica do colégio, como também a sua reputação.
(Figura 03: Professor Brian reclamando do programa de integração com Erin)
Além da impasse educacional, o filme também aborda conflitos em larga escala, denunciando as mazelas sociais e os problemas étnicos que os Estados Unidos enfrentava na década de 90.
Retratando uma guerra de gangues, que tinham como objetivo principal conquistar respeito e marcar seus devidos territórios, a escola estava inserida em meio a uma crescente onda de violência, onde diversas tribos inimigas eram obrigadas a conviver e dividir o mesmo espaço, causando conflitos e retaliações.
(Figura 04: Briga generalizada entre os alunos durante o horário de intervalo)
O filme trás como tema principal o poder da educação na vida do indivíduo, mostrando, com exemplos práticos, a determinação da Professora Gruwell para ensinar seus alunos de maneiras que fugiam aos métodos tradicionais.
Em meio a jogos e dinâmicas, a docente aproximava adolescentes de tribos opostas e os enxergava como indivíduos, minimizando os pré-conceitos e as inimizades a fim de promover um ambiente igualitário e propício para o aprendizado.
(Figura 05: Jogo da linha, primeira dinâmica da Professora Gruwell com seus alunos da sala 203)
No entanto, estas mudanças positivas demoraram um certo tempo para acontecer. Vítimas da violência e vivendo o pré-conceito todos os dias, os estudantes que pertenciam ao programa de integração viam a escola como uma alternativa ao reformatório. Estavam comparecendo ao local por obrigação, nunca visando o aprendizado que poderiam adquirir com aquela oportunidade.
Mesmo com as tentativas insistentes de Gruwel de se mostrar descolada e acessível aos alunos- Como a cena em que ela tentou ensinar poesia lírica para os estudantes usando uma composição do rapper americano 2pac, os estudantes estavam mais concentrados em permanecer com seus próprios pré-conceitos, questionando até mesmo as capacidades de Erin de lecionar do que tentando captar, de fato, as suas intenções.
Rebelando-se uns com os outros e contra as autoridades, as coisas tiveram que piorar muito antes de começar, de fato, a melhorar. O estopim para a eclosão dos sentimentos guardados pelos estudantes, alimentados pelo ódio e pelo rancor das gangues que participavam foi um desenho depreciativo do personagem Jamal, que acabou sendo recolhido por Erin e dando inicio a uma verdadeira discussão, que mostrou traumas e feridas antigas que muitos dos personagens carregavam.
(Figura 06: Desenho depreciativo de Jamal, recolhido por Erin.)
Pela primeira vez em todas as cenas em sala de aula, os alunos passaram a ouvir a visão de mundo de Erin, uma mulher branca de classe média alta, que estava abrindo os olhos deles a respeito da vida em gangues e do futuro que ela apresentava. Ao comparar a caricatura de mal gosto de seu aluno com as propagandas nazistas que resultaram no Holocausto, a docente percebeu que muitos dos alunos tinham graves deficiências acadêmicas, de forma que tais lacunas essenciais precisavam ser preenchidas a fim de que tivessem uma educação de qualidade para enfim ter a capacidade de pensar por si mesmos ao invés de se tornarem peões no jogo já perdido das gangues e da violência urbana.
Decidida a mudar a sua forma de ensinar, Erin começa a buscar apoio no conselho estudantil para os seus alunos, e acaba se deparando com uma surpresa negativa; o descaso da instituição com tais estudantes.
O conselho educacional, bem como os demais professores ainda ressentidos pela reputação do colégio, que fora arruinada- apresentou resistência para colaborar com as ideias da professora, incentivando-a de forma indireta a conseguir os recursos necessários de maneiras alternativas, o que foi o suficiente para iniciar um verdadeiro conflito entre Gruwell e sua superior Elizabeth.
(Figura 07: Elizabeth dizendo que os alunos do sistema de integração só deveriam consumir versões reduzidas e condensadas de obras clássicas.)
Em dado momento, a perspectiva dos alunos a respeito da forma como o sistema os trata fica evidente. Os estudantes sabem que para a instituição de ensino eles não passam de número; sabem que estão ali para preencher cadeiras, e que a diretoria não está nem um pouco interessada com o que eles aprendem ou deixam de aprender. De certa forma, todas as instituições- desde a família até o reformatório juvenil, onde muitos dos estudantes da sala 203 foram obrigados a frequentar- sempre os viram e os trataram desta forma, de maneira que qualquer tratamento diferente do esperado cause espanto e estranheza por parte dos alunos, como no momento em que Erin presenteia seus alunos com livros novos- fruto de um trabalho temporário ao qual ela se submeteu. A reação dos alunos, ao tatear os exemplares mostra o quanto eles estão cientes da diferença entre um livro novo, de qualidade, e um livro condensado, rebuscado e já utilizado em outras ocasiões.
(Figura 08: Personagens manipulando o livro comprado por Gruwell.)
Ao longo do filme, somos apresentados aos conflitos de alguns personagens. Dentre eles, cinco histórias se destacam e chamam mais a atenção, cada um por um motivo específico. Um deles falaremos mais adiante, portanto por hora foquemos nos quatro primeiros a serem mencionados.
Brandy é uma jovem que chegou a morar na rua após ter sido despejada por sua família não ter sido capaz de pagar o aluguel. Seu pai batia em sua mãe, e as vezes ela também acabava sendo vítima das mesmas agressões.
(Figura 09: Brandy ao lado de seu irmão na noite em que a sua família passou na rua.)
Marcus, outro personagem de destaque, narra a sua história ao lado de Clive, seu melhor amigo, que morreu após ter disparado acidentalmente contra si mesmo utilizando a própria arma que comprara. Marcus era muito jovem, e ficou tão aterrorizado com a situação que acabou permanecendo no mesmo lugar, ao lado do corpo de seu amigo, até a polícia chegar. Em suas próprias palavras, os policiais nada perguntaram, apenas viram “Uma arma e um negro”.
(Figura 10: Marcus ao lado do corpo de Clive.)
Preso no reformatório por um crime que não cometeu, Marcus teve de recorrer ás gangues para sobreviver a sua nova realidade, atitude esta que o afastou de sua mãe, que não aceitava aquele tipo de comportamento por parte de seu filho.
André é outro jovem que parece travar uma luta interna contra os problemas familiares e sociais que os rodeiam. Com o irmão mais velho preso e com uma séria chance de pegar prisão perpétua, a mãe de André mal consegue conversar com ele, não apenas pela semelhança que o garoto tem com seu pai, que foi embora, mas também por saber que seu irmão mais velho não está por perto. “Acho que ela nunca me viu” descreve André, que se vê dividido entre prosseguir seus estudos ou sucumbir ao antigo ofício de seu irmão, traficando drogas pela região.
(Figura 11: Forma como a mãe de André se comportava.)
Apesar da importância e do impacto que essas histórias possuem a personagem Eva é, com toda certeza, a aluna mais relevante e bem trabalhada no longa metragem dirigido por LaGravenese.
Filha de um latino respeitado na vizinhança onde morava, Eva viu seu pai ser preso injustamente por um crime que não cometeu, e desde então tem tentado cuidar de sua comunidade da mesma maneira que seu pai faria, protegendo uns aos outros acima de tudo.
(Figura 12: Eva admirando uma boneca Barbie segundos antes de seu pai lhe dar um par de luvas de boxe de presente.)
Tal mentalidade da personagem é questionada diante dos princípios da estudante quando o terceiro grande conflito do filme acontece. O assassinato de um garoto asiático em uma loja de conveniência, onde um jovem negro fora acusado injustamente pelo crime, e seria condenado pela justiça, uma vez que nenhuma das testemunhas que estavam no local foram capazes de ver, com exatidão, o verdadeiro autor dos disparos.
(Figura 13: Jovem asiático morto dentro da loja de conveniências.)
Nenhuma das testemunhas- exceto Eva, que conseguiu visualizar, de sua posição, o verdadeiro assassino do jovem asiático. A grande questão é que o autor do crime não era apenas de uma das pessoas de sua comunidade, mas também seu namorado- Paco.
Dividida entre contar a verdade e entregar um dos seus e permitir que um garoto inocente pague por um crime que não cometeu, este conflito persegue a personagem ao longo de todo o filme, uma vez que ela foi chamada para testemunhar. Eva é incentivada por todos- até mesmo por seus pais- a manter a discrição e salvar Paco da prisão, mas no clímax do filme Eva é inspirada pelo exemplo de Miep Gies e opta por denunciar o verdadeiro autor do assassinato, ainda que isso signifique o afastamento precoce de seus pais e a rejeição imediata de sua comunidade.
(Figura 14: Eva sendo agredida por antigos companheiros de gangue, após o resultado do julgamento.)
Para Gruwell, a conversa com seus alunos após a exposição do desenho depreciativo de Jamal abriu muitas portas. A professora percebera que os alunos tinham vivenciado muitas coisas- coisas que ela sequer teria margem para compreender se os mesmos não estivessem dispostos a compartilhar- e sentiu que precisava, de alguma forma, compreender a realidade vivenciada por seus alunos a fim de criar um vínculo mais forte com cada um deles.
Fortemente inspirada pela figura de Anne Frank, Erin comprou uma porção de cadernos, os quais ela chamaria de diários, e influenciou seus estudantes a criarem um projeto pessoal, o qual deveria ser preenchido todos os dias. O conteúdo escrito em cada caderno era opcional a cada estudante, mas a docente deixa bem claro que todos os dias os alunos devem se esforçar para fazer ao menos um registro.
Deixando uma ponte de diálogo aberta no abismo que existia entre os jovens e a professora, Erin esclarece que o armário da sala servirá de abrigo para os diários. “Toda vez que quiserem que eu leia, podem deixar o diário guardado bem ali” esclarece ela, como parte do combinado oficial com seus alunos.
(Figura 15: Erin entregando os diários para os alunos da sala 203)
Inicialmente, Erin não teve o apoio de seu pai- sua grande inspiração- em sua troca de profissão e no novo caminho que escolheu. Gruwell era lembrada a todo tempo, não apenas por seu pai, mas também por seu marido, de que a responsabilidade dela para com os alunos era apenas dentro da sala de aula, e que no final do dia, ensinar era “Apenas um emprego”. Ambos temiam que a determinação da jovem professora estivesse excedendo os limites daquilo que poderia ser considerado aceitável- e de certa forma não estava totalmente errados em seus palpites, uma vez que isso acabou custando o casamento da jovem professora.
(Figura 16: Cena de um jantar, onde Erin discute com seu pai e marido a respeito dos avanços em sua profissão)
No entanto, após uma leitura fluída de todos os diários deixados no armário por Erin, uma vez que nenhum dos pais ou responsáveis dos alunos da sala 203 compareceram a reunião para acompanhar o progresso dos jovens, Erin percebeu que era necessário mudar a estratégia de ensino, uma vez que o conhecimento que eles necessitavam ia muito além do acadêmico, visto que a maioria dos alunos não tinha nem mesmo condições de saneamento básico ou alimento garantido na mesa.
Decidida a conseguir o apoio e a orientação de seu pai, experiente na área de direitos humanos, Erin convenceu o mais velho a ler os diários escritos pelos alunos, gesto que se tornou um divisor de águas para que ele mudasse a própria opinião a respeito do trabalho que sua filha estava fazendo.
Se antes acreditava que se tratava de um trabalho, agora Stephen enxergava os objetivos de sua filha como uma verdadeira missão, participando ativamente dos passeios, ajudando-a promover jantares e até mesmo dirigindo para levar e buscar os alunos em suas residências.
(Figura 17: Stephen ao lado de Brandy e André em um veículo rumo ao museu memorial do holocausto)
Tais estratégias e tratativas, nunca antes vistas ou vivenciadas pelos alunos, promoveu uma mudança extremamente positiva na vida de cada um dos alunos.
Cientes dos limites que o preconceito pode atingir, e mesclando os acontecimentos da segunda guerra com aqueles que se refletiam em suas próprias vidas, os frutos dos ensinamentos de Erin começaram a ficar visíveis fora de sala de aula. Muitos personagens passaram a ver uma perspectiva nova para si mesmos, como a jovem Gloria, que confessa a todos que até mesmo ela se via engravidando na adolescência, mas que hoje tem outros planos pra si mesma, Marcus se reconciliando com sua mãe, e o personagem, dono de um revólver, que descarta a arma de maneira segura na rua, dando fortes indícios da mudança de mentalidade que ele passa a ter devido as fortes experiências que tem vivenciado ao longo dos últimos dias.
(Figura 18: Marcus se reconciliando com sua mãe)
A mudança é tão nítida e perceptível que a notícia da melhora dos alunos começa a se espalhar pelos quatro cantos do colégio, de forma que reflete até mesmo em outras classes. A personagem Victoria, única aluna negra pertencente a classe avançada, apela para que Elizabeth a transfira para a sala 203 após ter ouvido falar do constante crescimento e desenvolvimento que os jovens- jovens como ela- vivenciam todos os dias.
(Figura 19: Victoria sendo exposta na aula avançada de Brad Rudy)
No entanto, nenhuma das histórias de mudança é mais impactante do que a do jovem Alejandro, um aluno tímido da sala 203. Após pedir para compartilhar com a professora e colegas um trecho de seu diário, descobre-se que o jovem havia sido despejado de sua casa após a mãe não ter conseguido pagar o aluguel, e que desde então, o rapaz vinha morando na rua.
Alejandro confessa que, embora esteja vivenciando a fase mais difícil e assustadora de sua vida, ele passou a ter esperança em dias melhores, pois frequenta as aulas da professora Erin Gruwell, na sala 203. O garoto destaca a importância daquele método de ensino em sua vida, evidenciando que aquelas aulas são: a única coisa que é capaz de me trazer esperança.
(Figura 20: Alejandro sendo confortado por seus colegas de classe.)
Como já dito anteriormente, a vida e a obra de Anne Frank influenciou muito a educação dos alunos da sala 203, podendo ser considerada até mesmo a base da educação que receberam.
Todos os estudantes, cada um a sua maneira, se inspiraram na história da adolescente judia que se escondeu dos nazistas durante a perseguição ao seu povo na Segunda Guerra Mundial, embora Eva e Marcus se mostrem mais tocados por essa narrativa.
Após sugerir que os estudantes escrevessem cartas para Miep Gies, uma das pessoas que ajudou a esconder Anne e sua família, os estudantes, já unidos como um todo, fazem uma verdadeira manobra para trazer Miep Gies a escola, onde ela dá um depoimento emocionante a respeito da verdadeira humanidade e quais são os verdadeiros fatores que a compõem.
(Figura 21: Miep discursando a respeito da humanidade para os estudantes da sala 203.)
Quando Marcus, um grande admirador de sua coragem e a atitude a chama de heroína, Miep desmente e diz que só fez aquilo que precisava ser feito. Ela elogia a capacidade dos alunos, dizendo que eles eram os heróis- todos os dias, além de declarar que “Seus rostos estão gravados para sempre em meu coração.”
Como projeto final antes da formatura de seus alunos, Erin resolve fazer a publicação do diário de seus alunos, condensando todos os manuscritos em um único livro, que mais tarde seria conhecido como Escritores da Liberdade.
Após conseguir, com um conhecido, alugar diversos computadores, todos os alunos se uniram para digitalizar os arquivos físicos que contavam a narrativa de suas vidas, a fim de eternizar aquele ensino médio que ficaria mundialmente famoso, caracterizado pela união- tida como impossível- entre tantos grupos tão diferentes e indistintos uns dos outros, graças a determinação e a paixão da professora Erin Gruwell, que trouxe uma nova perspectiva de vida aos seus alunos, que tiveram suas vidas completamente transformadas, a mesma medida que transformaram a vida de sua professora também.
(Figura 22: Estudantes trabalhando na publicação do diário físico.)
No mais, podemos inferir que Escritores da Liberdade é um longa metragem emocionante, que trás consigo uma infinidade de lições de vida, além de abrir espaço para diversas discussões a respeito de temas importantíssimos como a violência urbana, racismo, sistema prisional e educacional juvenil, amor, resiliência e determinação, inovação científica e acadêmica, dentre tantos outros.
Em suma, podemos afirmar que o filme destaca da melhor maneira o que Otto Frank- Pai de Anne Frank, a autora do diário mais famoso do mundo- acreditava e defendia: Para se construir um futuro, é necessário conhecer o passado.
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