Desafio de Escrita 01

Introdução ao Desafio de Escrita

Essa sessão foi criada de forma improvisada, a fim de mostrar minhas habilidades de escritora em meio a uma temática repentina. 

Sempre fui muito fã de desafios de escrita, pois gosto de aprimorar a minha prosa ao máximo possível, e um dia, enquanto vagava pela única rede social que tenho (Pinterest) encontrei essa pequena série de desafios de escrita, nos quais resolvi me aventurar e trazer o resultado na íntegra para meus humildes leitores do Literatura da Meia Noite.

Ao contrário de todos os outros textos, este foi escrito diretamente na plataforma ao invés do word, e não foi editado após a finalização do desafio. Estou trazendo o material 100% bruto a vocês, na íntegra.

Este texto começou a ser escrito no dia 20 de Outubro de 2025, as 10h03 da manhã, em uma Segunda-Feira. Comecemos.



Literatura da Meia Noite

Ele ainda não estava morto.

Ele ainda não estava morto, embora sentisse que estivesse.

Permaneceu atirado no chão até ter certeza que conseguia se mover, e na ausência de uma ameaça, tentou começar a se levantar.

Era simplesmente insano pensar que apenas algumas horas antes ele estava dando voltas e mais voltas naquele parque que ficava próximo a sua residência, caminhando com o cachorro como se fosse apenas o inicio de mais um dia normal, onde ele estaria preso naquela rotina tão horrenda que ele costumava tentar fugir.

Sempre desejou uma mudança de patamar, uma alteração de status. Sempre almejou o novo, como um viajante do deserto que anseia por um pingo de água no meio do sol quente.

No entanto, se ele soubesse que era isso que o "novo" significava...

-Kevin...? Ouviu alguém chamar- KEVIN?

A voz pareceu puxá-lo de volta para a realidade. As informações começaram a correr em sua mente, uma sobrepondo a outra, enquanto o homem tentava fazer conexões entre tudo o que aconteceu e os momentos que antecederam a este.

Eles tinham sofrido um acidente. É verdade. A van que ele dirigia capotou no meio da estrada. O veículo pegava fogo há uns poucos palmos a frente dele, e o cheiro de enxofre preenchia o céu azul sem nuvens, que trazia consigo a promessa de um final de semana ensolarado, o motivo pelo qual a van havia sido completamente ocupada por turistas ansiosos demais para fugir do caos da cidade e pobres demais para pagar por uma empresa de ônibus autorizada ou para dirigir no conforto de seu próprio carro popular.

Em um momento ele estava respondendo o áudio de Carlão, seu chefe, que reclamava que seu itinerário estava atrasado. No outro, o pedágio ficou a vista. A seguir, ele se abaixava para procurar, no porta-luvas, as malditas moedas que complementam a taxa obrigatória a se pagar, até que...

Preto.

Gritos e...sangue. Muito sangue.

Meu Deus. Pensou, usando as mãos feridas para se sentar diante da grama, fora da estrada onde sua van originalmente estava. Seus olhos passaram rapidamente pelos carros que passavam ao lado, todos andando devagar e parando uma ou duas vezes para olhar o que estava acontecendo.

Mulheres curiosas sussurravam coisas para os maridos. Crianças capturavam o desastre com seus smartphones. Kevin se perguntou se, a essa altura do campeonato, alguém chamaria pelo resgate.

-KEVIN! Gritou novamente aquela voz levemente reconhecível. Kevin sabia que já a tinha ouvido antes, mas seu ouvido chiava e ele não conseguia ter cem por cento de certeza de quem era.

Ousou virar a cabeça na direção de quem o chamava e localizou Valéria, sua turista preferida. A publicitária de vinte e seis anos amava a praia acima de qualquer outra coisa e costumava brincar que em uma vida passada, deveria ter sido parte da maré que encobre o oceano.

A herdeira morava em uma região nobre do bairro do Morumbi, mas se considerava "gente como a gente". Gostava de ir nas vans superlotadas que Kevin dirigia, contanto que fosse ele, é claro, o condutor. Estava sempre animando as viagens. Fazia amizade com todos os estranhos da van, sejam eles homens, mulheres, crianças ou idosos. Dizia que a praia era o remédio para curar todos os problemas da vida urbana.

Teve um dia ruim? Praia. Teve um dia bom? Praia. Quer esquecer de algum problema? Praia. Quer lembrar de onde veio? Praia. 

Para Valéria, não importava muito a pergunta. 

A resposta sempre seria...

-KEVIN!

...Praia.

Ousou encarar a velha amiga e ficou imaginando que, se estivesse como ela, sua própria situação não seria nem um pouco boa. Valéria estava toda ensanguentada, uma ferida na cabeça, cacos de vidro presos em seu braço, e o tornozelo que parecia torcido, ou quebrado, ou os dois, o que a prendia no mesmo lugar e a impedia de se locomover até ele, restando a pobre moça gritar o seu nome e aguardar pela boa vontade dele de caminhar em sua direção, o que Kevin finalmente fez, sem hesitar.

-Você está bem...? Perguntaram ao mesmo tempo.

A resposta era menos óbvia do que parecia.

 -Isso vai respingar em mim. Balbuciou Kevin, a voz trêmula. 

Ele tocava as mãos de Valéria com uma sensação agridoce tomando conta de seu peito. Ao mesmo tempo que agradecia por estar ali e por não precisar fazer tudo isso sozinho, ele temia o fato de poder senti-la. 

Por que se ele podia senti-la significava que aquilo era real.

Mais do que real, que tinha realmente acontecido.

Aquilo realmente tinha acontecido.

O acidente, a colisão, os ferimentos... Tudo isso tinha acontecido de verdade.

Tudo isso tinha acontecido...por causa dele.

-Onde estão os outros? Perguntou o rapaz, embora conseguisse olhar nos olhos de Valéria e descobrir exatamente a resposta de sua pergunta.

Ainda sim, ele quis confirmar.

-Eles estão mortos. Ai meu Deus, eles estão mortos, não estão...?

O vento se encarregou de responder, varrendo completamente as dúvidas de Kevin.

Ele não conseguia se lembrar se tinha dito para os passageiros usarem cinto de segurança.

Ele não conseguia se lembrar se tinha dito qualquer coisa para os passageiros, em primeiro lugar.

Kevin não estava morto. Não ainda.

Mas pela primeira vez naqueles vinte e nove anos de vida, ele gostaria de estar.

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