COMO FUNCIONA O "DEFESA DE PERSONAGENS"
Aqui, vamos discutir um pouco a respeito de alguns personagens da ficção que eu considero injustiçados por algum motivo, razão ou circunstância. A função deste quadro é enxergá-los sob uma ótica diferente, que faça um constraste com a opinião da maioria. Sinta-se livre para concordar, discordar e debater, contanto que seja de forma respeitosa e consciente.
QUEM É
Jane Margolis é uma personagem secundária de Breaking Bad interpretada por Krysten Ritter. Sua primeira aparição ocorreu no episódio cinco da segunda temporada ("Breakage"), e a sua última aparição foi ao final do filme El Camino.
A personagem, muito querida entre o público, era uma jovem de vinte e seis anos que trabalhava em um estúdio de tatuagem. Ela era vizinha de Jesse Pinkman, e administrava o imóvel de seu pai.
Foto 01: Jane Margolis em Breaking Bad.
Jane era uma jovem introspectiva, porém sincera. Ela se aproxima e se apaixona de seu vizinho, Jesse Pinkman de forma rápida, mas intensa, e tem alguns pontos interessantes em comum com ele, como o amor pela arte e a aversão a figuras de autoridade. Isso é exemplificado muito nitidamente no primeiro momento em que Jane se depara com Walter White, que se passou por pai de Jesse naquele momento para tentar conseguir conversar com seu parceiro, sem sucesso já que a própria Jane o barrou.
Foto 02: O primeiro encontro de Jane e Walter White.
É interessante analisarmos a maneira como, desde o começo, Jane foi pouco amigável com Walter, e como isso, de alguma maneira, contribuiu para selar o destino dela, mas disso falaremos depois. Por hora, vamos focar nossa atenção a respeito da personagem em si.
Jane é uma personagem pouco explorada, mas os poucos detalhes que são mostrados a respeito dela são extremamente interessantes e instigantes. Jane tem uma habilidade notável com o desenho e uma capacidade intrínseca de observação, como na cena em que Jesse mostra a Jane seus desenhos da infância, e ela observa que todos eles eram, na verdade, fragmentos da personalidade dele.
Foto 03: Jesse mostrando seus desenhos para Jane.
Mas por baixo da jovem responsável que administra o imóvel do pai e cuida de suas plantas, há uma moça viciada em heroína. Após muita insistência de seu pai, ela começa a frequentar a reunião dos Alcóolatras Anônimos e consegue ficar 18 meses longe da droga, e chega a lutar contra o vício na primeira oportunidade que Jesse, sem saber do histórico dela, sugere que os dois usem drogas juntos pela primeira vez.
Foto 04: A moeda de 18 meses de sobriedade de Jane.
Jane também parecia lutar para manter uma imagem sólida ao seu pai, desejando que ele colocasse fé em sua plena recuperação. Parte dessa necessidade de aprovação surge na cena em que ela apresenta Jesse apenas como um inquilino qualquer a Donald, sem revelar a ele o relacionamento que eles mantinham por medo de julgamentos devido a profissão ilegal que Jesse exercia, o que gera um conflito entre os dois.
A frieza com a qual Jane confronta o namorado quando ele coloca a sua frustração em voz alta é, na verdade, um mecanismo de defesa. Jane acreditava que não poderia ser influenciada pelos hábitos de Jesse. Ela queria e precisava acreditar nisso, mas nem toda a força de vontade do mundo pode te impedir de retornar a um vício quando você convive com ele todos os dias, ainda mais de tão perto.
Infelizmente, Jane não apenas retornou o seu vício a heroína, como também apresentou a droga a Jesse. O que acontece com eles após terem retornado aos velhos hábitos é deprimente. A garota que vivia desenhando e gostava de ir a museus foi sumindo e dando lugar a sombra de alguém que um dia Jesse conheceu. As galerias de arte foram substituídas pela cama, que passou a ficar cada vez mais confortável para ambos, de maneira que eles já não encontravam mais forças para sair dali.
Foto 05: Jane e Jesse prestes a ficar sob o efeito da heroína.
Temendo que seu pai descobrisse ou a julgasse por seu fracasso, ela resolve fugir com Jesse utilizando a parte do dinheiro dele em seu negócio de metafetamina. Febris, os dois planejam o seu futuro na Nova Zelândia e prometem ficar sóbrios. Ao chegar lá, supostamente, Jane viveria da sua arte e Jesse se tornaria piloto, mas assim que os dois retornam ao quarto e se deparam com as seringas, todas as promessas se tornam vazias.
Jane não sabia, mas aquela seria sua última noite de vida. Após ameaçar contar tudo o que sabe a respeito da vida dupla de Walter, caso Jesse não recebesse sua parte do acordo, Jane cai no sono, dopada de heroína, e seu destino se encontra com o de Walter White, que a muda de posição na cama e a vê sofrer uma overdose sem nada fazer, lhe causando uma morte lenta e torturante.
Foto 06: A morte de Jane.
A morte de Jane é, na minha opinião, a mais marcante de Breaking Bad. Embora não seja tensa como a morte de Hank, ou chocante como a de Gustavo, é a morte que mais causa impacto na história.
O nome de Jane permanece sendo mencionado ao longo de todas as temporadas, e é por causa do sofrimento causado por ela que seu pai enlutado acaba cometendo um erro que causa a morte de 167 pessoas que estavam a bordo do voo Wayfarer 515, um dos temas centrais da terceira temporada da série.
A morte dela também assombra Jesse para o resto de sua vida, lhe causando um sofrimento permanente, além de marcar o primeiro momento em que Heinsenberg- A persona maligna de Walter White- o domina completamente. Não importa o que digam, a morte de Jane não era necessária. Ela ameaçou Walter, mas não podia ser nem de longe uma ameaça, algo que pudesse fazer com que Walt tivesse problemas com a polícia. Pelo contrário. Jane não passava de uma viciada em recuperação. Uma pessoa que precisava muito de ajuda, que prometia as coisas e não cumpria, devido ao seu vício em relação a heroína.
Este fato, é claro, não a torna uma vítima da história. Em Breaking Bad, nós dificilmente nos deparamos com vítimas, apenas com pessoas boas ou ruins que sofrem o peso de suas próprias escolhas. Não podemos esquecer que Jane disse, com frieza a Jesse que "Não existe um você e eu", mas que também mudou completamente de ideia ao perceber a quantidade de dinheiro que ele deveria receber de Walter.
Foto 07: Jane ameaçando Walter no telefone.
Além disso, ela era altamente capaz de influenciar Jesse, o colocando contra o seu parceiro e praticamente ditando suas escolhas. Isso não pode ser considerado, nem de longe, uma conduta saudável.
Dito isso, por quê defendê-la?
DEFESA DE JANE MARGOLIS
É justamente com base neste último argumento que vou iniciar a minha defesa. Jane era altamente capaz de influenciar Jesse- E não o contrário.
E em todos os momentos em que eles estiveram juntos,
(antes de Jane sucumbir ao vício da heroína, é claro) Jane procurava incentivar Jesse a ter a sua própria opinião, além de apresentá-lo a diversos outros pontos de vista da mesma situação. Tinha um quê de filosófico nas conversas que eles trocavam, especialmente nas falas de Jane, que sempre pareciam fazer Jesse refletir a respeito do que eles falavam, mesmo depois que a conversa deles já estivesse chegado ao fim.
Foto 08: Jane e Jesse discutindo no carro dele.
Por conta disso, acho altamente improvável que Jane caísse no vício no momento em que ela caiu, entendem? Não estou dizendo que foi roteiro ela voltar a usar heroína. Esse tipo de coisa pode acontecer a muitos viciados, mas não do jeito que ocorreu. Jesse estava visivelmente magoado por tudo o que havia acontecido com Combo, e quando ele pede para Jane ir embora por que ele quer usar drogas, e vemos Jane caminhando na direção da porta para depois retornar ao quarto, não imaginamos que ela, na verdade, vai se juntar a ele no vício. Pelo menos eu não imaginei.
Eu imaginei que Jane o ajudaria, tentaria conversar com ele ou convencê-lo, e ela até que faz isso, mas os argumentos dela são fracos e pouco convincentes, como se ela mesmo estivesse se segurando para não usar naquele mesmo instante, o que é irônico, já que ela esteve em uma situação muito mais perigosa de recaída anteriormente, quando Jesse sugeriu que usassem cristal ao lado dela, na cama em que eles dividiam.
De qualquer maneira, eu acredito verdadeiramente que se Jane agisse de forma linear ao que seu personagem estivesse aparentando, ela convenceria Jesse a ficar limpo e desistir da vida de traficante, o que, com toda certeza, faria com que o personagem desaparecesse da série ainda na segunda temporada. Para evitar que isso acontecesse, no entanto, Vince Gilligan propôs a recaída de Jane, desencadeando na narrativa todos os eventos já citados.
Embora o resultado, vendo do ponto de vista da própria narrativa, tenha sido muito mais satisfatório da maneira que ocorreu, percebemos que há uma certa incoerência, ainda que mínima, nas atitudes de Jane Margolis para proporcionar ao show um grande Season Finale.
O questionamento que fica é: Até onde você trairia um personagem para garantir um grande enredo?





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